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Crônicas

O ódio e o amor

Por Nilson Lattari.

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Honoré de Balzac disse que o ódio tem melhor memória do que o amor. Entre a balança da escolha o que seria o ódio? E o amor? Alguém sente o ódio por causa de um momento onde foi vilipendiado, foi massacrado, humilhado por outro. Da mesma forma a demonstração do amor vem de algum fato, acontecimento, gesto que outro alguém nos deu, de coração limpo, franco, generoso.

Nos tempos atuais, no Brasil, e também no mundo, o ódio passou a ter outra conotação. É justo que pensamentos se oponham a posturas políticas, sociais, é um argumento do pensar, do achar que o caminho certo, correto é um e não o outro, ou o do outro.

O ódio atual passa pela querença de uma suposta igualdade. Todos, em uníssono, queremos a igualdade, o fim de desmandos, o fim de desacertos sociais, que geram a criminalidade. Mas, passam por caminhos diferentes.

A grande questão é por que odiar tanto. Por que ter ódio, exigir o distanciamento, na forma de vestir e viver, como se a existência do pobre fosse fator primordial para estabelecer o diferente? Manter o pobre como uma reserva de contingência.

Igualdade para alguns, não é igualdade para todos. Haja igualdade, desde que todos sejam como eu, ricos, brancos, bem nascidos. Isso é impossível. Ninguém nasce totalmente igual, ninguém escolhe, em sã consciência, nascer preto, pobre, em um lar já desfeito, ou ainda nem nascido. Somente aqueles que acreditam em carma, como solução para acalmar suas consciências, veem isso como justificativa.

Existem duas ignorâncias que buscam espaços na sociedade brasileira: a ignorância dos desamparados socialmente, porque não recebem a educação justa e merecida, e explorando a própria necessidade criam discursos de libertação, mostrando com o próprio rosto, marcado pelas rugas das dificuldades, o discurso de forma crua, retratado na própria existência, no próprio fato de existir. E na outra, a ignorância na forma de protestar, com cartazes exigindo verdadeiras provas de não ter nenhum pudor de admitir que não leem a História, ou então nas formas grosseiras de estampar suas supostas indignações. Exibir sorrisos nos protestos, tirar a roupa, é o maior escárnio que se pode demonstrar pelo outro. Isso é ódio.

Hipocritamente, as duas sociedades se encontram quando combatem a corrupção do outro. De um quando a corrupção grassa à vontade, mas mantendo o dólar barato e o financiamento fácil podem adquirir bens de consumo. Do outro, aceitando a corrupção, mas, que do mesmo jeito proporciona um bem-estar. É o rouba, mas faz; tanto de um lado para o outro.

O amor se desfaz diante do menor contratempo. O ódio se perpetua. O ódio se alimenta do próprio ódio, até que as pessoas comecem a se ignorar, umas às outras. O ódio contamina, e, como o veneno que se infiltra pelo sangue, é difícil de descontaminar. O ódio já está instalado na sociedade brasileira. A pobreza culpa a riqueza pelo seu abandono. A riqueza culpa o pobre pelo próprio fato de existir. Os ricos, os bem nascidos, aqueles que lograram ter a oportunidade de estar no lugar certo, na hora certa, olham e desejam a vida dos outros povos, onde tudo é melhor. Não estão preocupados em transformar a sociedade brasileira, para isso teriam de sentir amor, e quando fazem caridade acham ter cumprido seu papel social. O ódio pede distanciamento.

O que não percebem é que o ódio guarda a memória do desconforto, e chegará o momento em que eles se confrontarão. É inevitável. Por enquanto, escaramuças, depois a memória se transforma em realidade.

O autor

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

A essência do Natal…

Por Carlos R. Ticiano.

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Crônica: A essência do Natal...

E surgiu…

Em meio às lojas badaladas

E decoradas pela chegada de mais um Natal.

Um garoto carente, tímido e triste

Observando deslumbrado, fascinado e encantado

Tudo que via a sua volta.

Admirado com tanta beleza, ficava apontando e passando os dedinhos

Nas vidraças enfeitadas

De um grande Shopping Center da cidade.

De loja em loja, de vitrine em vitrine,

Ficava olhando o brilho das luzes coloridas das árvores de natal

As guloseimas de darem água na boca

E a infinidade e diversidade de brinquedos expostos.

Provavelmente imaginando

E sonhando com a possibilidade de brincar com um deles.

Assustado e surpreso,

Com a chegada de um segurança da loja

Saiu correndo, deixando cair de suas mãozinhas

Um pedacinho de papel.

Provavelmente, onde deveria estar escrito

O presente que gostaria de ganhar.

Aquele garoto andarinho,

Provavelmente represente o amor, o carinho, a amizade e a paz interior

Que não conseguimos encontrar.

Nem tão pouco comprar,

Por mais dinheiro que tenhamos, em nossa conta corrente.

Mas que deveríamos ter

Para sair distribuindo gratuitamente,

De uma forma espontânea, partilhada, despojada e fraterna.

Algo como um brinquedo, uma roupa, uma cesta básica, um calçado…

Que pudesse ajudar os mais necessitados.

O natal é uma festa de amor, de confraternização, de alegria e de esperança

Que o “Menino Jesus” transmitiu ao seres humanos

Ao nascer em uma simples manjedoura.

O mais importante nesta época,

Não é uma guirlanda de natal dependurada na porta da casa

Uma árvore de Natal toda iluminada na sala

Ou um Papai Noel dançando e cantando Jingle Bells em uma mesinha de canto.

Com o objetivo apenas de decorar e valorizar o ambiente

E a consciência mais tranquila.

Mas o que deveria prevalecer na realidade,

Era a simples e singela simplicidade do Papai Noel.

Mesmo que fictício para os adultos

Apesar de que um dia também esperamos pela chegada do bom velhinho.

Desejar a todos de coração e de braços abertos

Um eterno e Feliz Natal…

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Crônicas

Encontro na noite

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Ainda me lembro da fumaça enrolando da ponta do cigarro subindo enovelada. Minha mãe reclamava que ela era responsável pelo amarelão do teto. Que nada! A umidade que passava do telhado que não tinha conserto era a responsável, dizia ele. Quando ele morreu, ela olhava para o teto amarelado e ficava pensativa.

Nessa hora, encolhido nesse canto de rua, fico imaginando o pensamento dele enquanto enovelava o cigarro, que como uma pira exalava um perfume enjoativo, e o cigarro queimava na sua mão, essa sim amarelada pelo fumo. E o pensamento dela, perdido a olhar para o céu de gesso, amarelo como um pôr do sol que nunca terminava.

A chuva teimava em continuar enquanto eu me encolhia no canto de rua, vendo o cigarro consumir nas mãos, e apertava com impaciência a cinta rechonchuda, sentindo a coronha da arma, como se verificasse as horas intermináveis que não passavam.

Nunca me imaginei ali parado para um acerto de contas, mas estava, sim, parado, vendo a chuva respingar no cimento e molhar com insistência a barra da calça. A rua estreita, com casas somente, tinha uma pequena elevação rumo à favela, localizada a centenas de metros adiante. A chuva forte afugentara a população e algumas casas iluminadas, com o acender e apagar azulado, denunciavam as televisões ligadas.

O que a minha mãe estaria assistindo agora? Nada. Nunca mais ligara a televisão e ficava entretida com um crochê interminável, medindo uma camisa dele, como se fosse uma encomenda sem urgência.

Certa vez ele quis aprender xadrez. Resolvi ensinar. Ele ficava com ciúme vendo os outros jogando nas praças.

– Para que jogar xadrez na praça?

– As meninas olham – dizia ele.

– E você acha que olham para vocês? Devem pensar no bando de desocupados a ocupar desnecessariamente os bancos, como se tivessem sido feitos só para vocês.

– Brincadeira, continuava ele, me disseram que esse jogo é coisa de gente inteligente. Quero ser também.

Eu ensinei. Ele nunca aprendeu. Teimava jogar como se fosse jogo de damas.

– Cavalo não salta? Então é dama.

– Não, não é dama.

Falávamos de futebol. Ele Vasco, eu Flamengo. Nunca dava certo. Brigávamos. Brigávamos sempre. Hoje estou aqui, por causa dele, à espera…

Quando saía da janela, depois de acender o terceiro cigarro, eram quatro horas da tarde, hora do jogo. Arrumava a mesa, colocava a garrafa térmica de café bem forte e sorvia vagarosamente a caneca, arrumando expressões no rosto em cada lance do jogo. Eu ficava na sala ao lado, lendo um livro, vendo a televisão e torcendo contra ele, silenciosamente. Quando ganhava entrava na sala com um sorriso triunfante, eu me guardava. Quando perdia, vibrava com alguma atitude antidesportiva e incentivava, depois de um gole de café, alguma pancada que seu jogador dava no adversário.

Aquilo me indignava. Como podia vibrar com isso? Naquela hora, ele era um herói maculado. Um Odisseu sem rumo na sua nau vascaína, agarrado no mastro, como se fosse o único goleiro que poderia impedir um gol.

Já passava da meia-noite e a espera não acabava. A chuva parou, mas a barra da calça seguia molhada, e eu sentindo o pingar dela para o chão. Estava imóvel. Um rato saiu do bueiro e olhando para os lados, sua sombra projetava na calçada, contra a direção da luz que vinha de uma lâmpada no poste, que teimava em sinalizar um tempo final de vida. Piscava. A sombra do rato também. Ele, imóvel, a sua sombra aparecendo e desaparecendo dava-lhe sinais de vida. Ameaçou arrancar na minha direção. Senti um frêmito. Encrespei o rosto e atirei o cigarro na direção dele. Foi certeiro. O bicho se assustou com a brasa cintilando na sua frente. Seus olhos pareciam abrir. Seu tamanho cresceu para mim. Ele olhou com os bigodes no ar e numa fração de tempo atirou-se de volta ao bueiro.

Não sorri, não chorei, não senti medo. Apertei a coronha na minha cintura e olhei a barra da calça molhada, teimosa grudando na minha perna.

Odiava aquele cigarro. Me encarregava de buscá-los. Não gostava. Ele insistia. Minha mãe reclamava. Ele insistia. Eu buscava. Fumo agora. Mas ninguém o traz para mim. Fico com ele. Observo a fumaça enovelar diante de mim. Não quero ser a sua cópia. Mas não era justo que ele fosse embora assim. Simplesmente não era justo.

Quando ando pela casa, abro a porta do armário da cozinha e olho lá no fundo a caneca que ele sorvia e torcia contra mim. Não me atrevia a tocá-la. Minha mãe lavou-a e nunca mais a tirou do fundo do armário. Era imune às outras, era imune à limpeza do pano decorado com babados que guarnecia a prateleira de copos. O meu preferido ficava na ponta, bem no lado esquerdo. Ficava imaginando o dia em que ele iria para o fundo do armário. Estava pronto para tudo.

Soltei um suspiro profundo. A rua ficaria mais deserta e o trânsito de pessoas que era pequeno estaria reduzido a nada, e o momento em que ele passaria era próximo. Não sentia nenhum medo, também não tinha coragem. Somente não achava justo ele ter ido embora assim tão de repente. Minha mãe ficara com o olhar perdido no amarelão do teto. Eu me perdera com ela, quando ele foi embora. Não, não era um abandono, ele foi embora por essas coisas do destino. E, por causa disso, eu estava ali parado, depois de tanto tempo investigando, perguntando com cuidado, como se achava, onde morava, por onde caminhava. E a noite escura, com a lâmpada teimosa a emitir sinais gráficos, como o barco no meio do nada a emitir algum sinal de socorro, iluminava a ponta do outro cigarro que eu acendera.

Quando apontava no final da rua, chegando em casa, podia ver no meio da noite a brasa do cigarro acesa. Ele terminara seu trabalho. Quantos sapatos fizera naquele dia? Quantos consertara? Quantas vezes, ele recebia do cliente e repassava para minha mãe. Ela dizia que, pelo menos, poderia comprar uma tinta para cobrir o amarelão do teto, já que ninguém se atrevia a consertar o buraco na telha. Ele dizia que era um desnível do telhado. Coisa que não dava para consertar. Fizeram a casa errado. Fizeram um erro no desnível do telhado. Ela teimava que era telha quebrada, ele dizia que não tinha jeito. Só se mudasse de casa. Ela dizia que era uma boa ideia, mas não iria com ele. Ele dizia que, tudo bem, poderia ir e ela que consertasse o telhado do jeito dela. E quando descobrisse o desnível se lembraria dele. Quando ele foi embora, ela ficou olhando o amarelão do teto.

Nunca descobriu se era desnível ou telha quebrada, mas, com certeza, o amarelão do teto lembrava ele.

A chuva voltou fininha, passava de uma hora da madrugada. Jogando xadrez na praça, os amigos dele diziam onde ficava, onde morava, mas ninguém conseguia explicar o motivo. Não havia motivo, o motivo foi fútil. Fez porque quis, o sujeito era assim. Malicioso, fingia o que não era. Queria aprender xadrez, mas não gostava de perder. Se perdesse matava, fazia e acontecia. Mas era apenas um jogo.

Minha mãe queria saber que jogo era aquele e se ele ia apostar. Ele dizia que não. Ele piscava o olho para mim. Sempre piscava o olho para mim. Buscava uma cumplicidade, uma vontade de contar como era a sua vida, de reclamar da mulher, da mãe, das impertinências. Enquanto acendia outro cigarro e enovelava o ar. O cheiro enjoado, o ar na casa ficava insuportável, até que minha mãe escancarava a janela para o ar entrar e ele ia fumar no parapeito da janela. Um dia eu te largo, e ele dizia o mesmo, e complementava com um “mas, eu falo sério”. E piscava o olho. Até o dia em que foi embora.

Foi embora de repente. E por isso eu estava ali, quando a lâmpada acabou de piscar e exalou seu último halo de luz. O rato não teria mais motivo para não sair, tudo era uma sombra onde podia se esconder.

– Sabe como se pega um rato?

Ele me disse uma vez, depois de insistentemente ficar esperando um rato sair da toca e eu de tocaia com a minha espingarda de chumbinho.

– Você não tem que vigiá-lo, você tem que atrair ele para você, esperar, saber como ele se comporta.

Em seguida, colocou um pedaço de queijo, de comida, para saber a hora exata que o rato saía. O bicho pôs o nariz para fora e rapidamente roubou a comida. Nem deu tempo de apertar o gatilho. Ele riu. Em seguida colocou a comida mais longe, e mais longe, e mais longe, até que o rato foi ganhando confiança e parou para comer antes de entrar no buraco. Ele deu um tapinha nas minhas costas e eu apertei o gatilho. Calmamente. Ele dizia que o rato era meu, era só matar. E eu matei o rato. Um frenesi subiu pelas minhas costas e eu podia sentir um certo brilho no olhar do velho.

Investiguei muito tempo, me expus, subi morro, disfarcei de mendigo, fingi ser policial, amedrontei, tremi e finalmente encontrei. Fugidio como a fumaça do cigarro que se enovelava no ar. Começando espessa, em seguida ficando límpida, fugaz, se espalhando e se escondendo no ar.

Desapareceu como fumaça, diziam os jogadores de xadrez. Ficou aqui três dias, desafiando.

– Posso aprender em três dias, me ensina só alguns truques.

Decorou cada um deles, poderia pegar um incauto, um bobo, coisa só para tirar um sarro, mostrar que era bom. Era bom no sapato, no sapateado, poderia ser bom naquilo, poderia ser bom no que tivesse vontade de ser. Eu ensinei, peguei alguns livros, mostrei, decorou. Ele achava os nomes engraçados: saída dos quatro cavalos; defesa índia do oeste. Minha mãe perguntava se era para apostar a dinheiro. Ele dizia que não, mas se ganhasse uma graninha, poderia comemorar assistindo ao jogo do Vasco no Maracanã.

Piscava o olho. Zombava. Dizia que tinha sorte.

Eu dera sorte. Achei a amante, a bruaca que encobria, que lhe dava dinheiro. Um muquifo, onde morava, no meio de uma favela. Fingi ser alguém à procura de um aluguel barato. Não sentia nenhum temor em ser reconhecido. Nem me importava. Estava para o que desse e viesse. Apertei a coronha do 38 na cintura. Não me sentia seguro, apenas tinha uma vontade. Uma vontade de fazer aquilo desde o dia em que ele foi embora e deixou minha mãe olhando o amarelão do teto, à procura de um sol que nunca terminava o dia.

Eu o vi chegar, era um pouco diferente, mas o jeito de andar era igual. Um pouco mais velho que imaginava. Levantava da mesa de xadrez jogando a perna esquerda bem longe, fingindo ser capoeirista, diziam. Mas era, não era, o que importava.

Vasculhei seus caminhos, decorei seus horários, não fizera mais nada depois que ele foi embora, levando seu cigarro de fumaça enovelada e deixando o amarelão no teto para minha mãe lembrar dele.

Já se passaram dois meses depois dele. Fiquei postado muitas vezes naquele lugar, a subida da ladeira onde estava o muquifo que ele morava com a amante. Não tinha cigarro nas mãos, nunca vira, e, com certeza, não tinha um amarelão no teto para a amante lembrar dele.

Depois de minha mãe insistir bastante, o velho resolveu subir no telhado. Ficou lá, não descia. Eu fui bem devagar e fiquei observando ele, enovelando o cigarro contra o céu azul, olhava para diante, como quem singra com a nau por mares nunca dantes navegados. Era ele contra o azul do céu. O buraco na telha? Não iria consertá-lo, eu já sabia. Em que ele estava pensando? Em um lugar bem longe. O amarelão continuou. Ele disse que era desnível do telhado, não tinha conserto. Lá em cima ele olhava o horizonte com os olhos semicerrados da quentura da fumaça do cigarro.

Quando meus olhos ameaçaram fechar no sono e na espera, ele apontou no início da rua, sua sombra se projetava depois dele, de encontro com a luz dos outros postes, contra a cumplicidade do meu. Ela, a sombra, se movimentava para trás e para frente, à medida que avançava na direção de cada poste de luz. O meu, aquele que ficava bem atrás, a lâmpada soltou o último halo, e a escuridão, o bueiro, o rato que se encolhera, estavam silenciosos. Podia ouvir o barulho dos pés e uma cantoria baixinha que sua boca exalava. Jogava o corpo para os lados como se ameaçasse um bailado, uma luta imaginária.

Resolveram apostar, eles disseram. Os dois se postaram de frente. A plateia se aproximou. Os mais experientes se preparavam para ridicularizar, se cutucando a cada jogada mal feita. Mas os dois estavam levando o jogo a sério. Meu velho tinha decorado muito bem, cada uma das jogadas. Arrancava alguns gestos de aprovação e ele sorvia um trago do cigarro, satisfeito, jogando a fumaça para o ar, com força.

O outro se irritara, quis desfazer o jogo. Não dava. Como não dava? Eu faço o que eu quero, e jogando a perna esquerda para o lado num gesto de capoeira, sacou a arma e descarregou três tiros no meu velho.

Quando olhava para o caixão lembrava da fumaça enovelada que ele levou embora e o amarelão que ele deixara no teto para minha mãe lembrar dele.

Sai silenciosamente da ruela escura, e o outro com um olhar de surpresa, encoberto pela escuridão, tombou com três tiros no peito, meio de lado, com a perna esquerda jogada, na tentativa de uma última jogada de capoeira.

 

Primeiro lugar XXIX Concurso de Contos Paulo Leminski 2018

Nilson Lattari

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Crônicas

Provérbios

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Nilson Lattari

Provérbios estão na origem da sabedoria popular. É através de provérbios, através dos tempos, que lições de vida são passadas de gerações a gerações. Mas, se juntarmos os provérbios em uma trança narrativa chegaríamos a algum lugar? Talvez sim, talvez não.

Provérbios são divertidos, engraçados, sérios, contém lições de vida e transmitem um recado. Poderiam ser uma declaração de apaixonado? Provérbios são pensamentos que trafegam pelo tempo, como um vento que roda indefinidamente pelo nosso universo, perpetuando as tais lições de vida ou de encantamento.

E como eu gostaria que palavras lançadas ao vento pudessem navegar indefinidamente até encontrar seus ouvidos e seduzissem você com o afagar de sua penugem, da cantoria do palavreado. E que elas chegassem em revoada e se enrolassem nos seus cabelos e você risse de contentamento.

E que elas cheguem rápido, mesmo que a pressa seja inimiga da perfeição, porque mais valeria este pássaro na mão do que dois apaixonados indecisos voando por aí. E se, a cavalo dado não se olha os dentes, com certeza este cavalo que chega, branco e suarento, vai lhe trazer um sorriso indecente. Até porque quem ama cuida, e pedirei que ele tenha cuidado ao chegar.

E que chegue cavalgando furtivamente, afinal a ocasião faz o ladrão, e gostaria que você me deixasse ocasionar o roubo do seu coração. Logo, dai a mim o que me pertence de direito, até porque quando um não quer, dois não brigam.

E insistirei sempre em você porque água mole em pedra dura, tanto faz que convence alguém a amar e ser amado.

Por este amor quero tudo de você sem medo de perder, vou com sede ao pote, na certeza de que todo querer não pode sempre perder. A vida nos traz sentido quando insistimos no que queremos, porque de grão em grão se enche o papo, e comendo pelas beiradas, finalmente se vence a batalha.

Você vive no jardim da minha imaginação e, portanto, como não há rosas sem espinhos, e a vida é arriscar, quem não arrisca não petisca um beijo roubado, falar é fácil difícil é fazer, e fazer é o que eu quero, o que importa é dizer, não esconder o que se sente.

Não me desprezes, nunca diga desta água não beberei. Me escaldei como um gato e não tenho medo de água fria. Mesmo quem com ferro fere, e, possivelmente, sairá ferido, tenho que dizer que ninguém morre de véspera, e arriscar na vida tem um sentido.

Sinto, logo existo, e, portanto, quanto mais amor eu dedico, mais certo estou de estar no redemoinho. Vou com cuidado, vou pela sombra, conheço as pedras no caminho.

Quem espera sempre alcança, por isso vou devagar para chegar ao longe, no seu distante coração, e tapo os seus olhos com beijos para que ele não sinta que estou perto e logo corro para abraçar você.

Quem espera sempre alcança, e nessa esperança eu penso em você, talvez você me ache feio, mas bonito quero lhe parecer.

 

Quarto colocado no IX Concurso Pérolas da Literatura 2018 – Guarujá-SP

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