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Crônicas

Dois em um bar

Por Nilson Lattari.

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Era um bar na rua do Catete, eu, com a barba por fazer, mas com alguma vivência, podia imaginar Machado, o de Assis,  passar em um cabriolet, pince-nez a olhar as meninas que andavam apressadas, nas suas minissaias apertadas. E pensar que daquela cadeira pesada, com os pés redondos e antigos, aquela mesa de mármore encardido, as laterais dela com um floreio, o barulho das conversas, das frituras e a geladeira antiga de madeira, espelhada, de vez em quando acionando com o tranco do compressor, muitos outros antes de mim, que já passaram por essa vida, estiveram a olhar a mesma rua, com certeza, com muitas mudanças, talvez até ele, o Machado.

O bar era antigo, passado de pai para filho, geração por geração, atestado pela sucessão de quadros com as fotografias dos ancestrais do dono que brilhando de suor, gordo e de cigarro na boca comandava as comendas e o burburinho da freguesia.

A rua apertada, com os carros estacionados de cada lado e uma sinfonia de buzinas na fila única do engarrafamento trazia de volta a realidade.

Eu olhava o Décio Avelar na minha frente, quase choroso, a me confessar que a sua Dineia, aquela mesma, filha da costureira, há tempos já não lhe dava atenção, e, naquele dia, de surpresa, arrumara as malas e escafedeu-se, descendo do sobrado que os dois tinham alugado na Correa Dutra, nem bem fazia dois meses.

A minha cara não conseguia olhar o olhar do Décio, só conseguia vislumbrar a gravata aberta, a camisa suja de toda hora ele besuntar os dedos gordurosos na sardinha que ele triturava, ainda tiritando logo que saiu da frigideira, que o garçom esparramava na tigela no meio da mesa e espalhava um cheiro enjoativo pelo ar.

Eu pediria que Machado, travestido de Bentinho, se materializasse no meio da confusão, e demonstrasse o quanto uma Capitu tinha a sua mais valia, na hora correta de um solene pé na bunda: O consolo de se sentir sofrido, mas aprendido a mais dura lição da vida. Será que o Machado andava ali pelos bares à noite, disfarçado, tentando vislumbrar seus personagens e tivesse deparado com um Bentinho, desses que ficam afogando as mágoas pelo amor perdido? Tal qual o Décio Avelar que misturava os choramingos e o triturar das espinhas da sardinha frita?

Ele viria, hoje, descendo pelas ruas de pedra pé-de-moleque, com certeza, sem ainda compreender como uma história como a dele se prolongaria pelo tempo. E eu estava ali, diante de um derrotado, espanando as moscas, e aceitando meio a contra gosto as desculpas do sujeito já pelas tantas, com um cigarro com aquela cinza comprida, ameaçando cair na mesa, de que no fundo o errado teria sido ele. E eu pensava que o errado teria sido a escolha, e precisava parar com essa mania de se considerar um perdedor em tudo, se bem que lhe faltassem algumas pancadas, pá!

A fumaça se espalhava por tudo, as conversas confusas, risadas, batidas na mesa, e o portuga da noite se esfalfando e dando ordens para um grupo de garçons sonolentos, de olhares cansados a levar e trazer garrafas de cervejas, um punhado de copos entrelaçados nos dedos, fazendo curvas entre as mesas, escapando, milagrosamente, das bandejas que lhes vinham ao encontro, trazidas pelos outros garçons.

Voltei à vida e espantei a mosca que teimava em participar da nossa conversa levando os assuntos de mesa em mesa, como a colher informações jornalísticas para compor a pauta do jornal.

Que coisa louca eu ali, dando atenção a um corno, evocando um Machado presumível que já ia distante no corso engarrafado do Catete. Machado já ia longe, que deveria espanar a poeira e dar a volta por cima, porque, afinal, haveria outras Dineias pululando por aí.

Tinha vontade de ir-me embora, mas o Décio me prendia em sua choraminguice de teatro.

Ficar imaginando ele, no banco, atrás do guichê atendendo os clientes e oferecendo o produto da vez, campanha do gerente na busca da promoção pela assiduidade em açoitar, a título de incentivo, os funcionários e, ao mesmo tempo, choramingando suas desditas, até poderia comover algum cliente que quisesse se ver livre de uma confissão fora de hora.

Não ouso encarar o Décio de gravata e ficar posicionado diante dos seus olhos súplices à procura de uma resposta, como se eu tivesse solução para os seus problemas. Lembrei-me da Maria, a do Rosário, que me fez das suas, mas quando percebi, arrumei a Suzana, vizinha do lado, e a deixei meio sem jeito e a tal Maria, a do Rosário, que se imaginava esperta, ficou de boca aberta, e eu faceiro fui curtir minha desdita no meio de outro colo e outros seios abundantes.

Mas, nada disso poderia dizer a ele que nem o Machado já indo bem longe decerto lhe daria as suas batatas, a título de prêmio de consolação.

Até que o Décio desabou na mesa, derramando a cerveja, que o garçom solícito e mecânico veio limpar com sua toalha mais imunda, para limpar uma mesa mais imunda ainda.

O desfiar da história do Décio dava um livro. Não existe banalidade maior do que um bar cheirando à cerveja derramada, com as mesmas moscas cumpridoras de horários a zumbir entre as mesas como as garotas em busca de programas, e um bêbado desfalecido e que eu teria, por força da nossa amizade, levá-lo para casa.

Dali, consigo vislumbrar meu quarto no terceiro andar do número trinta e dois da Silveira Martins, e as pessoas a se acotovelarem na busca do ônibus, ou entrarem no bar e vendo a cara tristonha e a gravata aberta, engolindo mais um copo de cerveja, e o meu olhar perdido no tempo. Uma mistura de gente que vai para casa, cansada, e o grupo que tenta esticar a sexta-feira além do seu tempo, rindo, levando cervejas por cima das cabeças, as mulheres rebolando, sambando um samba imaginário.

Eu ali.

Me arrependo de ter atendido à ligação dele para conversar. A vida é dura, mulher a gente pega na esquina.

– Topa um programa na casa da Guilhermina? As meninas são boa gente, dão consolo que nem mãe, colo quente, as ancas largas, bumbuns juvenis.

– Quero não, quero a Dineia de volta.

– Ora, meu caro, eu aqui me enchendo de literatura para te consolar.

Pago a conta e vou embora, largando a mão do Décio no ar.

– Que culpa eu tenho de não saber te consolar!

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Crônicas

O primeiro beijo

Por Nilson Lattari.

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O primeiro beijo

Vamos lembrar do nosso primeiro beijo? Você roubou, ele foi dado? Foi surpreso, inesperado?

Quantas fantasias existem no primeiro beijo. Vamos relembrar?

Foi num encontro de olhares, quando as palavras já perderam o sentido, as mãos se atraíram, o toque foi nervoso, estranho, o primeiro contato com alguém não familiar, sem risos, meio tenso, e uma espécie de ímã foi atraindo os olhares, os rostos se aproximaram, meio escondidos encontrando as bochechas de dois lados, e um abismo se abriu, o chão se afundou, e tudo aconteceu.

É mágica, simplesmente mágica.

Em um artigo foi descoberto que o beijo é algo recente. Os egípcios encontravam os rostos e não havia o contato labial, por exemplo. Seu nascimento foi um mistério, que leva duas pessoas misturarem salivas e bactérias, ignorando perigos.

E o beijo é isso: um perigo, e tudo que é proibido tem seu sabor, sua quentura, algo escondido, sem testemunhas.

Mas, existe um cheiro que acontece naquele instante, um odor que infla as narinas, uma mistura de pecado e permissão. Um beijo é a rudeza do algodão, é o inflar das pétalas da flor que se abre, é o encontro de corpos calados, é o inexistir, o tempo parado, é a vontade de não se acabar.

O mágico do primeiro beijo é que ele nunca se repete. Ele nunca é o mesmo, mesmo que se beije o mesmo amor por longos anos, ele adormece na lembrança, a emoção se resguarda, e por isso ele se torna único. Para sempre ser lembrado como o primeiro, aquele beijo.

Pois ele tem um significado. Ele sela o amor entre dois seres, e de repente aqueles dois não são mais os mesmos, se tornam únicos, partilhadores de segredos, criadores de fantasias futuras, de projetos, conjecturas. Faz de dois seres um só. E aí está a mágica do primeiro beijo: o acordo entre dois, o abraço cúmplice que marca o futuro, ele é a primeira aliança entre dois amores.

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Crônicas

A vela e o fogo

Por Nilson Lattari.

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Crônica: A vela e o fogo

A vela é somente vela quando tem o fogo a tremelicar com o vento. Desenha formas desordenadas nas paredes, dá vida ao breu, entretém as pessoas, e é o motivo de brincadeiras de crianças, quando juntam os dedos das mãos e fazem teatro nas paredes.

Os pratos são servidos romanticamente por elas, quando um casal se junta e comemora, em brinde ao casamento do futuro ou de outrora, lira de muitos anos vividos, amancebados, ou então a aurora de um amor nascendo nos seres aconchegados.

A vela é somente vela quando o corpo é velado, e se despedem do morto, em choros, abraços, saudades, desejando que a longa viagem não termine em trevas. O fogo é outra vida.

A vela é aniversário, é comemorar de anos, passar do tempo, e elas vão se multiplicando a cada ano vivido, desejando todos que elas se repitam.

Ela conduz o viajante pela estrada escura, é protegido o fogo com a mão em borco como se fosse uma lamparina, dessas que se veem nas carruagens. Ela conduz o morador por entre os quartos escuros, e verificado cada ponto, cada barulho estranho, como se andasse em um labirinto.

Ela segue na procissão, repetida de mão em mão, adorando a imagem que segue no andor, carregada nos ombros dos homens. É a virgem iluminada unindo corações. A derramar suas lágrimas quentes que escorregam nas mãos trêmulas dos jovens na primeira comunhão.

O que seria da vela, se não existisse o fogo?
Seria apenas um pedaço de sebo, parafina, esquecida em uma gaveta, com a caixa de fósforos ao seu lado, preparadas para o chamado de emergência ou da comemoração, reunindo os homens ou dando ao solitário a companhia.

Está na mansão ou no casebre, no castelo, nas igrejas, caminhando com o santo e o seu capuz na estrada, ou o homem impuro, preso na tocaia, ela a vela, ele o fogo, companheiros inseparáveis que se transformam em luz.

O Autor

Nilson Lattari

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Crônicas

A espera

Por Nilson Lattari.

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Estava ali, solitário, no meio de outros a esperar a chegada do avião, como companhia um buquê com três rosas vermelhas, repousando na cadeira ao lado, mais um ser à espera de outro.

O seu olhar era ansioso, a aba do boné levantada, como um olhar mais alto, querendo espiar primeiro a chegada. Olhares fixos no corredor do desembarque.

De súbito, uma dúvida lhe assalta, e o homem arrebata o buquê de flores, que se curva com a força da mão, e percebe que ali era o portão errado, e seu rosto impulsiona o restante do corpo em desabalada carreira, enquanto as pernas obedecem ao momento vívido, e o letreiro informando a transferência do portão de desembarque pisca como se comemorasse com ele, o corredor, que de repente enfrenta a sua maratona particular, desviando dos outros corpos que, vagarosamente, arrastando malas pesadas abandonam o aeroporto ou os povoa na preparação da partida.

Ele se petrifica em outro portão, e não mais aguarda plácido, dessa vez está ansioso, a respiração pesada, e sem querer deixa escapar um sorriso de dentes brancos, perfeitamente enfileirados, iluminando a pele negra, a roupa simples, o tênis surrado, causando invejas. Ele espera um amor, longamente trabalhado em uma tela de computador, um amor cheio de mistérios e promessas a serem cumpridas. É como um pintor que se prepara, finalmente, para pincelar a tela em branco, de uma imagem tantas vezes cultivada na imaginação fértil do monitor iluminado.

Foram palavras, conversas, imagens que se conectaram entre a visão da tela e o imaginário se complementando. Era a visão de um corpo que nunca fora tocado, que caminharia pelo corredor que despeja abraços de reencontros, ânsias de descobertas.

E, de repente, ela aparece caminhando e o seu olhar viaja pelo saguão, como alguém perdido tentando encontrar braços abertos como um porto seguro, depois de singrar um mar desconhecido.

A imagem da tela se torna realidade, finalmente os corpos se encontram e surpresos se descobrem mais altos ou mais baixos do que seriam, são poucas as palavras, a descoberta do afinado e do grave das vozes, falam-se ao mesmo tempo, e a única coisa que poderia consolidar tudo, é um longo beijo, e um apertar de corpos e encontro de braços e mãos nervosos, frêmitos de descobertas futuras.

E as rosas ficaram esquecidas nas mãos dos dois.

Nilson Lattari

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