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Crônicas

O ódio e o amor

Por Nilson Lattari.

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215

Honoré de Balzac disse que o ódio tem melhor memória do que o amor. Entre a balança da escolha o que seria o ódio? E o amor? Alguém sente o ódio por causa de um momento onde foi vilipendiado, foi massacrado, humilhado por outro. Da mesma forma a demonstração do amor vem de algum fato, acontecimento, gesto que outro alguém nos deu, de coração limpo, franco, generoso.

Nos tempos atuais, no Brasil, e também no mundo, o ódio passou a ter outra conotação. É justo que pensamentos se oponham a posturas políticas, sociais, é um argumento do pensar, do achar que o caminho certo, correto é um e não o outro, ou o do outro.

O ódio atual passa pela querença de uma suposta igualdade. Todos, em uníssono, queremos a igualdade, o fim de desmandos, o fim de desacertos sociais, que geram a criminalidade. Mas, passam por caminhos diferentes.

A grande questão é por que odiar tanto. Por que ter ódio, exigir o distanciamento, na forma de vestir e viver, como se a existência do pobre fosse fator primordial para estabelecer o diferente? Manter o pobre como uma reserva de contingência.

Igualdade para alguns, não é igualdade para todos. Haja igualdade, desde que todos sejam como eu, ricos, brancos, bem nascidos. Isso é impossível. Ninguém nasce totalmente igual, ninguém escolhe, em sã consciência, nascer preto, pobre, em um lar já desfeito, ou ainda nem nascido. Somente aqueles que acreditam em carma, como solução para acalmar suas consciências, veem isso como justificativa.

Existem duas ignorâncias que buscam espaços na sociedade brasileira: a ignorância dos desamparados socialmente, porque não recebem a educação justa e merecida, e explorando a própria necessidade criam discursos de libertação, mostrando com o próprio rosto, marcado pelas rugas das dificuldades, o discurso de forma crua, retratado na própria existência, no próprio fato de existir. E na outra, a ignorância na forma de protestar, com cartazes exigindo verdadeiras provas de não ter nenhum pudor de admitir que não leem a História, ou então nas formas grosseiras de estampar suas supostas indignações. Exibir sorrisos nos protestos, tirar a roupa, é o maior escárnio que se pode demonstrar pelo outro. Isso é ódio.

Hipocritamente, as duas sociedades se encontram quando combatem a corrupção do outro. De um quando a corrupção grassa à vontade, mas mantendo o dólar barato e o financiamento fácil podem adquirir bens de consumo. Do outro, aceitando a corrupção, mas, que do mesmo jeito proporciona um bem-estar. É o rouba, mas faz; tanto de um lado para o outro.

O amor se desfaz diante do menor contratempo. O ódio se perpetua. O ódio se alimenta do próprio ódio, até que as pessoas comecem a se ignorar, umas às outras. O ódio contamina, e, como o veneno que se infiltra pelo sangue, é difícil de descontaminar. O ódio já está instalado na sociedade brasileira. A pobreza culpa a riqueza pelo seu abandono. A riqueza culpa o pobre pelo próprio fato de existir. Os ricos, os bem nascidos, aqueles que lograram ter a oportunidade de estar no lugar certo, na hora certa, olham e desejam a vida dos outros povos, onde tudo é melhor. Não estão preocupados em transformar a sociedade brasileira, para isso teriam de sentir amor, e quando fazem caridade acham ter cumprido seu papel social. O ódio pede distanciamento.

O que não percebem é que o ódio guarda a memória do desconforto, e chegará o momento em que eles se confrontarão. É inevitável. Por enquanto, escaramuças, depois a memória se transforma em realidade.

O autor

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

O primeiro beijo

Por Nilson Lattari.

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O primeiro beijo

Vamos lembrar do nosso primeiro beijo? Você roubou, ele foi dado? Foi surpreso, inesperado?

Quantas fantasias existem no primeiro beijo. Vamos relembrar?

Foi num encontro de olhares, quando as palavras já perderam o sentido, as mãos se atraíram, o toque foi nervoso, estranho, o primeiro contato com alguém não familiar, sem risos, meio tenso, e uma espécie de ímã foi atraindo os olhares, os rostos se aproximaram, meio escondidos encontrando as bochechas de dois lados, e um abismo se abriu, o chão se afundou, e tudo aconteceu.

É mágica, simplesmente mágica.

Em um artigo foi descoberto que o beijo é algo recente. Os egípcios encontravam os rostos e não havia o contato labial, por exemplo. Seu nascimento foi um mistério, que leva duas pessoas misturarem salivas e bactérias, ignorando perigos.

E o beijo é isso: um perigo, e tudo que é proibido tem seu sabor, sua quentura, algo escondido, sem testemunhas.

Mas, existe um cheiro que acontece naquele instante, um odor que infla as narinas, uma mistura de pecado e permissão. Um beijo é a rudeza do algodão, é o inflar das pétalas da flor que se abre, é o encontro de corpos calados, é o inexistir, o tempo parado, é a vontade de não se acabar.

O mágico do primeiro beijo é que ele nunca se repete. Ele nunca é o mesmo, mesmo que se beije o mesmo amor por longos anos, ele adormece na lembrança, a emoção se resguarda, e por isso ele se torna único. Para sempre ser lembrado como o primeiro, aquele beijo.

Pois ele tem um significado. Ele sela o amor entre dois seres, e de repente aqueles dois não são mais os mesmos, se tornam únicos, partilhadores de segredos, criadores de fantasias futuras, de projetos, conjecturas. Faz de dois seres um só. E aí está a mágica do primeiro beijo: o acordo entre dois, o abraço cúmplice que marca o futuro, ele é a primeira aliança entre dois amores.

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Crônicas

A vela e o fogo

Por Nilson Lattari.

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Crônica: A vela e o fogo

A vela é somente vela quando tem o fogo a tremelicar com o vento. Desenha formas desordenadas nas paredes, dá vida ao breu, entretém as pessoas, e é o motivo de brincadeiras de crianças, quando juntam os dedos das mãos e fazem teatro nas paredes.

Os pratos são servidos romanticamente por elas, quando um casal se junta e comemora, em brinde ao casamento do futuro ou de outrora, lira de muitos anos vividos, amancebados, ou então a aurora de um amor nascendo nos seres aconchegados.

A vela é somente vela quando o corpo é velado, e se despedem do morto, em choros, abraços, saudades, desejando que a longa viagem não termine em trevas. O fogo é outra vida.

A vela é aniversário, é comemorar de anos, passar do tempo, e elas vão se multiplicando a cada ano vivido, desejando todos que elas se repitam.

Ela conduz o viajante pela estrada escura, é protegido o fogo com a mão em borco como se fosse uma lamparina, dessas que se veem nas carruagens. Ela conduz o morador por entre os quartos escuros, e verificado cada ponto, cada barulho estranho, como se andasse em um labirinto.

Ela segue na procissão, repetida de mão em mão, adorando a imagem que segue no andor, carregada nos ombros dos homens. É a virgem iluminada unindo corações. A derramar suas lágrimas quentes que escorregam nas mãos trêmulas dos jovens na primeira comunhão.

O que seria da vela, se não existisse o fogo?
Seria apenas um pedaço de sebo, parafina, esquecida em uma gaveta, com a caixa de fósforos ao seu lado, preparadas para o chamado de emergência ou da comemoração, reunindo os homens ou dando ao solitário a companhia.

Está na mansão ou no casebre, no castelo, nas igrejas, caminhando com o santo e o seu capuz na estrada, ou o homem impuro, preso na tocaia, ela a vela, ele o fogo, companheiros inseparáveis que se transformam em luz.

O Autor

Nilson Lattari

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Crônicas

A espera

Por Nilson Lattari.

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Estava ali, solitário, no meio de outros a esperar a chegada do avião, como companhia um buquê com três rosas vermelhas, repousando na cadeira ao lado, mais um ser à espera de outro.

O seu olhar era ansioso, a aba do boné levantada, como um olhar mais alto, querendo espiar primeiro a chegada. Olhares fixos no corredor do desembarque.

De súbito, uma dúvida lhe assalta, e o homem arrebata o buquê de flores, que se curva com a força da mão, e percebe que ali era o portão errado, e seu rosto impulsiona o restante do corpo em desabalada carreira, enquanto as pernas obedecem ao momento vívido, e o letreiro informando a transferência do portão de desembarque pisca como se comemorasse com ele, o corredor, que de repente enfrenta a sua maratona particular, desviando dos outros corpos que, vagarosamente, arrastando malas pesadas abandonam o aeroporto ou os povoa na preparação da partida.

Ele se petrifica em outro portão, e não mais aguarda plácido, dessa vez está ansioso, a respiração pesada, e sem querer deixa escapar um sorriso de dentes brancos, perfeitamente enfileirados, iluminando a pele negra, a roupa simples, o tênis surrado, causando invejas. Ele espera um amor, longamente trabalhado em uma tela de computador, um amor cheio de mistérios e promessas a serem cumpridas. É como um pintor que se prepara, finalmente, para pincelar a tela em branco, de uma imagem tantas vezes cultivada na imaginação fértil do monitor iluminado.

Foram palavras, conversas, imagens que se conectaram entre a visão da tela e o imaginário se complementando. Era a visão de um corpo que nunca fora tocado, que caminharia pelo corredor que despeja abraços de reencontros, ânsias de descobertas.

E, de repente, ela aparece caminhando e o seu olhar viaja pelo saguão, como alguém perdido tentando encontrar braços abertos como um porto seguro, depois de singrar um mar desconhecido.

A imagem da tela se torna realidade, finalmente os corpos se encontram e surpresos se descobrem mais altos ou mais baixos do que seriam, são poucas as palavras, a descoberta do afinado e do grave das vozes, falam-se ao mesmo tempo, e a única coisa que poderia consolidar tudo, é um longo beijo, e um apertar de corpos e encontro de braços e mãos nervosos, frêmitos de descobertas futuras.

E as rosas ficaram esquecidas nas mãos dos dois.

Nilson Lattari

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