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Crônicas

A mulher de areia

Por Nilson Lattari.

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A mulher de areia

No início da tarde, segunda-feira, depois de um final de semana movimentado, a praia não oferecia muitos atrativos, além de poucos banhistas ao longe, jogadores de vôlei e outros passantes eventuais, moradores do local; ela era deserta, completamente. Era o momento ideal para que eu pusesse ordem na barraca, limpando, arrumando, jogando coisas fora. Na última olhada que eu dera para o mar, não encontrei viva alma caminhando pela areia branca, da estrada até a elevação em frente, e logo depois o quebrar das ondas.

Distante do centro da cidade, o local somente servia para que os usuários o procurassem somente no final de semana. O tempo frio não convidava ninguém a se aboletar em um carro ou ônibus para usufruir do vento que carregava intermitente a areia de um lugar para outro.

Na chegada da tarde a frequência aumentava, recomeçando o ciclo de noitadas barulhentas, aí sim, alimentadas por uma juventude em busca de algo mais para fazer. Julgavam-se os verdadeiros donos da praia. Ao final de um dia de aula, um bando de adolescentes aproveitava os restos de sol, divertindo-se na areia com seus jogos.

Depois da última olhada por cima do balcão, abaixei-me e fiquei reclamando da vida organizando garrafas vazias, retirando lixo misturado teimosamente com a fina areia trazida pelo vento, embalado apenas pelo falatório dele por entre os espaços da barraca de madeira rangente e teimosa a resistir na areia.

Nada a separar aquilo que era um resto de estrada barrenta e o mar. A barraca de madeira era o último comércio à vista, e depois do mar, a África, a muitos quilômetros de mar aberto. Não pude deixar de rir ao lembrar as piadas dos adolescentes dizendo: “Sabe o que nos separa da África? O quê que está ali! respondiam os outros. A barraca do Amauri!”.

Eu os conhecia, eles me conheciam. Traziam-me confidências, eu os confidenciava mentiras, inventava histórias da praia, de frequentadores misteriosos. Eles ouviam com atenção. Se acreditavam ou não, era outra história. Mas eu os divertia e eles me divertiam. Nunca vi disco voador, sereias ou coisas parecidas. Mas eles acreditavam quando eu dizia. E eu falava com grande ar de seriedade. Aprendi assim. O mar não sorria e eu aprendi a não sorrir com ele. A praia era uma escultura de areia, que sorria somente quando o vento a desfazia em pequenos pedaços. Imperceptíveis. Assim deveria ser o meu sorriso quando lhes inventava histórias. Na verdade eu sorria, mas eles não percebiam.

Mesmo quando um carro passava apressado, largando uma poeira barrenta impunemente sobre a areia branca, eu não me surpreendia. Imaginava o que ele transportava, quem e para aonde?

Uma vez, quando olhava pela enésima vez, com mau humor, o monte de areia antes do mar, julguei ver um pedaço de pano que esvoaçava no seu topo. Não era um pano comum, obedecia a um movimento lembrando o leve caminhar de alguém. Parava alguns momentos, e o pano, que os meus olhos apertados identificaram como a ponta de um chapéu, estacionava exatamente acima de um montículo de areia, parecendo a continuação da elevação. Veio chegando mais perto e pude identificar quem caminhava e que, de súbito, sentou na areia a admirar o mar. Pelo feitio do chapéu, sem dúvida, era uma mulher, e o laçarote esvoaçando no vento estava preso nele. Meus olhos se aguçaram e não pude identificar nenhum carro parado por perto. Com a ajuda do binóculo cheguei mais perto e um vestido branco, servindo de fundo a uma cabeleira negra que se revoltava contra o vento, como se fosse uma presa a se debater aprisionada, revelava ser de fato uma mulher. Dirigi o olhar para a estrada, novamente, e nenhum carro havia por lá. Indaguei como ela teria chegado até ali.

Voltei para o meu trabalho e fui desperto por um despejar de pedras, bijuterias, colares, que fizeram um estrondo por cima do balcão, algum tempo depois.

A chegada daquela mulher vestindo uma roupa branca, cabelos presos, com o vento castigando alguns fios que teimavam em se colocar na frente dos imensos óculos escuros que encobriam seus olhos, no meio do nada, me assustou.

Aproximou o rosto e pediu quase que como uma súplica uma água de coco e se tinha permissão para sentar em uma das cadeiras espalhadas na areia. Não é comum esse pedido, muitas vezes as pessoas as ocupam de qualquer maneira, sem nada para consumir. O movimento era quase nulo e isso nada tinha de importante.

Sentou-se elegantemente e de pernas cruzadas fitava o mar. Algumas vezes parecia discretamente olhar para os lados à medida que algum carro passava.

O sol já apontava no céu o início das quatro horas da tarde, e um aquecimento morno adornava e brilhava nos espelhos dos óculos escuros dela. A clientela começou a encher as cadeiras, mas eu não perdia de vista os movimentos da mulher. Os carros já se amontoavam trazendo a revoada de estudantes de quem havia falado.

O jornal era a distração minha e o rádio em alto som parecia incomodar minha bela cliente. No mesmo instante abaixei o volume e um gesto sutil de cabeça foi o sinal de que estava certo.

Um carro se aproximou e a mulher procurou ficar mais próxima da barraca movimentando a cadeira como um gesto de busca por privacidade. Do veículo saltou um casal, que se aproximou do balcão, e eles, sorridentes, pediram refrigerantes. Ele tagarelava sem parar enquanto sua acompanhante procurava um local para sentar. A minha convidada continuava impassível, mas eu percebi um olhar de interesse. Ela se misturava aos outros clientes. E cada um deles exibia desde a solidão, como ela, a paquera explícita e a alegria do bate-papo entre amigos. Entre eles, indiferentes, a paixão do casal recém-chegado.

A jovem puxou o rapaz e eles foram para a areia, assim como alguns outros. Em particular a mulher acompanhou o movimento dos dois. Namoravam e se abraçavam e pareciam dançar chutando a areia de um para outro.

A movimentação foi acompanhada pela mulher que ajeitava os óculos como se procurasse melhor visualizar aquele casal que se dirigia para o mar.

Ficaram sentados algo distante da barraca e olhavam a água, trocando carícias. A mulher então se levantou e se dirigiu para a areia, aproveitando um grupo que se deslocava para uma partida de vôlei. Ela se misturou a eles e não tirava o olhar do casal. Sentou-se e vagarosamente começou a juntar areia em torno de si. Meticulosamente.

Distraído atendendo aos clientes, esqueci momentaneamente dela. Depois de algum tempo resolvi procurá-la. A areia já havia tomado altura até um pouco além da cintura. Ela se vestira literalmente de areia e seu olhar não se desviava do casal. Eles agora estavam deitados na areia, aos beijos. Rolavam, mesmo ele que vestia calça, camisa social e gravata, e os sapatos dele e dela lado a lado acima de suas cabeças.

A mulher estava paralisada dentro do vestido de areia e parecia compor uma escultura igual a essas que vemos nas praias.

Algumas vezes vira esculturas na areia. Competições, competidores, uma chuva de areia e criatividade. Edificavam somente com areia e água. Do nada, tiravam episódios da história, faziam propagandas. Mas nenhuma escultura se equiparava àquela mulher no meio da praia envolta em areia. Não se importava com os olhares dos outros, apenas amealhava uma quantidade cada vez maior de areia em torno de si.

Depois de algum tempo, o casal se levantou e se dirigiu para a estrada. Com o olhar, a mulher, discretamente entre os assistentes do jogo de vôlei, acompanhava os seus movimentos.

Quando eles se distanciaram com o carro, então ela se levantou e sem se importar com a areia que havia inundado o seu vestido branco foi caminhando na mesma direção. Andou um pouco pela estrada, retornou, percorreu a trilha no mato ralo, voltando o olhar, discretamente, na direção do carro já ao longe. Dirigiu-se a mim, perguntou quanto era a água – eu havia esquecido de cobrar -, pagou, alisou o dedo anelar esquerdo de onde retirou uma aliança, afagou-a, mudando-a para outro dedo e sorrindo um sorriso tenso afastou-se. Deixou-me uma lágrima a escorrer de lembrança. Caminhou pela praia, subiu a pequena elevação antes do mar, e desapareceu.

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Crônicas

Nomes, para que servem

Por Nilson Lattari.

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Nilson Lattari

Muitos se preocupam com os significados dos seus nomes, talvez na vã tentativa de comprovar com a escolha do Destino uma futura missão, podendo estar em uma representação do mártir cristão, ou da figura pagã que reinou em outros tempos, do adjetivo que remeteria ao seu real eu, internado na alma, que poderia lhe dar importância sem o menor esforço.

Dar nome aos bois, falar em nome de alguém, de importância ou significado, ou a perguntar o nome disso ou daquilo; o que existe, de realidade, entre o nome que têm as coisas e os seus significados?

Nossos pais, aqueles os responsáveis pela escolha dos nossos nomes, não são inquiridos, até porque as respostas seriam as mais prosaicas; desde a homenagem a uma figura histórica, ao simples gosto pessoal, de um parente próximo e relevante, na escolha do artista da moda, ou uma simples onda que se apossa da multidão, e o sorteado da vez vai carregar pelo resto da vida o nome dado.

Nomes são, também, referências, pontos de partida para orientações, para um uniforme meio de comunicação para sabermos sobre o que falamos, onde estamos.

Depois, alguns nomes se tornam nomes de ruas, lugarejos, bairros, cidades. É com nomes que lembramos da nossa História, e é com nomes, alguns pejorativos, depreciativos que descartamos as coisas que não desejamos.

Mas não só de |Homens vivem os nomes. Vivem também daqueles que se referem a defeitos que existam nos corpos dos Homens, desde o careca, ao exageradamente gordo ou magro e, combinados, viram formas de homenagear duplas, grupos, etc., ou então são marcações que fazemos sobre os outros, taxando de conservadores, comunistas, direitistas e esquerdistas, e, mais recentemente, com os apelidos: coxinhas, mortadelas, trouxinhas até mesmo os maria-vai-com-as-outras, com o devido perdão com as Marias, quer aquelas que vão ou ignorem as outras.

Enfim, nomes são relevantes para sabermos com quem falamos, para nos lembrarmos de quem, e a relevância é dada por aquilo que fazemos, deixamos em nossa História, que pode ser a referência dizendo que aquele sujeito não é um fulano e tal, que fez tanta coisa boa, ou não pode ser igualado, ao mesmo tempo, com o sujeito que nunca poderá ser taxado de um beltrano que fez outro tanto não na mesma proporção de probidade e honradez.

Mais do que saber o significado do nome, devemos dar a ele um significado e uma história de que ele, e também nós devamos nos orgulhar, a ponto de ser lembrado como homenagem. Afinal, para que servem os nomes? Para serem preenchidos com uma bela história.

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Crônicas

Escolha seu eu para colorir

Por Nilson Lattari.

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Escolha seu eu para colorir

Colorir flores em um livro recheado de vazios onde colocamos as cores que nos vêm à cabeça. Dizem que serve como alívio para o stress, a distração em espalhar gotas coloridas, criando jardins na imaginação.

A vida também é um espaço vazio onde preenchemos com momentos coloridos, jardins onde os olhos e os sorrisos nos fazem ver passarinhos verdes. O amor, por exemplo, preenche nossos corações, nossos pensamentos com momentos coloridos (e como é bom esse colorido!). Ás vezes nem é bem amor, mas uma espécie de contrato, mas, mesmo assim, chamamos de amizade colorida.

Algumas pessoas veem a vida em preto e branco. O olhar é sombrio, o sorriso forçado. Sentimentos que perambulam na escuridão, na espreita, invejas, ambição desmedida, propensões às traições, na busca de um colorido que não habita o outro lado da janela do poeta, que como um arlequim de chapéu colorido salta no imaginário em busca de um arco-íris de colorido infinito.

Na busca da autoafirmação do gênero, novos gêneros se abrigam em cores alegres e divertidas.

Pessoas em preto e branco não se permitem colorir. Afastam os momentos coloridos com desdém, desprezo, criticam o colorido que algumas almas, não, quer dizer, muitas almas, com certeza, que já trazem dentro de si um colorido diferente. Expressos nos sorrisos, nos olhares úmidos e brilhantes, esbanjando cores para o mundo, de quanto e como estão coloridos por dentro.

Como ideia para afastar o stress, o desânimo, a desesperança, que tal colorir nossa vida por dentro? Um vermelho bem vivo a bombear do coração para o mundo, uma mente desvanecida, azulada, de anil, a fazer fluir pensamentos positivos, o amarelo desprezado, mas que habita na luz solar, saindo das mãos a espalhar a luz pelos caminhos, o branco, por que não, na suavidade das palavras distribuindo a paz, o verde da calma do respirar tranquilo e tranquilizador, e o preto, também por que não, a servir de pano de fundo, o que dá o realce, e até o brilho.

Mas o falso também pode trabalhar o colorido. Mas, é o verniz da desenvoltura que o desmascara. No verdadeiro, a cor brilha e passa realidade. Como encher nosso livro interior com os momentos coloridos?

Amando, mesmo que não seja amado, porque o amor de si mesmo é que prepara a página de amar. Não existem amantes que não sejam coloridos, e colorem e se deixam colorir e são livros abertos, páginas e páginas que vagueiam, se autopreenchendo dando de si para o outro, na troca de lápis de cor, como crianças em mesa de jardim de infância.

Falta colorir o mundo, não tão somente os livros, que guardamos nas gavetas. Falta o colorido no abrigo das discussões políticas, encardidas nas ideias aferradas, tanto de um lado como de outros, a espalhar a cor única da divisão da riqueza dos homens, da matéria ou da alma que abraça.

É preciso colorir e se deixar colorir pelo mundo. Deixar-se abrir como um livro que revela seus segredos em preto e branco, à espera de que a luz da compreensão venha com seus momentos policrômicos.

Portanto, entregue-se às tintas da imaginação e comece a se colorir por dentro, porque mais do que nunca as cores que outros trazem nos revelam as melhores combinações. Grafites que revelam o que nós somos.

Transforme-se em um livro para colorir, e se encha de cores por dentro.

O autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

Minha Rua

Por Nilson Lattari

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Minha rua é como um rio que vai carregando memórias, eternamente. Quando chego à janela e debruço o olhar sobre as pedras, relembro que ela mudou ao longo do tempo. Foram as casas que se tornaram prédios, foram vizinhos que encheram carros com as mudanças de vida, e novos vizinhos que foram chegando, buscando as informações que os outros levaram, e quem sabe as recontar.

Minha rua é um rio que às vezes desce caudaloso, com as notícias terríveis correndo, contando horrores de crimes, de brigas, de desencontros de amores, e contendas entre antes amigos, durante inimigos e novamente amigos antigos que se retornaram.

Minha rua de tanto mudar ficou muda, e de tantas coisas que aconteceram nela tornaram as janelas meras fontes de informações de gente antiga, e numa confusão de coisas, a memória ficou pra trás.

Minha rua às vezes tem notícias boas, como o conserto do buraco, da água que corria infinita, das luzes que se acenderam novas, trazendo modernidades, dos amigos, já velhos, já avós e avôs, a passearem com seus netos, contando, quem sabe, novidades que trazem de um tempo anterior, apontando com os dedos os lugares onde correram, e os lugares onde tiveram o primeiro amor.

Minha rua é um rio onde o ribeirinho somos nós, os vizinhos de longa data, que se conhecem e se cumprimentam e relembram o tempo onde, crianças, se divertiam nela.

Minha rua é populosa, outrora tão vazia, que as festas que ocorriam eram mais que reuniões de patotas. Minha rua era um ponto de reunião, como o ouro de aluvião que subitamente um grupo encontra.

Minha rua é transgressora, às vezes, perigosa, como o rio que transborda e arrasta as gentes, seus móveis, suas angústias e seus amores.

Minha rua tinha namorados e namoradas, tinha cantiga de roda, hoje é um passar de carros, motos, que as brincadeiras de bikes, antigamente, bicicletas, já não encontram espaço no meio do asfalto novo, tão gostoso de passear, ao contrário dos paralelepípedos que pareciam cantar.

Minha rua tem memória, dessas que até as pedras escondidas no asfalto sabem. Por isso, a memória, que fica escondida no engarrafamento, parece o gigante que dorme à espera de um despertar, aguardando que alguém, finalmente, faça um buraco na rua e ela volte a acordar.

Minha rua tem memória, enquanto vivemos aqui. Um dia, quem sabe, alguém venha a perguntar: Que faz aquela chaminé ali, como um monumento a ninguém? Alguém talvez se lembre que era a casa de um homem que gostava de escrever e, por último alento, colocou na lareira ardente os últimos parágrafos da rua, e levou para sempre as memórias do lugar.·.

Nilson Lattari

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