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Ricardo Boechat…

Por Carlos R. Ticiano.

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Ricardo Boechat...

E numa manhã ensolarada, no auge de sua carreira jornalística, Ricardo Eugênio Boechat foi embora de forma trágica e triste. Um jornalista nato, dono de um estilo inconfundível, capaz de arrematar uma legião de seguidores, seja no jornal, na revista, no rádio ou na televisão. Vai ser difícil definir com palavras quem era Ricardo Boechat, que fornecia no ar o número do seu celular, para se interagir com os ouvintes.

Ninguém poderá substituí-lo, pois ele era único, capaz de levar o telespectador a refletir através de seus comentários, o que estava realmente acontecendo no país. Sagaz e de forma sutil, sabia acertar o alvo pretendido com precisão. Carismático e irreverente tinha a liberdade de fazer críticas a quem merecesse ser criticado. Não fazia conchavos em beneficio desta ou daquela pessoa, para poupá-la de uma crítica.

Ao contrário de tantos apresentadores engessados de telejornais, que se limita a ler as notícias e em seguida dizer: Boa Noite! O jornalista Ricardo Boechat tinha o dom da palavra. Sabia falar sério, fazer piadas e fazer brincadeiras, sem ser uma pessoa caricata, incoerente e vulgar. Sabia impor-se com maestria, sendo um modelo de jornalista a ser imitado.

O seu lado humorístico se destacava principalmente nos microfones da BandNews FM, como âncora do noticiário matinal, ao dialogar-se com o jornalista José Simão. Diante de frases prontas, ele mencionava: Buemba! Buemba! E dizia com ênfase: Breaking News!  Deste jargão, podia se esperar que viesse de tudo, a ponto de ninguém conseguir segurar os risos. Era uma parceria impecável, um cruzava a bola e o outro fazia o gol do humor.

Atento a tudo que acontecia nos bastidores dos noticiários, sempre enviava comentários criticando ou elogiando seus colegas de redação. Sempre de forma humorada com frases, desenhos e charges. Ninguém escapava de suas canetinhas e de seu olhar clínico. Também sabia fazer brincadeiras consigo mesmo, espalhando as pérolas pelas redes sociais.

Como no caso em que supostamente falou com sua mãe pelo celular perguntando se ela tinha recebido dinheiro das empreiteiras. Do improviso de um guarda-chuva com um plástico, revestindo sua cabeça. Andando descontraído de terno e gravata com chinelos nos pés, pelos corredores da redação. Da touca de lã que vestiu em um dia de frio para esquentar sua careca. Na praia, recolhendo o lixo deixado pelos banhistas exibindo seu corpinho escultural.

No improviso com um clipe, concertando a haste dos óculos, diante de um incidente. Com um sutiã por debaixo da camisa, em um posto de vacinação, mencionava a importância de se proteger, mesmo diante de uma picada de agulha. Com seu amigo Boris Casoy, fazendo gestos de metaleiro, ao estilo tiozinho. Sem falar naquele dia em que apresentou o telejornal de peruca, com a finalidade de insinuar que calvície tinha cura.

Costumava deixar seus convidados sem ação, diante de suas perguntas pertinentes, diretas e objetivas. Muitas vezes na apresentação do telejornal, deixava seus colegas de bancada, muitas vezes sem ação diante de suas tiradas de humor. Quando fazia um determinado comentário em cima de uma notícia séria, ao final virava-se para o lado e chamava pelo nome quem estivesse com ele na bancada.

Jornalista competente sabia o que estava dizendo e se expunha sem medo.  Não tinha papas na língua, ou seja, falava sem rodeios, dizendo tudo que sabia de forma coerente e honesta. Nestas quatro décadas de jornalismo, passou pelo Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, O Dia e atualmente pela revista Isto É. Foi repórter no Diário de Notícias para o colunista social Ibrahim Sued, foi colunista no Jornal O Globo, assinando a coluna Do Swann, foi âncora no noticiário matinal da BandNews FM e também âncora do Jornal da Band.

Se Ricardo Boechat pudesse dizer uma frase derradeira, com certeza diria a sua esposa Veruska: Querida! Desculpa-me, não vou poder almoçar com você hoje…

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Peripécias de um garoto…

Por Carlos R. Ticiano.

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Quem nunca aprontou das suas quando garoto, deixando os pais perplexos, sem saber o que dizer ou fazer, diante das brincadeiras ou das artes propriamente ditas. Não faltava imaginação e criatividade, para a garotada colocar em prática a balbúrdia do dia a dia. Algumas inocentes, outras nem tanto. A turma era terrível!…

Como o dia em que prenderam um gato dentro de uma gaiola. Depois de andarem com o bichano preso na gaiola por algum tempo, resolveram soltá-lo. O gato, como um leão selvagem quando escapa de uma jaula, saiu enfurecido e disposto atacar o primeiro que encontrasse pela frente. Nunca mais se teve notícias do gato…  

Jogar bola no fundo do quintal era uma algazarra. Mas sempre tinha um que exagerava no chute, e mandava a bola no quintal do vizinho. Para recuperá-la, era preciso que alguns subissem no muro para distrair o cachorro, enquanto o mais corajoso pulava o muro em busca da bola. Era preciso ser rápido, pois o cachorro não estava para brincadeiras, e o pior às vezes acontecia… 

Sair na captura de um sorveteiro era um alvoroço e uma diversão, com a certeza de alguma trapalhada. Quando avistavam o sorveteiro, saiam em disparada para cercá-lo e pedirem o sabor preferido do sorvete. O mais engraçadinho da turma, na pressa em pedir o sorvete exclamou: o meu é de “abaixa aqui”! Foi uma gargalhada geral…

Era freqüente, brincar de esconde-esconde dentro da igreja, enquanto a aula de catecismo não começava. Qualquer lugar servia para se esconder: atrás do altar, na sacristia, debaixo do banco, dentro do confessionário. Até o dia em que um desatento, não percebendo uma pessoa se confessando, entrou no confessionário e deu de cara com o padre. Neste dia, sobrou até para a catequista…

Descer a calçada da rua em um carrinho de rolimã, era uma aventura digna de uma corrida de Fórmula 1. Talvez nem Max Verstappen, teria a coragem de encarar os buracos e as pedras soltas da calçada. Quando alguém surgia no portão da casa e avistava o carrinho de rolimã, voltava correndo pra dentro de casa. Era mais seguro aguardar a entrada do safety car ou esperar o fim da corrida…

Uma vez por mês, Dona Maria (italiana) aparecia pedindo para que alguém escrevesse uma carta, para ela enviar para a sua filha que morava em São Paulo. Carta escrita e envelopada, lá ia a turma deliciar-se das frutas, que ela cultiva na chácara em que morava. A goiabeira era a preferida por suas goiabas brancas e vermelhas e seus bichinhos de estimação. Certo dia, um caiu da goiabeira e quebrou o braço. Foi um Deus nos acuda…

Quando o dentista aparecia na sala de aula e com a autorização da professora, convocava alguns alunos para acompanhá-lo até o consultório dentário, era um desespero geral. Certa vez, dos quatro alunos convocados, um conseguiu desvencilhar-se da turma a caminho do consultório, só voltando na escola no dia seguinte. Incrédulo, o dentista se perguntou: Não eram quatro alunos?…

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Vizinhas nada amigáveis…

Por Carlos R. Ticiano.

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Residir em apartamento, todos sabem que é um desafio manter-se em harmonia com os vizinhos. Telma e Lúcia são duas vizinhas que ignoram todos os conceitos de uma boa vizinhança e vivem se estranhando, seja por que motivo for.

Raramente se encontram, e quando isso acontece, um cumprimento é o máximo que conseguem expressar. No edifício onde moram, são conhecidas como Telma raio e Lúcia trovão, pois quando se desentende o tempo fecha. 

Por um golpe do acaso, dia desses, se encontram na feira livre do bairro. Ao passarem um pela outra, seus carrinhos de feira, se enroscaram. Para qualquer pessoa, seria apenas um incidente. Mas para Telma e Lúcia, foi o suficiente para um bate-boca. Sinceramente Lúcia: Com tantas pessoas nessa feira, você tinha abalroar justamente o meu carrinho. Afinal, “por quem me tomas?” Não entendo o significado da expressão idiomática, Vilma retrucou: o que eu tomo ou deixo de tomar não é problema seu!

Vejamos se não é, respondeu Lúcia! Diante de dois carrinhos abarrotados de hortifrúti, ambas viram dois tanques de guerra, não tendo argumento para acalmá-las, por parte dos que estavam nas bancas próximas. A guerra foi declarada! O resultado foi tomate, cebola, mamão pra lá; batata, cenoura, pepino pra cá. Uma chuva de alface, cebolinha, almeirão, acelga caiu sobre todos que passavam.

Os transeuntes até que tentavam apaziguar a situação, mas nada as convenceu a assinar um tratado de paz. Mas o pior ainda estava por vir. Quando Telma viu uma embalagem de ovos no carrinho de Lúcia, não pensou duas vezes: Foi uma artilharia de ovos para todos os lados, a ponto de acertar com precisão, uma criança em seu carrinho de bebê.

Nem o guarda municipal, que tentou apaziguar as duas briguentas, escapou de levar um ovo em seu quepe. Uma situação lamentável, esdrúxula e ao mesmo tempo cômica destas que aparecem nas cenas de novelas. De volta, Telma e Lúcia, cada uma empunhando seu carrinho de feira, praticamente vazio, chegaram ao edifício onde moravam. Na portaria, Antonio diante do estado em que se encontravam, perguntou: o que aconteceu?

Nenhuma das duas respondeu nada. Sérias e caladas pegaram o elevador de serviço, subindo cada qual para o seu apartamento, no sexto andar. Antonio, diante do silêncio das duas, não precisou esperar muito para saber o que tinha acontecido. À noite, no telejornal regional, descobriu o que tinha acontecido na feira.

Depois deste episodio deplorável, quase não são vistas e relacionamento entre as duas, parece que melhorou. Espere um pouco! Aquela não é Telma na entrada do elevador, agarrando Lúcia pelos cabelos? “Pelas barbas do profeta!” Lúcia usa peruca?…

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O Coringa que te habita

Por Leonardo Torres.

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Leonardo Torres, 30 anos, Pesquisador, Professor, Doutorando em Comunicação e Cultura e Pós-graduando em Psicologia Junguiana

Não é surpresa que o filme “Coringa”, de Joaquim Phoenix e Todd Phillips, tenha obtido 11 indicações ao Oscar. Este é um dos filmes que, no mínimo, gostando ou não, intrigam cada um de nós. Assim que o filme foi lançado, seu impacto causou tanta estranheza que muitos se perguntaram: quem é e onde está o Coringa da vida real? Consequentemente, muitos dedos foram apontados: aos políticos, aos marginalizados, etc.. A resposta mais convincente foi dada por um colega da Psicologia, José Balestrini, que pontou que o Coringa é, simplesmente, o coringa: ou seja, uma máscara que cabe em todos nós.

A outra face do Coringa é o palhaço Happy, traduzindo para o português: o Feliz. Ele quer trabalhar, é dedicado, tenta ganhar o seu dinheiro, sonha em ser um astro, ou melhor, ter reconhecimento, isto é, como sinônimo disso tudo: ser feliz. Esta descrição corresponde à grande parte da sociedade atual. A busca da felicidade como sinônimo de sucesso, dinheiro e poder é um imperativo no mundo.

Porém, a busca da felicidade gera uma expectativa tão grande na sociedade, que muitos indivíduos, hoje, ao não conseguirem alcançá-la, fazem uso equivocado de medicamentos, como o clonazepam, para suportar a frustração de suas vidas. A questão é que felicidade não é sinônimo de dinheiro, sucesso ou poder. A Psicologia Analítica entende que não é possível estar em um estado de felicidade sem, frequentemente, enfrentarmos um estado depressivo. E, quem nega as próprias tristezas, frustrações, entre outros sentimentos que julgamos negativos, acaba por torná-los mais frequentes e maiores. O clonazepam ajuda a anestesiá-los, mas não os elimina.

Quando a negação destes sentimentos já não é mais suportada, eles nos tomam de uma vez só. Por isso, é muito comum vermos popstars que conquistam uma rápida fama enfrentarem um quadro depressivo logo em seguida. Se aceitássemos nossas tristezas em pequenas doses diárias, conseguiríamos também ser felizes em doses diárias.

Quando Happy veste a máscara do Coringa, ele não aceita em si todas suas dúvidas, frustrações e tristezas, o que seria o caminho certo, psicologicamente falando. Ele rompe com o próprio Happy em si, ele cinde, e é engolido por todos estes sentimentos sombrios. Isso faz nascer o Coringa. Nós não somos diferentes: todos temos tristezas, frustrações e dúvidas. Resta-nos entender as nossas e não apontar dedos para as do indivíduo ao lado. O lado sombrio e negativo da vida é inevitável. A única coisa possível de se fazer é escolher o que fazer com elas.

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