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Crônicas

CRÔNICA DE UM ROUBO

Por Nilson Lattari

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Qual a sensação de se sentir roubado quando olhamos no espelho o retrato fiel e perfeito do ladrão? Quando o tempo passa e o criminoso que nós construímos e o tempo foi transformando o rosto, e se disfarçou e sabemos, diante dele, que a confissão não é mais necessária. E no diálogo mudo que estabelecemos as perguntas e as respostas não são mais mistérios para os dois?

Qual foi o momento em nossas vidas que pensamos o dia e a hora em que a decisão que julgamos errada, respondida no futuro, nos transportou para a pergunta: quando eu me roubei de mim?

O futuro quando se vai construindo é um castelo de sonhos que estabelecemos com rostos e profissões ainda nascendo na imaginação, e ele é uma várzea aberta sem obstáculos que a força vital da vida nos alavanca, nos impulsiona. Os sonhos são permitidos a todos. Os sonhos são democráticos, embora possam ser conflitantes com as realidades que não queremos enxergar. Os sonhos são assim, exagerados. No futuro, quando o passado já tem rostos e trajetórias, é o momento em que estabelecemos o balanço de nossas vidas e descobrimos que alguém nos roubou alguma coisa, rompeu algum elo no passado e aconteceu o desvio que não estava programado.

Podemos culpar a nós mesmos, podemos culpar as circunstâncias, mas alguém nos traiu, alguém rompeu a barreira e a muralha da razão e como um dique arrebentado deixou planos e estratégias serem levadas água abaixo.

Foi o impulso, foi uma irresponsabilidade, que nunca poderá ser consertada, nossas defesas foram rompidas e compreendemos como são frágeis os sonhos, como são nuvens, como mudam ao sabor dos acontecimentos.

A esperança morre, ela deixa de existir no coração partido, não o coração quebrado, mas o coração que parte, que foge, que se distancia, que nos é roubado. Nada está sob controle, a menos que nos afastemos da humanidade ou abramos mão dela. A juventude nos dá uma ideia de estarmos certos, e quando ela passa, compreendemos que as nossas supostas certezas não passavam de empáfia e desconhecimento do mundo, ou medo dele. Somos arrogantes com a arrogância vencida.

Somos pura emoção, porque a emoção é uma droga que nos toma. É muito bom se emocionar, se entregar, imaginando que o mundo será sempre um game over, sempre pronto a recomeçar, sempre um recall a existir.

Recentemente falecido, o escritor Philip Roth disse que a morte é injusta. Não acho que a morte seja injusta. O que é injusto é não poder retomar a vida depois de vivida, e aí sim experimentar o mundo como ele deveria ser. O mais perverso é a experiência. Depois que a adquirimos e compreendemos uma forma de viver mais natural e desprendida, que compreendemos o que é amar e ser amado, é hora de ir embora. A diferença é ir embora sabendo os caminhos das pedras e não podendo mais vivê-lo, nem que fosse mais uma vez. E sempre ficar atento para não nos roubarmos de nós mesmos.

O autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

A língua como ela é

Por Nilson Lattari.

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Para um músico, a nota que está deslocada, mal direcionada, soa diferente. Por mais que ele esteja absorto em outros pensamentos, uma música sendo tocada, mesmo ao longe, caso haja um erro cometido, fatalmente o ouvido bem treinado e privilegiado acusará que alguma coisa está errada.
Para um profissional de ensino, um graduado em língua portuguesa, ou que faça dela sua ferramenta de trabalho ou prazer, a concordância do verbo, o acento mal empregado, a vírgula, a ortografia, uma frase mal colocada em qualquer lugar, lida na espera do ônibus, na fugaz passagem por um reclame chama fatalmente a atenção.

Assim como o músico, o leitor apurado com o texto pressente quando alguma coisa soa mal, tanto no som como na representação gráfica.

Quando estava à espera de ser atendido em um comércio, vários cartazes anunciavam os diversos serviços do estabelecimento. Um deles chamou-me a atenção, pelos motivos acima.

O comércio anunciava “imãs de geladeira”. Na primeira tentativa do cérebro em decodificar o sentido do cartaz, a ideia foi a de diversos aiatolás iranianos pendurados na porta de uma geladeira, ou, na segunda hipótese, uma peça para imantar geladeiras, porque deveria ser “para geladeiras”. Tudo bem, você poderia dizer que o ímã do cartaz atraiu o pensamento. Não serei injusto, eu lia o cartaz despretensiosamente, sem o cuidado de verificar nada.

A imagem associativa chamou a atenção. Que falta nos faz um acento! Até mesmo um assento no meio de um auditório lotado nos faz falta. Mas aquele acento… doía.

Estrago feito, por que não imaginar que o ilustre comerciante poderia vender imagens de aiatolás como penduricalhos na geladeira anunciando a melhor farmácia, o melhor mercado, a entrega mais rápida?

Compre com a gente e leve o seu aiatolá representativo! Aqueles senhores graves, de barbas circunspectas agitando os braços, corpos inflados de ar, e vendendo os apetrechos do mundo capitalista.

Tudo bem. Tenhamos respeito às figuras daquela autocracia, mas que a tentação imantada no reclame não possa causar objeções ao pensamento.

Quanto estrago um erro de ortografia pode fazer? Pode simplesmente nos levar a um entrevero desagradável… e, logo com quem! Por um desenho um cartunista sueco está jurado de morte, um escritor ameaçado, um jornal bombardeado. Um erro de ortografia poderia causar uma perseguição ao nobre comerciante.

Logo adiante em uma loja de roupas anunciava-se “sobre tudo em promoção”. Imaginei se ele venderia informação, informação a mãos cheias, e não faltaria informação para todos, sobretudo. No entanto, resisti à tentação de propor ao comerciante que os vendesse aos imã de geladeira, cairia bem como roupas para eles.

Incrível como essas coisas se atraem.

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Crônicas

A GAROTA QUE DORMIA

Por Nilson Lattari.

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Ela era feia. Sim, feia. Mas, realmente, o que é beleza? À primeira vista, com suas roupas extravagantes, assustava de certo modo as pessoas que se encontravam no ônibus. Alguma vez vestindo um macacão vermelho ou cinza, alguma coisa nos cabelos estranhamente entrelaçados, alguma coisa sempre diferente. Ao se levantar para saltar sempre naquele mesmo ponto, com suas tatuagens, alguns metais saindo do rosto, sair do ônibus e se dirigir ao Bob´s para fazer, quem sabe, a sua primeira refeição. Ela transmitia uma figura estranha e longe dos padrões de beleza. Para mim, e talvez para os outros passageiros ela fosse feia. Ela morava na zona sul. O ônibus vinha de lá. Será?

Mas falávamos da beleza. No princípio, ela era feia. Os lábios um pouco grossos, sobressaídos, baixa, um corpo não muito perfeito. Uma cara sempre irritada de quem não dormira. E este é um detalhe, ela sempre estava com aquela cara de sono e fatalmente dormia, encostando a cabeça na janela.

Sentava-me ao seu lado, abria o meu livro, e ela também abria os olhos na vã tentativa de descobrir do que se tratava, revirava um pouco o rosto para ler o nome provável do autor, o nome do livro.

Até que afinal a sua boca não era assim tão feia. Os lábios, talvez sensuais… Pequena estatura, mãos e pés pequenos. Macameia. Sim, talvez uma Macameia. Uma estrela que ainda não veio dizer a sua hora.

Mas ela dormia. E sempre acordava um pouco antes da hora de saltar. Por que ela dormiria tanto?! Olhava eu o livro e o seu rosto pelo canto dos olhos. Talvez uma farra! Uma qualquer mulher. Uma noite de orgias, de embalos, incrementadíssimos em algum apartamento ou barzinho da zona sul. Então por que haveria de me interessar por alguém que se entregava a tais desmandos? Poderia até se notar algumas olheiras. Um certo ar de desleixo jogado no banco. Um sono profundo. As pernas feias um pouco entreabertas. Uma minissaia escandalosa para alguém que se deixava dormir em um banco de ônibus, sem se importar muito com o que os outros poderiam pensar. Depois de uma noite de farra! O que importava a sua maneira de se vestir? E quem se importava com alguém que se deixa ficar em uma farra durante toda a noite?

E ela lá estava jogada no banco, a cabeça de encontro ao vidro da janela, alheia totalmente aos solavancos do coletivo que entrava e saía dos buracos das ruas, indiferente também ao seu sono. Um solavanco maior, a sua cabeça bate de encontro à janela. Num resmungo, amuada leva a mão até a cabeça e como se apenas virasse na cama, recosta e acomoda os ombros, braços, seios e pernas no mesmo lugar, talvez até puxando um cobertor imaginário.

A idosa, de olhar fechado, repara em seu modo desleixado de dormir. O homem lança olhares cobiçosos ao seio pequeno entreaberto, balançante com o balanço do ônibus, deixava entrever toda a sua nudez na pequena abertura da roupa. Os sinais, sardas na pele, o seio levemente elevado, o róseo bico, pequenino, enrugado, o branco do sutiã, o metal da fivela…

Alguém no banco de trás se ajeita a pretexto de qualquer coisa e sorrateiramente… Os garotos com roupa de colégio se cutucando atrás a estão observando e observando o seio também. A bolsa sempre agarrada ao corpo. Instinto.

Eu leio o meu livro, termino o capítulo com surpresa sem saber que o houvesse lido. Há alguma coisa que me atrai. O ponto onde ela vai saltar se aproxima, e naquele dia ela está mais cansada que nos outros e parece que vai dormindo até o fim da linha, se alguém não a acordar.

Mas por que tanto cansaço? Será que na realidade é uma estudante, talvez? O cursinho muito pesado, terminando muito tarde. A loja em que ela trabalha fechando muito tarde. A correria para pegar o ônibus. A hora de entrar no cursinho. A aula já começada. Uma vida difícil. Dois empregos, talvez. A correria. Dormindo no outro ônibus. A volta para casa em outro ônibus, dormindo também… Casada? Filhos? Chegando em casa e preparando a comida sua… dos filhos… do marido? O ponto se aproximando. O ônibus um pouco vazio. Será que eu devo me levantar? Pedir licença, acordá-la, avisando:

– Olha, seu ponto já chegou!

Ela se levanta assustada. Olhando-me com raiva, talvez do sono interrompido.

-Muito obrigada!  diria ela.

As pessoas me olham, reprovando, aprovando. Levantar-me, e acordar uma garota que dormia! Ridículo! Ou covardia minha para prestar favor a alguém. Interromper os olhares sobre o seio que dormia também.

Um ponto antes, entrou uma turma de garotos de colégio. A algazarra talvez a acorde, pensei eu. Mas não, os gritos das crianças não tiveram o suficiente poder de despertá-la. Talvez o fortuito e oportuno solavanco do ônibus… talvez.

O ponto, onde ela deveria saltar, passou. O Bob´s também, na calçada em frente à janela. Do outro lado da rua a loja onde trabalha e onde dias antes a vira entrar estava aberta e alguns fregueses já eram atendidos. O que fazer para acordá-la? A farrista ou a estudante dormia. Esqueceu completamente, embalada em seu sono, longe das suas obrigações de trabalho.

O ônibus arrancou. Parou em alguns sinais, outros pontos. E ela dormia. O ônibus já ficava um pouco mais vazio. As crianças aproveitaram um sinal fechado para descer e entrar no colégio que na praça já se avistava. E ela dormia. A vida esqueceu-se dela. E ela da vida. Totalmente.

Ao passar, porém, por uma rua onde estavam colocando asfalto, o cheiro e o barulho da areia debaixo do ônibus teve enfim o poder de acordá-la. Ela se endireitou no banco, olhou pela janela e ajeitando os cabelos, levemente os retirou dos olhos com uma única mão, com o indicador levemente, como a bela que acorda de seu sono encantado, descobriu onde estava reconhecendo os lugares por onde não deveria estar naquela hora. Um pouco desconcertada olhou para os lados, levantou-se. Encarou o meu olhar de alívio ao vê-la, finalmente, acordada, ajeitou um pouco a roupa amarrotada, tocou o sinal. O ônibus finalmente deixou-a sair. Eu da minha janela olhava aquela estranha passageira que andava pela rua logo abaixo da janela. Sorria um pouco marota, olhando para o ônibus e encontrou o meu olhar sorrindo para ela também. Rindo de mim talvez que acompanhava o seu sono. Sorrindo como se houvesse sido pega em alguma travessura.

Desvia dos carros em tráfego lento, empinando o corpo para trás e volteando com graça os veículos como se fosse um cumprimento entre os dois. Olhou para trás e diante da poça d´água perto da calçada e do piso escorregadio, andava devagarinho, bem devagarzinho. Um sorriso sem graça esculpiu o rosto que virava para trás.

O autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

IMAGINE OR IMAGINE

Por Nilson Lattari.

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Fonte da foto: Pinterest

As duas palavras do título têm o mesmo formato, tanto em português quanto em inglês. Título de uma letra emblemática feita por John Lennon. Eram tempos onde a imaginação corria forte, diante de um mundo caminhando entre a guerra fria de duas potências, e os ditadores que pululavam pelo mundo. Era um mundo alegre dentro de um subterrâneo, como se estivesse armazenando alegrias e possibilidades quando a virada acontecesse.

Aquela geração hoje chegou ou passou dos sessenta e alguns perderam os cabelos em sua cabeça, porém alguns perderam bem mais do que os cabelos, perderam a imaginação de um mundo sem países, sem religiões, sem querer encontrar infernos abaixo dos céus, ou estar em busca de moradas celestes.

Dessa geração, alguns ainda cantam em inglês, em seus apartamentos, ou ouvem saudosamente os CDs ou vinis, e o piano branco de Lennon ainda martela as possibilidades de um mundo imaginário, onde todos compartilhariam o próprio mundo real. Alguns ainda teimam em acreditar naquele mundo, enquanto outros reinventaram os países e suas fronteiras, se agarraram às suas propriedades, onde a presença do indesejável próximo não seja penetrada. O que nos leva a acreditar que estes curtem a música, mas não entenderam nada.

Há dois mil anos um Homem tentou um mundo imaginário. Ele falava de um próximo, também Se revoltou contra as religiões e queria compartilhar o mundo no amai ao próximo. Muitos vão às missas e cultos, continuam com as suas ideias, “a velha opinião formada sobre quase tudo”, e também não entenderam nada.

E o que houve com essa geração que veio logo após, criada por pais que amavam os Beatles e os Holling Stones e cantava Help e abominava o Vietnam, iam aos festivais de música, onde o protesto era a palavra de ordem, e hoje execram seus então ídolos, que continuam, teimosamente, a imaginar?

Pedem ditaduras, choques de ordens, desinventando o imaginário de todas as pessoas vivendo em paz. Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas acredite que eu não estou sozinho, eu espero que um dia essa nova geração se junte a nós, os sonhadores, e faremos do mundo um lugar único, com até mesmo aqueles que esqueceram de sonhar.

Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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