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Crônicas

Um amor inesquecível

Por Nilson Lattari.

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Um amor inesquecível

Era preciso esquecer aquele amor. Isso era tudo que Sônia desejava. Enquanto seu coração pedia o esquecimento, os pensamentos ardiam de vontade de rever os beijos, os momentos felizes, os sorrisos, o olhar brilhante. Sônia nunca entendera o sentido de estar só. A solidão vem acompanhada de perguntas e nenhuma resposta.

Na beira do rio, a correnteza levemente levava pedaços de margem, tudo era calma. Abriu a bolsa e retirou um lenço branco, virgem, não tocado, e nele escreveu o nome do ex-amado. Como um nome pode ter significado tanto para ela? As instruções mandavam colocar além do nome, um objeto que ele dera para serem lançados no rio. Eram tantos objetos de recordação, que Sônia teria de achar muitos outros lenços para serem atirados na água!

Escolhera um brinco. Queria esquecê-lo? Mas precisava. Foram cinco anos convivendo com a canalhice dele, com as mentiras ditas de forma branca e olhar límpido, mas foram também os momentos mais felizes de sua vida. Tudo isso não caberia em um lenço e a força da correnteza não poderia levar.

Sônia segura o lenço fortemente nas mãos, uma lágrima escondida tinha se aninhado no fundo dele e o embrulho começa a pesar. Quando ela se senta à margem do rio, todas as coisas começam a parecer pequenas, miúdas, mesmo os carros barulhentos atrás dela não são capazes de despertá-la.

Quais são mesmo as palavras a serem ditas? No longo escolher dos objetos, Sônia não lembrava mais das palavras. Não seria importante guardar todas aquelas memórias, como um álbum, qualquer coisa que pudesse fazer com que ela se lembrasse, um querer consertar, ao menos na memória, os desentendidos, os esquecimentos e transformar em coisas tolas tudo aquilo que no passado parecera sério?

Sônia aconchegou o lenço em seu regaço como se o quisesse proteger do desatino de lançá-lo à corrente. As palavras da simpatia lhe vieram à mente, mas a boca se recusava a dizê-las, como se uma profecia dali por diante acontecesse e o retorno se tornaria impossível.

Um sorriso veio até os seus lábios quando lembrou a mordida doce em sua boca, e um braço envolvendo o seu peito a trouxesse levemente para trás, e a tornasse um anjo prestes a alçar voo rumo ao desconhecido. Julgou que a eternidade poderia existir e que todas as possibilidades se realizariam. Por isso nada havia cobrado, nada exigiu, porque tudo o que queria naqueles momentos era sentir um pouco de felicidade.

Um pássaro se agitou no arbusto próximo e a realidade se aproximou novamente de Sônia, como o réptil ardiloso que prepara o bote. Seus olhos abriram e atrás de si nada havia. Somente as pessoas passando apressadas. Por que se cobrava tanto? Por que se sentia responsável pelo final doloroso do seu romance? Teria culpa?

Era preciso ser forte e superar mais uma vez um instante como aquele. Sempre amara demais, e sempre procurava maneiras e fórmulas para poder se superar, tornar aquilo uma página virada. Conseguira outras vezes, conseguiria outra. Tinha dúvidas. Em outras épocas não tivera. Decidira muitas vezes sua vida, sem arrependimentos.

Ninguém tem o benefício de poder arrancar de suas memórias algo que lhe cause dor. Não há remédios, exercícios, nada que possa desviar dos pensamentos aquele algo mais, aquela alguma coisa que acrescentou na sua vida. Não se pode impunemente esquecer o que foi agradável, o que causou prazer. Mesmo que esse prazer venha ensombrecido pelas artimanhas e mentiras. Tudo fica esquecido quando alguém lhe traz o conforto e por alguns momentos a torna a pessoa mais amada do mundo.

Não chorou na despedida e a necessidade de permanecer forte torna você um outro ser. Olhara bem tranquila para ele, sentiu vindo dele um sentimento de fraqueza, não por sentir em algum momento que voltaria atrás, mas viu nos seus olhos um pouco do medo em não ter sido um amor tão grande assim.

Não há segredos para viver, mas viver em segredo não é bom. Mentir para si mesma a pior das coisas. Ninguém poderia sentir a dor que sentia. Mesmo quem perdeu um grande amor. Cada amor é grande na sua maneira de ser. O dela, o grande amor, estava no não se sentir sozinha, se sentir inesquecível, tanto nas palavras doces como ele sabia dizer, como na surpresa diária e confortante e em cada mimo recebido.

Queria enxergar nele o mesmo brilho do seu olhar, mas se contentava em saber que, mesmo sendo aquele olhar vazio e inseguro, significava muito para ela e a entrega com que se deu. Não foi escolhida por ele. Pelo contrário, tinha sido ela que o escolhera e entregou sua vida como se uma necessidade houvesse. E havia.

Não sabia, porém, que não pudesse controlar aquilo. Se sentia capaz de controlar sentimentos.

– Posso ajudar? – uma voz interrompeu seus pensamentos.

Ao se virar, encontrou uma senhora que se aproximara. Percebera ela que o amor lhe fazia tão mal, que o semblante a entregara?

– Isso é amor, não é minha filha? – continuou.

Ela não precisou confirmar. A velha senhora afagou seus cabelos e começou a repetir todas as fórmulas que ela já conhecia. Não se atreveu a mostrar-lhe o lenço com a simpatia que lhe ensinaram.

Ao ver o lenço, no entanto, a senhora percebeu, como se tivesse um dia vivido aquilo.

– Para um velho amor, nada como um novo amor.

Se sentiu mais só ainda.

Ela levantou e continuou em silêncio pela margem do rio, alcançando o passeio e se misturando às outras pessoas.

Já ouvira aquela fórmula. No passado, para esquecer uma paixão se entregara à vida, na procura de outro amor. Não sabia, no entanto, que o destino para curar as pequenas paixões deu-lhe o conhecimento de um verdadeiro amor.

Nilson Lattari

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Crônicas

A chuva

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Existe algo mais democrático do que a chuva? Ou tão democrático quanto ela? Ela pode chegar de mansinho e derramar suas lágrimas igualmente. Ela pode chegar torrencialmente e afogar a todos, quer sejam ricos ou pobres, ela arrasta desde a mansão mais nobre ou o barraco mais pobre.

Quando alaga não interessa a ela se as coisas que destrói sejam decorações de palácios ou casas médias ou pobres.

A água se imiscui pelas reentrâncias e nenhum poder a impede. Ela não se deixa conduzir quando a sua índole, o seu fazer natural lhe domina, e a natureza vingativa retoma aquilo que lhe foi roubado, ou é festejada quando chega ao solo seco e despeja dos telhados uma alegria que é festejada pelas ruas, com as pessoas a se banharem.

A chuva se anuncia, algumas vezes é saudada ou bem-vinda, e, às vezes, é temida, é mal vinda, e não importa a origem dos olhares que a enxergam.

Ela se anuncia num repente como a chuva de verão que nos surpreende. Ou é antevista pelos relâmpagos e trovões a iluminarem o céu.

A chuva transborda os rios, alaga as ruas, enche os reservatórios, as represas, e se transforma em riqueza que traz a água que nos mata a sede ou a intempérie furiosa que arrasta na noite, sejam ricos, pobres, brancos ou negros, todos à procura de proteção.

Para os desertos é coisa rara, para as florestas abundância, pune com suas regras aqueles que desmatam, e abençoa aqueles que peregrinam nas areias, e valorizam a água como tesouro descoberto.

O aprendizado da chuva é enorme, nas plantas que agradecem, no solo seco que rejuvenesce, no viajante que enfrenta a mudança, porque depois da tempestade vem a bonança.Quanta coisa nos traz a chuva, e, no entanto, são somente as nuvens a espremer o que lhes trouxe o sol. Quanta coisa nos traz a chuva e, no entanto, é apenas água que cai do céu.

Nilson Lattari

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Crônicas

A história de um ateu

Por Nilson Lattari.

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A história de um ateu

Era um ateu, assim considerado porque não via nenhuma espécie de conserto em alguma coisa. Coisas como fraternidade universal, bem estar da comunidade ou mesmo amor ao próximo. Dizia essas coisas aos quatro ventos. Muitas vezes saía dali e vinha pela madrugada levando cobertores para os moradores de rua, que ficavam à mercê do frio. Ele distribuía os cobertores ou mesmo fazia serviços colaborando com uma sopa, enquanto praguejava dentro de si mesmo, se afastando até mesmo quando algum grupo se juntava para rezar. Ele se afastava, e saía pelas ruas se compadecendo de algum cão que perambulava pelas ruas, ficando na eterna dúvida se deveria levar somente mais aquele para sua casa, e vê-lo se reunir a outros que o aguardavam cheios de mimos, latidos e agrados.

Festejava, quando lhe diziam, que o seu comportamento de ofender a Deus o levaria ao Inferno, e ele respondia que ainda bem que não se misturaria com quem não concordava. E não via nenhum problema em blasfemar, até porque não blasfemava, porque até mesmo se fizesse isso aceitaria a existência de Deus. Logo não perderia tempo com isto.

As lágrimas corriam de seus olhos, silenciosamente, quando via negros e pobres, crianças serem afugentadas por seguranças e policiais dos locais mais nobres, e quando se sentiu mal, resolveu morar perto deles, para que de alguma maneira pudesse ajudá-los. E não aceitava um agradecimento em nome Dele. Achava absurdo, porque ele o fazia porque queria, movido por alguma coisa que desconhecia.
Retribuía dizendo que se Deus existisse não teria permitido as injustiças no mundo. E que as ações de cada um é que poderiam mudar o mundo, e fazia todas elas dando o exemplo de como seria possível.

Se dizia infeliz consigo mesmo, quando olhava no espelho, apesar de, escondido, um sorriso chegar à sua boca, vendo que uma ação que fizera antes com alguém, com algum animal havia surtido algum efeito benéfico. Era o seu momento de alegria, se sentia o melhor dos homens, mesmo que quando olhasse para os lados não houvesse ninguém para festejá-lo. Para os outros era apenas um ateu incorrigível, mas, para ele, e somente para ele, era o melhor de si que poderia fazer. E enquanto as lamentações de outros era não ter conseguido algum bem material, para ele a lamentação era não ser possível fazer mais.

Outras vezes conseguia algum benefício para alguém, e atribuía à sorte ou ao destino, afinal de algum jeito a vida tenderia a mudar. Era alguma coisa inexplicável, como se viesse do nada. A sua explicação era de que o mundo era como é, sem nada a acrescentar e nada que se pudesse fazer para alterá-lo. Simplesmente, ninguém poderia fazer a diferença.

Ninguém acreditava nas suas boas ações, diziam que quem não acreditava em Deus, com certeza, nenhuma boa intenção poderia existir.

E ele seguia seguindo seus próprios passos e o que o seu coração mandava, ações, para ele, era o que importava, e em Deus, simplesmente, não acreditava. Mesmo que Deus continuasse a procurá-lo, porque acreditava nele.

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Crônicas

De volta para o aconchego

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Do G1

Aconchego é chegar a algum lugar, seja na porta de casa, na presença da pessoa apaixonada, no coração querido. Aconchego é a reza escondida que conforta a alma, declamada baixinho no silêncio do quarto, são as palavras que jogamos no alto, na esperança de Alguém que desejamos que exista, que as receba em Seu colo e nos atenda, porque nos aconchegamos a Ele sempre nos momentos mais precisados e também naqueles preciosos quando conquistamos o nosso desejo guardado.

Aconchego está no aceno de longe, quando somos reconhecidos entre muitos, na multidão, quando aquele sorriso se expande à vista da nossa simples presença, descendo de um ônibus, de um avião, vindo de algum lugar distante. Está no correr para os abraços, nos risos, nos deboches engraçados que fazemos com aqueles que amamos.

É bom quando voltamos para o aconchego, porque é como se aquele lugar nunca nos abandonasse, seja uma paisagem, que guardamos desde criança, um simples cheiro de flor, em um jardim onde encontramos nosso amor de outros tempos, está na lembrança de um beijo, porque é no conforto de nossas coisas boas, acontecidas, que nos revigoramos de tempestades nos tempos presentes.

Todos nós temos nosso aconchego. É quando a noite desce, e nos enrolamos em nossos travesseiros, e imaginamos fantasias sobre o que poderíamos ter feito, é quando choramos sem motivo algum, porque esses momentos não são de fraquezas, é quando choramos por injustiças, e nosso aconchego não está em nada poder fazer, mas, o simples fato de querermos que o mundo seja melhor é a melhor maneira de demonstrar o quanto de bom temos dentro de nós.

São nesses momentos em que demonstramos para nós mesmos, que o mundo não deveria ser assim, que comparamos as vidas daqueles que sofrem às nossas vivências, com vidas vividas em um tempo anterior, imaginado, sem saber.

É quando nos aconchegamos perto Dele.
Porque se imaginamos que o mundo não pode ser assim como é, se existem injustiças, ódios e falta de amores, quando vivemos em um mundo impossível, de disputas desnecessárias, de ganâncias extremadas, pela razão de que as coisas são assim, geridas em nosso íntimo, quando entendemos que as coisas não podem ocorrer dessa maneira, e nos sentimos incomodados com isso, é que nossa alma, nossas lembranças mais guardadas nos lembram do aconchego de que já habitamos um outro lugar, mais justo, onde a irmandade realmente existe.

Porque o entendimento de que o mundo é injusto vem do fato de já termos vivido a justiça plena em algum lugar. A comparação é a consequência de que estaremos de volta para o nosso aconchego algum dia, e a certeza de que Ele existe, com certeza.

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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