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Crônicas

Para que serve o discurso do ódio

Por Nilson Lattari.

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A despeito de alguém vociferar em altos brados as suas posições políticas, não quer dizer, necessariamente, que se acredita nelas. Já explico: é uma questão de marketing. Há público para todos os discursos. Os colunistas da mídia impressa e eletrônica vão avidamente ao self-service dos assuntos para poder angariar claques, os colunistas para garantir a venda dos jornais, e os youtubers seus likes.

A claque se volta contra o próprio criador, muitas vezes, o que me fez lembrar das palavras de Adorno e Horkheimer, in Dialética do esclarecimento, de que “quanto mais medonhas as acusações e as ameaças, quanto maior a fúria, mais compulsório o escárnio”. Até porque, em um determinado momento, o próprio discernimento nos faz perceber que se já está indo longe demais.

Isso serve de ensinamento ou esclarecimento de alguns porta-vozes de discursos duros, de soluções fáceis, que constroem seus discursos nas colunas de forma a desconstruir um fato, levando às fake news, um dos artifícios do escárnio. Principalmente quando desmerecemos a dor do outro, por ter opção política contrária.

Pois bem, o discurso equilibrado volveria, naturalmente, a uma cortesia para os poderes institucionais que se interligariam para solucionar um problema de fato, que afeta uma grande parte da população do Brasil, portanto, uma solução pacífica e coerente, passada a refrega dos discursos duros das eleições que lembram lutas sem quartéis.

Mas, para não perder a claque e mantê-la sob rédea curta, garantia de um market share que rende audiência e emprego, e eleitorado, o bom senso não prevalece, e prevalecendo, isto sim, o pensamento de Sartre de que em uma discussão onde o mal responde ao mal, o mal se instala, e essa manutenção garante o emprego de muitos.

Em cada caso, em todos os casos, existem os dois lados, prevalência dialética na Filosofia. A questão é que todos se acham ao lado dos mocinhos, e os bandidos estão do outro lado, na opinião contrária, não há nenhuma dificuldade em se entender onde está o Bem ou o Mal, neste caso, e o Mal se instala.

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

A solidão revelada

Por Nilson Lattari

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A presença do ciberespaço na vida das pessoas trouxe a própria perspectiva de um alcance ilimitado, um espaço onde as intimidades ganham asas de liberdade. A fofoca toma ares de globalização, com o extremo de se fofocar sobre si mesmo.

Ao contrário do custoso processo de comunicação do ser humano pré web, o futuro trouxe facilidades. Foi a oportunidade de cada um de nós sair da atitude passiva de assistente para personagens atuantes na vida real, ou virtual. Munidos de arsenais tecnológicos, a vida dos habitantes do novo espaço tomou ares de aqui e agora. Como os dois gumes de uma faca, o ser humano deixa de ser prisioneiro do dono das mídias, e passa a ser ele mesmo uma mídia em potencial.

A par disso, o ser humano sendo um ser vivo solitário, não só luta pela sobrevivência, mas luta pela busca do sentido do próprio ser, o sentido da vida e essas coisas, e ele procura outros pares para que possa, enfim, trocar confidências, pensamentos e encontros. Hoje o solitário tem a oportunidade de falar, dizer o que pensa, enfim, ser curtido e compartilhado.

Não é de longe que lembramos dos diários secretos da juventude onde as mulheres, principalmente, registravam seu diálogo com a descoberta do mundo que se abria cheio de incompreensões, dúvidas sobre o futuro e dos relacionamentos amorosos.

A famosa epígrafe, “Meu querido diário”, dizia bem mais do que uma frase simpática e reveladora da inocência de quem escrevia, mas dava o sentido de uma bem guardada caixa de Pandora, onde, se aberta, poderia levar o escrevinhador e seus pensamentos ver, com vergonha, seus fantasmas serem postos em evidência.

Novelas, romances, filmes e toda a sorte de histórias começavam ou começam, terminavam ou terminam, serviam de desvendamento de tramas através dos escritos em diários ditos íntimos.

O ciberespaço se espalhando como febre, principalmente entre os jovens, colocou em xeque o escrever para si mesmo, transformando aquilo que era de um só em um segredo de muitos. O grande diferencial é que essa revelação é feita de uma forma não íntima e espontânea, segredo de um só, mas na ênfase de que todos os fantasmas dentro das consciências ganhem vida e alcem voo pelo espaço infinito do computador, para se tornar público. A distância geográfica, temporal, ideológica deixa de existir. O ser humano parte para um enfrentamento direto com os seus. Expõe a comida que come, a casa onde mora, o ambiente que frequenta, os amigos que tem, intimidades…

Enquanto em outros tempos a necessidade do segredo era o principal mote para a guarda dos pensamentos dentro das páginas de um caderno, esse segredo precisa e gosta de ser revelado.

O segredo perdeu o sentido, ganhou asas. A revelação se torna o grande motivo para que as pessoas possam se sentir próximas. Passam a ter amigos, mesmo que nunca se tenham visto pessoalmente. Os casais também passaram a ser construídos pelo par procurado em qualquer lugar, desde que esteja na web.

A solidão mudou de nome? A revelação é um motivo de desabafo ou uma forma de agressão ao mundo em que vivemos?

O ser humano continuou a ser solitário. Talvez a grande diferença seja que ele publica essa solidão. Há uma necessidade de respostas, os pensamentos tomam forma e além de publicar os pensamentos, as pessoas se aproximam de seus iguais, organizam suas tribos. E desabafam porque descobrem pares em todo mundo. A vergonha toma o lugar da honra em ser aquilo que o inconsciente teimava em esconder. Os escondidos encontram eco nas suas aspirações, tanto na identidade sexual, política, religiosa etc.

A necessidade de “curtir” existe, não importa aquilo que se esteja curtindo. E se coloca no “curtir” a própria vida pessoal. Mostra-me o que curtes e te direi quem és.

As pessoas se revelam e gostam de se revelar porque isso faz parte do sentido que querem dar à vida. O espaço é infinito, e não só de adolescentes ele é habitado, mas também de adultos, revelando o quanto o ser humano precisa de companhia, e quanto o ser humano pode se sentir tão só, apesar de habitar um infinito de possibilidades, preso ao pequeno quadrado da tela do computador.

Nilson Lattari

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Crônicas

A língua como ela é

Por Nilson Lattari.

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Para um músico, a nota que está deslocada, mal direcionada, soa diferente. Por mais que ele esteja absorto em outros pensamentos, uma música sendo tocada, mesmo ao longe, caso haja um erro cometido, fatalmente o ouvido bem treinado e privilegiado acusará que alguma coisa está errada.
Para um profissional de ensino, um graduado em língua portuguesa, ou que faça dela sua ferramenta de trabalho ou prazer, a concordância do verbo, o acento mal empregado, a vírgula, a ortografia, uma frase mal colocada em qualquer lugar, lida na espera do ônibus, na fugaz passagem por um reclame chama fatalmente a atenção.

Assim como o músico, o leitor apurado com o texto pressente quando alguma coisa soa mal, tanto no som como na representação gráfica.

Quando estava à espera de ser atendido em um comércio, vários cartazes anunciavam os diversos serviços do estabelecimento. Um deles chamou-me a atenção, pelos motivos acima.

O comércio anunciava “imãs de geladeira”. Na primeira tentativa do cérebro em decodificar o sentido do cartaz, a ideia foi a de diversos aiatolás iranianos pendurados na porta de uma geladeira, ou, na segunda hipótese, uma peça para imantar geladeiras, porque deveria ser “para geladeiras”. Tudo bem, você poderia dizer que o ímã do cartaz atraiu o pensamento. Não serei injusto, eu lia o cartaz despretensiosamente, sem o cuidado de verificar nada.

A imagem associativa chamou a atenção. Que falta nos faz um acento! Até mesmo um assento no meio de um auditório lotado nos faz falta. Mas aquele acento… doía.

Estrago feito, por que não imaginar que o ilustre comerciante poderia vender imagens de aiatolás como penduricalhos na geladeira anunciando a melhor farmácia, o melhor mercado, a entrega mais rápida?

Compre com a gente e leve o seu aiatolá representativo! Aqueles senhores graves, de barbas circunspectas agitando os braços, corpos inflados de ar, e vendendo os apetrechos do mundo capitalista.

Tudo bem. Tenhamos respeito às figuras daquela autocracia, mas que a tentação imantada no reclame não possa causar objeções ao pensamento.

Quanto estrago um erro de ortografia pode fazer? Pode simplesmente nos levar a um entrevero desagradável… e, logo com quem! Por um desenho um cartunista sueco está jurado de morte, um escritor ameaçado, um jornal bombardeado. Um erro de ortografia poderia causar uma perseguição ao nobre comerciante.

Logo adiante em uma loja de roupas anunciava-se “sobre tudo em promoção”. Imaginei se ele venderia informação, informação a mãos cheias, e não faltaria informação para todos, sobretudo. No entanto, resisti à tentação de propor ao comerciante que os vendesse aos imã de geladeira, cairia bem como roupas para eles.

Incrível como essas coisas se atraem.

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Crônicas

A GAROTA QUE DORMIA

Por Nilson Lattari.

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Ela era feia. Sim, feia. Mas, realmente, o que é beleza? À primeira vista, com suas roupas extravagantes, assustava de certo modo as pessoas que se encontravam no ônibus. Alguma vez vestindo um macacão vermelho ou cinza, alguma coisa nos cabelos estranhamente entrelaçados, alguma coisa sempre diferente. Ao se levantar para saltar sempre naquele mesmo ponto, com suas tatuagens, alguns metais saindo do rosto, sair do ônibus e se dirigir ao Bob´s para fazer, quem sabe, a sua primeira refeição. Ela transmitia uma figura estranha e longe dos padrões de beleza. Para mim, e talvez para os outros passageiros ela fosse feia. Ela morava na zona sul. O ônibus vinha de lá. Será?

Mas falávamos da beleza. No princípio, ela era feia. Os lábios um pouco grossos, sobressaídos, baixa, um corpo não muito perfeito. Uma cara sempre irritada de quem não dormira. E este é um detalhe, ela sempre estava com aquela cara de sono e fatalmente dormia, encostando a cabeça na janela.

Sentava-me ao seu lado, abria o meu livro, e ela também abria os olhos na vã tentativa de descobrir do que se tratava, revirava um pouco o rosto para ler o nome provável do autor, o nome do livro.

Até que afinal a sua boca não era assim tão feia. Os lábios, talvez sensuais… Pequena estatura, mãos e pés pequenos. Macameia. Sim, talvez uma Macameia. Uma estrela que ainda não veio dizer a sua hora.

Mas ela dormia. E sempre acordava um pouco antes da hora de saltar. Por que ela dormiria tanto?! Olhava eu o livro e o seu rosto pelo canto dos olhos. Talvez uma farra! Uma qualquer mulher. Uma noite de orgias, de embalos, incrementadíssimos em algum apartamento ou barzinho da zona sul. Então por que haveria de me interessar por alguém que se entregava a tais desmandos? Poderia até se notar algumas olheiras. Um certo ar de desleixo jogado no banco. Um sono profundo. As pernas feias um pouco entreabertas. Uma minissaia escandalosa para alguém que se deixava dormir em um banco de ônibus, sem se importar muito com o que os outros poderiam pensar. Depois de uma noite de farra! O que importava a sua maneira de se vestir? E quem se importava com alguém que se deixa ficar em uma farra durante toda a noite?

E ela lá estava jogada no banco, a cabeça de encontro ao vidro da janela, alheia totalmente aos solavancos do coletivo que entrava e saía dos buracos das ruas, indiferente também ao seu sono. Um solavanco maior, a sua cabeça bate de encontro à janela. Num resmungo, amuada leva a mão até a cabeça e como se apenas virasse na cama, recosta e acomoda os ombros, braços, seios e pernas no mesmo lugar, talvez até puxando um cobertor imaginário.

A idosa, de olhar fechado, repara em seu modo desleixado de dormir. O homem lança olhares cobiçosos ao seio pequeno entreaberto, balançante com o balanço do ônibus, deixava entrever toda a sua nudez na pequena abertura da roupa. Os sinais, sardas na pele, o seio levemente elevado, o róseo bico, pequenino, enrugado, o branco do sutiã, o metal da fivela…

Alguém no banco de trás se ajeita a pretexto de qualquer coisa e sorrateiramente… Os garotos com roupa de colégio se cutucando atrás a estão observando e observando o seio também. A bolsa sempre agarrada ao corpo. Instinto.

Eu leio o meu livro, termino o capítulo com surpresa sem saber que o houvesse lido. Há alguma coisa que me atrai. O ponto onde ela vai saltar se aproxima, e naquele dia ela está mais cansada que nos outros e parece que vai dormindo até o fim da linha, se alguém não a acordar.

Mas por que tanto cansaço? Será que na realidade é uma estudante, talvez? O cursinho muito pesado, terminando muito tarde. A loja em que ela trabalha fechando muito tarde. A correria para pegar o ônibus. A hora de entrar no cursinho. A aula já começada. Uma vida difícil. Dois empregos, talvez. A correria. Dormindo no outro ônibus. A volta para casa em outro ônibus, dormindo também… Casada? Filhos? Chegando em casa e preparando a comida sua… dos filhos… do marido? O ponto se aproximando. O ônibus um pouco vazio. Será que eu devo me levantar? Pedir licença, acordá-la, avisando:

– Olha, seu ponto já chegou!

Ela se levanta assustada. Olhando-me com raiva, talvez do sono interrompido.

-Muito obrigada!  diria ela.

As pessoas me olham, reprovando, aprovando. Levantar-me, e acordar uma garota que dormia! Ridículo! Ou covardia minha para prestar favor a alguém. Interromper os olhares sobre o seio que dormia também.

Um ponto antes, entrou uma turma de garotos de colégio. A algazarra talvez a acorde, pensei eu. Mas não, os gritos das crianças não tiveram o suficiente poder de despertá-la. Talvez o fortuito e oportuno solavanco do ônibus… talvez.

O ponto, onde ela deveria saltar, passou. O Bob´s também, na calçada em frente à janela. Do outro lado da rua a loja onde trabalha e onde dias antes a vira entrar estava aberta e alguns fregueses já eram atendidos. O que fazer para acordá-la? A farrista ou a estudante dormia. Esqueceu completamente, embalada em seu sono, longe das suas obrigações de trabalho.

O ônibus arrancou. Parou em alguns sinais, outros pontos. E ela dormia. O ônibus já ficava um pouco mais vazio. As crianças aproveitaram um sinal fechado para descer e entrar no colégio que na praça já se avistava. E ela dormia. A vida esqueceu-se dela. E ela da vida. Totalmente.

Ao passar, porém, por uma rua onde estavam colocando asfalto, o cheiro e o barulho da areia debaixo do ônibus teve enfim o poder de acordá-la. Ela se endireitou no banco, olhou pela janela e ajeitando os cabelos, levemente os retirou dos olhos com uma única mão, com o indicador levemente, como a bela que acorda de seu sono encantado, descobriu onde estava reconhecendo os lugares por onde não deveria estar naquela hora. Um pouco desconcertada olhou para os lados, levantou-se. Encarou o meu olhar de alívio ao vê-la, finalmente, acordada, ajeitou um pouco a roupa amarrotada, tocou o sinal. O ônibus finalmente deixou-a sair. Eu da minha janela olhava aquela estranha passageira que andava pela rua logo abaixo da janela. Sorria um pouco marota, olhando para o ônibus e encontrou o meu olhar sorrindo para ela também. Rindo de mim talvez que acompanhava o seu sono. Sorrindo como se houvesse sido pega em alguma travessura.

Desvia dos carros em tráfego lento, empinando o corpo para trás e volteando com graça os veículos como se fosse um cumprimento entre os dois. Olhou para trás e diante da poça d´água perto da calçada e do piso escorregadio, andava devagarinho, bem devagarzinho. Um sorriso sem graça esculpiu o rosto que virava para trás.

O autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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