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Crônicas

Um amor inesquecível

Por Nilson Lattari.

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209

Um amor inesquecível

Era preciso esquecer aquele amor. Isso era tudo que Sônia desejava. Enquanto seu coração pedia o esquecimento, os pensamentos ardiam de vontade de rever os beijos, os momentos felizes, os sorrisos, o olhar brilhante. Sônia nunca entendera o sentido de estar só. A solidão vem acompanhada de perguntas e nenhuma resposta.

Na beira do rio, a correnteza levemente levava pedaços de margem, tudo era calma. Abriu a bolsa e retirou um lenço branco, virgem, não tocado, e nele escreveu o nome do ex-amado. Como um nome pode ter significado tanto para ela? As instruções mandavam colocar além do nome, um objeto que ele dera para serem lançados no rio. Eram tantos objetos de recordação, que Sônia teria de achar muitos outros lenços para serem atirados na água!

Escolhera um brinco. Queria esquecê-lo? Mas precisava. Foram cinco anos convivendo com a canalhice dele, com as mentiras ditas de forma branca e olhar límpido, mas foram também os momentos mais felizes de sua vida. Tudo isso não caberia em um lenço e a força da correnteza não poderia levar.

Sônia segura o lenço fortemente nas mãos, uma lágrima escondida tinha se aninhado no fundo dele e o embrulho começa a pesar. Quando ela se senta à margem do rio, todas as coisas começam a parecer pequenas, miúdas, mesmo os carros barulhentos atrás dela não são capazes de despertá-la.

Quais são mesmo as palavras a serem ditas? No longo escolher dos objetos, Sônia não lembrava mais das palavras. Não seria importante guardar todas aquelas memórias, como um álbum, qualquer coisa que pudesse fazer com que ela se lembrasse, um querer consertar, ao menos na memória, os desentendidos, os esquecimentos e transformar em coisas tolas tudo aquilo que no passado parecera sério?

Sônia aconchegou o lenço em seu regaço como se o quisesse proteger do desatino de lançá-lo à corrente. As palavras da simpatia lhe vieram à mente, mas a boca se recusava a dizê-las, como se uma profecia dali por diante acontecesse e o retorno se tornaria impossível.

Um sorriso veio até os seus lábios quando lembrou a mordida doce em sua boca, e um braço envolvendo o seu peito a trouxesse levemente para trás, e a tornasse um anjo prestes a alçar voo rumo ao desconhecido. Julgou que a eternidade poderia existir e que todas as possibilidades se realizariam. Por isso nada havia cobrado, nada exigiu, porque tudo o que queria naqueles momentos era sentir um pouco de felicidade.

Um pássaro se agitou no arbusto próximo e a realidade se aproximou novamente de Sônia, como o réptil ardiloso que prepara o bote. Seus olhos abriram e atrás de si nada havia. Somente as pessoas passando apressadas. Por que se cobrava tanto? Por que se sentia responsável pelo final doloroso do seu romance? Teria culpa?

Era preciso ser forte e superar mais uma vez um instante como aquele. Sempre amara demais, e sempre procurava maneiras e fórmulas para poder se superar, tornar aquilo uma página virada. Conseguira outras vezes, conseguiria outra. Tinha dúvidas. Em outras épocas não tivera. Decidira muitas vezes sua vida, sem arrependimentos.

Ninguém tem o benefício de poder arrancar de suas memórias algo que lhe cause dor. Não há remédios, exercícios, nada que possa desviar dos pensamentos aquele algo mais, aquela alguma coisa que acrescentou na sua vida. Não se pode impunemente esquecer o que foi agradável, o que causou prazer. Mesmo que esse prazer venha ensombrecido pelas artimanhas e mentiras. Tudo fica esquecido quando alguém lhe traz o conforto e por alguns momentos a torna a pessoa mais amada do mundo.

Não chorou na despedida e a necessidade de permanecer forte torna você um outro ser. Olhara bem tranquila para ele, sentiu vindo dele um sentimento de fraqueza, não por sentir em algum momento que voltaria atrás, mas viu nos seus olhos um pouco do medo em não ter sido um amor tão grande assim.

Não há segredos para viver, mas viver em segredo não é bom. Mentir para si mesma a pior das coisas. Ninguém poderia sentir a dor que sentia. Mesmo quem perdeu um grande amor. Cada amor é grande na sua maneira de ser. O dela, o grande amor, estava no não se sentir sozinha, se sentir inesquecível, tanto nas palavras doces como ele sabia dizer, como na surpresa diária e confortante e em cada mimo recebido.

Queria enxergar nele o mesmo brilho do seu olhar, mas se contentava em saber que, mesmo sendo aquele olhar vazio e inseguro, significava muito para ela e a entrega com que se deu. Não foi escolhida por ele. Pelo contrário, tinha sido ela que o escolhera e entregou sua vida como se uma necessidade houvesse. E havia.

Não sabia, porém, que não pudesse controlar aquilo. Se sentia capaz de controlar sentimentos.

– Posso ajudar? – uma voz interrompeu seus pensamentos.

Ao se virar, encontrou uma senhora que se aproximara. Percebera ela que o amor lhe fazia tão mal, que o semblante a entregara?

– Isso é amor, não é minha filha? – continuou.

Ela não precisou confirmar. A velha senhora afagou seus cabelos e começou a repetir todas as fórmulas que ela já conhecia. Não se atreveu a mostrar-lhe o lenço com a simpatia que lhe ensinaram.

Ao ver o lenço, no entanto, a senhora percebeu, como se tivesse um dia vivido aquilo.

– Para um velho amor, nada como um novo amor.

Se sentiu mais só ainda.

Ela levantou e continuou em silêncio pela margem do rio, alcançando o passeio e se misturando às outras pessoas.

Já ouvira aquela fórmula. No passado, para esquecer uma paixão se entregara à vida, na procura de outro amor. Não sabia, no entanto, que o destino para curar as pequenas paixões deu-lhe o conhecimento de um verdadeiro amor.

Nilson Lattari

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Crônicas

Uma história de amor

Por Carlos R. Ticiano.

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Uma história de amor

A tarde começa a cair e num céu amarelado pelos últimos raios de sol, uma gaivota voa silenciosamente em direção ao horizonte. Que parece esconder a realidade sobre este voo solitário, que ela faz todos os dias quando o sol começa a ser pôr, no infinito de um céu misterioso, mesclado por nuvens espessas e obscuras.

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Diante de um mar azul, tendo como companhia apenas a gaivota, vou caminhando pela praia deserta, na expectativa de encontrar as marcas dos seus pés na areia. Mas as ondas, ignorando a minha tristeza, chegam antes e acabam apagando seus passos e a esperança de encontrá-la. Mesmo com um semblante abatido e uma lágrima no rosto, continuo lhe procurando e tentando entender aquele triste adeus, que descoloriu um lindo final de tarde ensolarado.

Até já escrevi nas nuvens que é inimaginável viver sem seu amor; no arco-íris sem seus beijos; na lua sem seu olhar; na aurora boreal sem seus abraços; no vento sem seus carinhos; na garoa sem sua ternura; no sol sem seu sorriso; nos relâmpago sem seu encanto; na chuva sem sua alegria. Mas você não responde!

Com sua partida, a vida para mim, perdeu todos os sentidos, seu olhar ficou ofuscado e sem expressão, seus passos confusos e distantes, seu sorriso enigmático e misterioso, suas palavras sem sentido e evasivas.  A valiosa arca do “tesouro do amor” que juntos descobrimos em alto mar, deixei abandonada na praia junto a uma palmeira, que acenando ao vento com suas folhas, insinuam que você não voltará.

Até já escrevi nos jornais que é indescritível viver sem sua doçura; nos outdoor sem sua simpatia; nos panfletos sem sua delicadeza; nas revistas sem suas fantasias; nos letreiros sem seu entusiasmo; nas faixas sem sua graciosidade; nas placas sem seu carisma; nas redes sociais sem sua amizade. Mas você não responde!   

Mas eu não desisto, e como as ondas do mar, minha esperança vai e volta, pois eu sei que tentar esquecê-la é como aventurar-se tentando atravessar o mar em um pequeno barquinho feito de papel crepom, que mesmo elaborado com muito amor e carinho, não resistirá as suas ondas e acabará naufragando, diante de um mar revolto.

A manhã começa a raiar num céu amarelado pelos primeiros raios de sol. A gaivota retorna de seu voo solitário e eu recomeço a caminhada por toda extensão da praia. Só que sempre sem sonhos, sem esperança, sem destino e sem objetivos, pois quando você caminha com a lua em direção do horizonte, pisa tão leve na areia da praia, que mesmo não tendo ondas, é praticamente impossível visualizar os seus passos.

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Crônicas

As cidades

Por Nilson Lattari.

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As cidades guardam dentro de si mais do que ruelas apertadas, ruas largas, avenidas, janelas, carros parando nos sinais para as gentes apressadas, e seguirem depois em loucas disparadas.

Cidades são olhos nos olhando do alto dos edifícios. Espionando por fora de outros olhos que se escondem por trás de cortinas, vidros fumegados, óculos escuros em andares pendurados.

O que a cidade enxerga? Como ela nos vê?

As cidades nos comprimem no amontoado de pessoas, a se encontrarem sem carinho no esbarrar de ombros, encontros casuais de mãos. As suas ruas estreitas parecem comprimir os seus lados e os paralelepípedos dos calçamentos ameaçam saltar no encontro deles. São escuras as ruas e amedrontadas à noite.

Lado a lado, casas que se espremem ao longo do calçamento de rua, em uma briga louca por espaço. Transeuntes noturnos, cobertos pelo manto da noite, pés encostados nas paredes a observar o nada, e, ao mesmo tempo, tudo. Pequenos rolos de cigarros a circular pelo ar, para encontrar as luzes da iluminação pobre, pirilampos de névoa a buscar a luz.

Luzes saindo de janelas, a fornecer o pouco de vida para a noite. Gritos, barulhos que ecoam pelo ar. Alguém grita, todos ouvem e não mexem um dedo. Apenas os olhos se movem: Morte.

A iluminação do dia traz os contornos mais nítidos. Barulhos de vendedores, apregoando a sorte que pode chegar, anúncios de pechinchas, lojas a oferecerem objetos em bancadas nas calçadas. Mulheres em seus trajes de passeio ondulam pelas vitrines, a admirar os objetos de desejo ou para se exibirem a si mesmas as roupas novas, outras passam apressadas para alcançar a hora de atendê-las, burburinho: Vida.

A chuva cai, de repente, a rua esvazia, a população se espreme nas marquises, igualando ricos e pobres. Democrática, brinda a todos com a mesma benção. A rua de seca passa a molhada, coloridos espelhos dos neons nas poças d’água, interrompendo o fluxo dos vidros espelhados. A cidade narcisa se vê refletida no líquido.

Um carro passa e mistura tudo.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Guloseimas e infância

Por Nilson Lattari.

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Guloseimas e infância

O garoto entrou na loja, praticamente puxando o pai pelo braço, e com o dedo em riste apontava para as bolas de vidro recheadas de balas, com invólucros coloridos. O pai, pacientemente, perguntava o preço ao vendedor e o menino se extasiava com a enxurrada de coloridos que encheram suas mãos.

Balas e crianças combinam com perfeição. As balas são, talvez, aquelas que mais lembram a infância, a boca sedenta de açúcar sem importar com as advertências da mãe, quanto às cáries que tanto choro vai custar depois.

Eu não fujo disso, tenho as minhas cáries, ainda, quem sabe, daqueles tempos em que os açúcares inundavam a minha boca também sedenta. Até hoje, ainda recorro a elas; sendo a minha preferência aquelas de iogurtes, oferecidas como brindes em restaurantes, bem baratinhas.

Mas, a maior lembrança é do doce de abóbora, da mariola, da maria-mole, e do principal: as balas de tamarindo, envolvidas em um papel branco, como se não tivessem dono, fabricadas artesanalmente.
Hoje, o doce de abóbora ainda se encontra, bem como da mariola, ou doce de goiabada, embaladas industrialmente. Seria por conta da higiene? Todos têm o mesmo tamanho, espessura, não lembrando aquelas que vinham em tamanhos disformes, e que os meus dedos iam apontando para as maiores, as de tamanho mais generosos.

Havia também aquelas gelatinas coloridas, com pedaços de açúcar cristal espalhados, aquela coisa quadradinha, perfeita, ou então os doces de jujuba.

Não sei se os nomes mariola, quebra-queixo, marias-moles, ou o doce de abóbora, que não tinha um nome específico, ainda são referidos dessa forma, ou, simplesmente, as crianças dizem: quero aquele doce, o pretinho, o cor de abóbora, a amarguinha do tamarindo. Apontam com o dedo e querem, e pronto.

Esses doces são lembranças de um tempo antigo, satisfazer as crianças com as guloseimas faz parte de um pouco de infância que trazemos conosco.

Os velhos balcões de madeira e vidro ao contrário do bem comportado pote de acrílico, as embalagens que envolvem os doces, protegendo-os de atores externos, visitantes noturnos das padarias.
Os objetos de desejo, todos têm uma preferência, uma recordação da infância: damos um doce para quem quiser recordar.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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