Fique conectado

Crônicas

CRÔNICA DE UM ROUBO

Por Nilson Lattari

Publicado em

164

Qual a sensação de se sentir roubado quando olhamos no espelho o retrato fiel e perfeito do ladrão? Quando o tempo passa e o criminoso que nós construímos e o tempo foi transformando o rosto, e se disfarçou e sabemos, diante dele, que a confissão não é mais necessária. E no diálogo mudo que estabelecemos as perguntas e as respostas não são mais mistérios para os dois?

Qual foi o momento em nossas vidas que pensamos o dia e a hora em que a decisão que julgamos errada, respondida no futuro, nos transportou para a pergunta: quando eu me roubei de mim?

O futuro quando se vai construindo é um castelo de sonhos que estabelecemos com rostos e profissões ainda nascendo na imaginação, e ele é uma várzea aberta sem obstáculos que a força vital da vida nos alavanca, nos impulsiona. Os sonhos são permitidos a todos. Os sonhos são democráticos, embora possam ser conflitantes com as realidades que não queremos enxergar. Os sonhos são assim, exagerados. No futuro, quando o passado já tem rostos e trajetórias, é o momento em que estabelecemos o balanço de nossas vidas e descobrimos que alguém nos roubou alguma coisa, rompeu algum elo no passado e aconteceu o desvio que não estava programado.

Podemos culpar a nós mesmos, podemos culpar as circunstâncias, mas alguém nos traiu, alguém rompeu a barreira e a muralha da razão e como um dique arrebentado deixou planos e estratégias serem levadas água abaixo.

Foi o impulso, foi uma irresponsabilidade, que nunca poderá ser consertada, nossas defesas foram rompidas e compreendemos como são frágeis os sonhos, como são nuvens, como mudam ao sabor dos acontecimentos.

A esperança morre, ela deixa de existir no coração partido, não o coração quebrado, mas o coração que parte, que foge, que se distancia, que nos é roubado. Nada está sob controle, a menos que nos afastemos da humanidade ou abramos mão dela. A juventude nos dá uma ideia de estarmos certos, e quando ela passa, compreendemos que as nossas supostas certezas não passavam de empáfia e desconhecimento do mundo, ou medo dele. Somos arrogantes com a arrogância vencida.

Somos pura emoção, porque a emoção é uma droga que nos toma. É muito bom se emocionar, se entregar, imaginando que o mundo será sempre um game over, sempre pronto a recomeçar, sempre um recall a existir.

Recentemente falecido, o escritor Philip Roth disse que a morte é injusta. Não acho que a morte seja injusta. O que é injusto é não poder retomar a vida depois de vivida, e aí sim experimentar o mundo como ele deveria ser. O mais perverso é a experiência. Depois que a adquirimos e compreendemos uma forma de viver mais natural e desprendida, que compreendemos o que é amar e ser amado, é hora de ir embora. A diferença é ir embora sabendo os caminhos das pedras e não podendo mais vivê-lo, nem que fosse mais uma vez. E sempre ficar atento para não nos roubarmos de nós mesmos.

O autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

Publicidade

Crônicas

A branca adormecida

Por Nilson Lattari.

Publicado em

A branca adormecida (Fonte da foto: morguefile.com)

Clara olhava para o seu jardim, em um momento em que procurava inspiração para seus escritos. Olhava para aquelas flores, plantas, pássaros voando e percebia que alguma coisa faltava ali, no meio de todo aquele verde. Subitamente, a inspiração passou do papel para a vida real, com a natureza a sua frente.

– Falta a água, ela pensou.

E por que não um laguinho para enfeitar todo aquele verde?

Pegou o telefone e contratou o serviço de um pedreiro que em tempo recorde complementou um belo lago com um chafariz. Era como um renascimento. Algumas árvores começaram a crescer além da conta e outras começaram a dar frutos, inclusive uma inusitada macieira.

Voltou para a tela em branco do computador, aberto diante da luz externa que a cada dia ia sumindo, à medida que as árvores iam tomando conta, seguida do barulho do chafariz, que se assemelhava a uma cascata longínqua, recolhendo-se para conseguir uma boa inspiração. E o cursor permanecia ali, piscando, como um desafio: “Decifra-me ou devoro-te”, na busca de uma história qualquer. Pensou, então, que não é uma história que se busca mas, … Que história ela tinha para contar?

O seu olhar subiu para o jardim, cada vez mais escuro em contraste com a tela iluminada do computador, e pela ausência do sol e o longo período sem sair de casa, ela notou que a pele ia tomando uma cor pálida e ficando muito branca; foi ficando branca, branca como a neve, e sentia que mais alguma coisa faltava para complementar aquele jardim.

– Faltavam bichos? Faltava gente? novamente ela pensou.

Mas já havia pássaros, que dessa vez providenciavam ninhos, mas, outros animais, estes não havia.

Na falta deles encomendou pela internet sete anõezinhos de jardim. Acomodou-os enfileirados como se estivessem caminhando ou para uma casa ou para uma mina que não existia.

Novamente, diante do palco embranquecido do computador o cursor piscava clamando alguma inspiração para começar: “Era uma vez…”. Mas, não existiam mais vezes. Tudo era a mesma coisa. Os telefonemas dos amigos clamavam para que ela abandonasse a busca de ideias, largasse essa coisa de escrever, escrever…, e viesse procurá-los. Mas ela resistia e ficava muda e parada diante de “Era uma vez…”.

– O quê? ela se perguntava.

A macieira floriu e seus frutos vermelhos e apetitosos começavam a aparecer no meio do jardim. Da rua, mal dava para distinguir a casa e da casa mal se via a rua. Não lembrava mais dos vizinhos, como eram, o que faziam, e ficava diante daquele cursor impertinente a clamar: “Era uma vez…”.

Por alguns momentos, enquanto olhava a mata que se fechava diante dela, julgou ouvir os anõezinhos enfileirados, com suas pás e picaretas nos ombros, a cantar a conhecida canção “Eu vou, eu vou…”, e desapareciam debaixo da casa no trabalho da mina imaginária.

A perseguição por uma história continuava e a cada dia ela parecia mais distante. Foi quando adormeceu, mais uma vez, na mesa do computador e a ideia que ela queria não dava os ares de sua graça.

Ligou o João, o Frederico, mas para cada um deles ela dava as desculpas mais infantis para não sair de casa. A mata cresceu um pouco mais e a rua tinha sumido por completo, a casa se tornou pequena, e pôde jurar ver que os anõezinhos já não se contentavam com o jardim e decidiram adormecer dentro da sua casa.

Acendiam a lareira, contavam histórias uns para os outros e de vez em quando perguntavam sobre a sua vida, o que ela fazia, e se poderiam ajudar.

Um dia, bateram à porta.

– Quem é?

Ele respondeu:

– Sou eu, o Marquinhos, lembra?

Era o seu vizinho. Um sujeito sardento, com espinhas no rosto, variando a sua idade, se bem lembrava. Sempre com um andar desengonçado, umas roupas que mal combinavam umas com as outras. Os sapatos eram tênis surrados, cansados das partidas de futebol. Um horror! Essa era a imagem que tinha dele, e lá de dentro ela perguntou, novamente.

– O que você quer, Marquinhos?

– Nada, só queria conversar. Há tanto tempo não nos vemos. Agora tem uma mata enorme entre nossas casas.

– E daí? perguntou, quase com raiva.

– Tem também uma macieira. E como você não colheu nenhuma eu decidi que poderíamos comer um destes frutos juntos.

– Que ideia é essa de mexer na minha macieira, seu enxerido?

Brava ela abriu a porta e se deparou com um moço belo, tão belo, que ela ainda não havia percebido quanto tempo esteve adormecida.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

Continue lendo

Crônicas

O ódio e o amor

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Honoré de Balzac disse que o ódio tem melhor memória do que o amor. Entre a balança da escolha o que seria o ódio? E o amor? Alguém sente o ódio por causa de um momento onde foi vilipendiado, foi massacrado, humilhado por outro. Da mesma forma a demonstração do amor vem de algum fato, acontecimento, gesto que outro alguém nos deu, de coração limpo, franco, generoso.

Nos tempos atuais, no Brasil, e também no mundo, o ódio passou a ter outra conotação. É justo que pensamentos se oponham a posturas políticas, sociais, é um argumento do pensar, do achar que o caminho certo, correto é um e não o outro, ou o do outro.

O ódio atual passa pela querença de uma suposta igualdade. Todos, em uníssono, queremos a igualdade, o fim de desmandos, o fim de desacertos sociais, que geram a criminalidade. Mas, passam por caminhos diferentes.

A grande questão é por que odiar tanto. Por que ter ódio, exigir o distanciamento, na forma de vestir e viver, como se a existência do pobre fosse fator primordial para estabelecer o diferente? Manter o pobre como uma reserva de contingência.

Igualdade para alguns, não é igualdade para todos. Haja igualdade, desde que todos sejam como eu, ricos, brancos, bem nascidos. Isso é impossível. Ninguém nasce totalmente igual, ninguém escolhe, em sã consciência, nascer preto, pobre, em um lar já desfeito, ou ainda nem nascido. Somente aqueles que acreditam em carma, como solução para acalmar suas consciências, veem isso como justificativa.

Existem duas ignorâncias que buscam espaços na sociedade brasileira: a ignorância dos desamparados socialmente, porque não recebem a educação justa e merecida, e explorando a própria necessidade criam discursos de libertação, mostrando com o próprio rosto, marcado pelas rugas das dificuldades, o discurso de forma crua, retratado na própria existência, no próprio fato de existir. E na outra, a ignorância na forma de protestar, com cartazes exigindo verdadeiras provas de não ter nenhum pudor de admitir que não leem a História, ou então nas formas grosseiras de estampar suas supostas indignações. Exibir sorrisos nos protestos, tirar a roupa, é o maior escárnio que se pode demonstrar pelo outro. Isso é ódio.

Hipocritamente, as duas sociedades se encontram quando combatem a corrupção do outro. De um quando a corrupção grassa à vontade, mas mantendo o dólar barato e o financiamento fácil podem adquirir bens de consumo. Do outro, aceitando a corrupção, mas, que do mesmo jeito proporciona um bem-estar. É o rouba, mas faz; tanto de um lado para o outro.

O amor se desfaz diante do menor contratempo. O ódio se perpetua. O ódio se alimenta do próprio ódio, até que as pessoas comecem a se ignorar, umas às outras. O ódio contamina, e, como o veneno que se infiltra pelo sangue, é difícil de descontaminar. O ódio já está instalado na sociedade brasileira. A pobreza culpa a riqueza pelo seu abandono. A riqueza culpa o pobre pelo próprio fato de existir. Os ricos, os bem nascidos, aqueles que lograram ter a oportunidade de estar no lugar certo, na hora certa, olham e desejam a vida dos outros povos, onde tudo é melhor. Não estão preocupados em transformar a sociedade brasileira, para isso teriam de sentir amor, e quando fazem caridade acham ter cumprido seu papel social. O ódio pede distanciamento.

O que não percebem é que o ódio guarda a memória do desconforto, e chegará o momento em que eles se confrontarão. É inevitável. Por enquanto, escaramuças, depois a memória se transforma em realidade.

O autor

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

Continue lendo

Crônicas

O ex-jardim dos Zé Manés

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Fone da foto: morguefile.com

Consta que a população de Zé Manés sempre quis construir um imenso jardim no terreno que ficava ao lado do palacete dos Boaventura, e eles sempre diziam que aquilo seria um problema: onde já se viu um bando de Zé Manés achar que poderia construir um jardim naquele terreno? Simplesmente, ele poderia ser entregue a gente mais gabaritada, que eles conheciam no estrangeiro e que daria um melhor destino àquela riqueza.

O problema do jardim sempre foi a da proximidade com o palacete dos Boaventura, que ficava ao lado. Teimosamente, os Zé Manés construíram o imenso jardim e ele se tornou público e aberto, frequentado por todos, o que desagradava, abertamente, aos Boaventura, donos do palacete.

Assim, com o tempo, apesar da resistência dos Boaventura, os Zé Manés conseguiram construir, naquele espaço, um imenso jardim com vários tipos de plantas. E a construção começou a atiçar nos Boaventura, principalmente no velho patriarca, de que aquela boa ideia poderia lhes dar vantagem.

Em um gesto de boa vontade, apesar da desconfiança de um grupo de Zé Manés, um dos Boaventura, o velho que fundara a dinastia, e que não se contentava com a baderna e os jogos de futebol que campeavam livremente pelas alamedas, e nem tampouco com o batuque de samba, as danças indecentes, segundo ele, resolveu propor ao Poder Público, e, nesse caso, teríamos que considerar que este poder, apesar de público, não tinha tanto poder assim, que fizesse uma modernização completa no local.

Alguns grupos de Zé Manés perceberam a manobra, mas de nada adiantou, já que o poder dos Boaventura e a mão de ferro do velho patriarca sempre soaram mais forte nos bolsos das pessoas certas, principalmente, porque o velho prometera dar nomes às alamedas, o que transformaria determinadas pessoas, ou as pessoas certas, em celebridades.

O velho Boaventura resolveu propor ao Poder Público, que ele poderia fazer a modernização do tal jardim, com novas plantas e alamedas e um muro para que vândalos não destruíssem as flores que iriam adorná-lo. O velho Boaventura gostava de rosas, de todas as cores e tamanhos e que bem não lhe faria poder olhar da janela do seu quarto um mar de rosas, e não mais um bando de Zé Manés, de dorso descoberto e brilhantes de suor ao sol, acompanhados de suas famílias numerosas e barulhentas?

Diante de um argumento tão importante além de outros merecimentos que o Poder Público honrou receber, finalmente, o jardim foi fechado para obras e a construção de um muro, prometendo entregá-lo à população, já que se tratava de um bem público, foi iniciada.

Quando, finalmente, ficou pronto, o jardim estava cercado e dentro dele não havia mais locais para peladas de futebol, e nem mesmo locais para tocar músicas, que perturbavam a quietude das rosas, tão desejadas pelo velho Boaventura. Foi construída uma pista onde os cavalos da família Boaventura se exibiam, além de um jogo estranho onde através de uma rede, rapazes e moças, devidamente uniformizados, jogavam um ping-pong imenso, no entender dos Zé Manés, ignorantes, para os Boaventura, e os frequentadores do jardim passaram a observá-los, sem nada entender, aplaudindo quando ouviam aplausos e permaneciam em silêncio quando o silêncio imperava.

Os desejos da família Boaventura passaram a ser os desejos dos Zé Manés, e alguns até resolveram apoiar aquilo, imaginando que poderiam um dia, talvez, cavalgar nos mesmos cavalos e aprender aquela arte tão difícil e usar aqueles uniformes brancos e uma raquete toda furada, a bater em uma bola.

Aproveitando o muro que circundava o jardim, a família Boaventura colocava as notícias sobre a conservação do jardim, que, a essa altura, já não se sabia se era público ou apenas uma extensão do quintal da família, e, por isso, os Boaventura decidiram os horários de entrada e saída para os frequentadores.

Passado algum tempo, os Zé Manés que passavam ao lado do jardim já não sabiam se poderiam frequentá-lo, apesar de estar sendo alardeado que aquilo era um bem de todos, apesar de que o perfil dos frequentadores houvesse mudado, e grandes festas que eram dadas no lugar já não pareciam com aquelas que os Zé Manés faziam.

Das grades do portão, já com o brasão dos Boaventura, após a morte do patriarca, uma justa homenagem ao benfeitor que gostava tanto de rosas, e havia modernizado aquela coisa tão bagunçada, elas, as rosas, podiam ser admiradas, porém jamais tocadas por mãos que nada entendiam de cores e de rosas.

A morte do patriarca trouxe um grande problema, porque os descendentes não eram tão brilhantes, mas, pelo contrário, eram um pouco desastrosos, e, aos poucos, foram perdendo seus poderes, até que, finalmente, o jardim voltou a ser liberado, tendo em vista que outras famílias, também de estirpe, desejavam participar dele.

Dessa luta, os Zé Manés conseguiram, por um acordo entre as classes, poder também participar da administração do jardim, e, qual não foi a surpresa, que as rosas passaram a ter uma cor mais intensa, nas mãos dos Zé Manés, que agora trabalhavam nos seus cuidados, e algumas outras flores começaram a ser introduzidas, como os cravos, que vicejavam pontudos e corajosos, competindo com as rosas que eram tão cultuadas pelos Boaventura.

Isso desagradou, severamente, os Boaventura, que detestavam cravos, não se sabe pela memória do velho, ou por teimosia, mas, a esta altura, os Zé Manés já cuidavam da terra, aprenderam a cortar a grama, e alguns já arriscavam a pular as barreiras com os cavalos, o que deixou estupefatos os Boaventura que jamais poderiam imaginar aquele bando de Zé Manés aprendendo a arte da equitação, e que o tênis deixou de ser um calçado e passou a ser um esporte.

Em represália, os Boaventura, ainda donos do muro que circundava o jardim, começaram a colocar mensagens insinuando que os Zé Manés estavam poluindo o ambiente, e que sem a educação devida não saberiam conservá-lo, e aventaram a hipótese do Poder Público vender o jardim para alguém no estrangeiro, com certeza com mais expertise do que a população zé mané existente, e administradores e conhecedores de plantas que poderiam trazer outras rosas de outros países, tornando o jardim, que fora chamado de Jardim dos Zé Manés, assim, pelo acordo entre as classes, internacional.

Com muita raiva os Zé Manés não concordaram com a internacionalização daquele lugar, já que ele pertencia à população e não era propriedade de uma família que achava que poderia fazer o que bem entendesse.

Os Boaventura esperavam que, sob o domínio internacional, e com uma linguagem estranha que só eles entendiam, um perfeito acordo poderia por fim àquela corrida de Zé Manés achando que eram os únicos donos do lugar.

O muro ficou pilhado de notícias onde diziam que a incapacidade dos Zé Manés em administrar era notória, já que confundiam um jardim, onde somente deveriam imperar rosas, as outras flores não davam um bom efeito. E não adiantava os Zé Manés contestarem tudo aquilo porque, afinal, diziam os Boaventura, o muro era deles, e eles poderiam colocar as notícias que quisessem. E nada adiantava os Zé Manés reclamarem que o muro fora uma concessão que o Poder Público dera, e que eles não tinham o direito de espalhar mentiras sobre eles.

A situação ficou insustentável, e os Boaventura, com a aquiescência do Poder Público, devidamente convencido por eles, finalmente fecharam o jardim e retiraram todos os cravos.

A partir dali, o jardim ficou conhecido como o Ex-Jardim dos Zé Manés. Enquanto os Boaventura retiraram todos os cravos e plantas estranhas, os novos administradores estrangeiros o mantiveram fechado só permitindo a entrada dos Boaventura e das pessoas de bem que os acompanhavam.

Os Zés Manés passaram a circular, próximos ao jardim, e a reclamar e se lamentar do muro e das notícias que eram colocadas nele. Por entre as frestas nos muros que faziam escondidos eles podiam perceber que alguns cravos ainda permaneciam teimosos, sempre prontos a florescer, aguardando que finalmente seus reais donos voltassem a cuidar deles, e as sementes de outras plantas eram atiradas por cima dos muros, na esperança de que o jardim não se sustentasse.

Um Zé Mané, um dia, parou diante do muro, coberto de notícias e disse para as pessoas.

– Gente! É apenas um muro!

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

Continue lendo

Mais lidas