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Crônicas

Uma professora misteriosa…

Por Carlos R. Ticiano.

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Uma professora misteriosa...

Muito elegante

De lencinho amarelo no pescoço,

Ela foi chegando.

Com seus livros, réguas, esquadros, transferidores e compasso…

Para ministrar uma aula de geometria.

Indagando se a matéria em pauta naquele dia,

Seria sobre ângulos, triângulos, quadriláteros, polígonos, pirâmides ou teoremas e planos…

Pois a professora titular havia faltado.

Neste momento,

Um silêncio pairou sobre toda a sala de aula.

Deixando no ar um mistério,

Que envolviam, desde sua roupa, pulseira, colar, brinco, anel…

Até um perfume sedutor.

Não tinha como ficar indiferente,

Tudo o que vinha daquela professora graciosa

De nome Annabella…

Tinham o objetivo de deixar-me encabulado,  

Considerando a forma como ela me olhava e eu a observava.

Do interesse em dirigir-se sempre a mim,

Para saber se tinha ficado alguma dúvida sobre a matéria.

Não podia ser coincidência,

Aquele olhar misterioso, aquele andar elegante, aquela voz amorosa…

Deixa-me inquieto,

Pressentindo um perigoso e atraente jogo de esconde-esconde.

Bastando que eu apenas sorrisse,

Para ficar perdido para sempre, no labirinto das linhas e formas geométricas

Utilizados nos cálculos de matemática, expostos no quadro negro.

Uma professora atraente,

Que surgiu do nada, como num passe de mágica.

O tempo voou, a aula terminou…

Ela agradeceu pelo acolhimento, foi pegando sua bolsa e demais pertences

E saindo discretamente,

Com jeito de quem queria dizer alguma coisa.

Tentei obter algumas informações sobre ela na secretaria

Mas ninguém soube me dizer nada.

No final do semestre, mesmo com a aprovação   

Sobre o Teorema de Pitágoras, Teorema de Tales e o Plano Cartesiano  

Tive a sensação de reprovado.

Ao recordar-me da professora Annabella…

Da sua aula de geometria,

E do ingênuo coração de um jovem adolescente.

Que desfrutou por algumas horas,

De um amor platônico.

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Crônicas

O primeiro beijo

Por Nilson Lattari.

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O primeiro beijo

Vamos lembrar do nosso primeiro beijo? Você roubou, ele foi dado? Foi surpreso, inesperado?

Quantas fantasias existem no primeiro beijo. Vamos relembrar?

Foi num encontro de olhares, quando as palavras já perderam o sentido, as mãos se atraíram, o toque foi nervoso, estranho, o primeiro contato com alguém não familiar, sem risos, meio tenso, e uma espécie de ímã foi atraindo os olhares, os rostos se aproximaram, meio escondidos encontrando as bochechas de dois lados, e um abismo se abriu, o chão se afundou, e tudo aconteceu.

É mágica, simplesmente mágica.

Em um artigo foi descoberto que o beijo é algo recente. Os egípcios encontravam os rostos e não havia o contato labial, por exemplo. Seu nascimento foi um mistério, que leva duas pessoas misturarem salivas e bactérias, ignorando perigos.

E o beijo é isso: um perigo, e tudo que é proibido tem seu sabor, sua quentura, algo escondido, sem testemunhas.

Mas, existe um cheiro que acontece naquele instante, um odor que infla as narinas, uma mistura de pecado e permissão. Um beijo é a rudeza do algodão, é o inflar das pétalas da flor que se abre, é o encontro de corpos calados, é o inexistir, o tempo parado, é a vontade de não se acabar.

O mágico do primeiro beijo é que ele nunca se repete. Ele nunca é o mesmo, mesmo que se beije o mesmo amor por longos anos, ele adormece na lembrança, a emoção se resguarda, e por isso ele se torna único. Para sempre ser lembrado como o primeiro, aquele beijo.

Pois ele tem um significado. Ele sela o amor entre dois seres, e de repente aqueles dois não são mais os mesmos, se tornam únicos, partilhadores de segredos, criadores de fantasias futuras, de projetos, conjecturas. Faz de dois seres um só. E aí está a mágica do primeiro beijo: o acordo entre dois, o abraço cúmplice que marca o futuro, ele é a primeira aliança entre dois amores.

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Crônicas

A vela e o fogo

Por Nilson Lattari.

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Crônica: A vela e o fogo

A vela é somente vela quando tem o fogo a tremelicar com o vento. Desenha formas desordenadas nas paredes, dá vida ao breu, entretém as pessoas, e é o motivo de brincadeiras de crianças, quando juntam os dedos das mãos e fazem teatro nas paredes.

Os pratos são servidos romanticamente por elas, quando um casal se junta e comemora, em brinde ao casamento do futuro ou de outrora, lira de muitos anos vividos, amancebados, ou então a aurora de um amor nascendo nos seres aconchegados.

A vela é somente vela quando o corpo é velado, e se despedem do morto, em choros, abraços, saudades, desejando que a longa viagem não termine em trevas. O fogo é outra vida.

A vela é aniversário, é comemorar de anos, passar do tempo, e elas vão se multiplicando a cada ano vivido, desejando todos que elas se repitam.

Ela conduz o viajante pela estrada escura, é protegido o fogo com a mão em borco como se fosse uma lamparina, dessas que se veem nas carruagens. Ela conduz o morador por entre os quartos escuros, e verificado cada ponto, cada barulho estranho, como se andasse em um labirinto.

Ela segue na procissão, repetida de mão em mão, adorando a imagem que segue no andor, carregada nos ombros dos homens. É a virgem iluminada unindo corações. A derramar suas lágrimas quentes que escorregam nas mãos trêmulas dos jovens na primeira comunhão.

O que seria da vela, se não existisse o fogo?
Seria apenas um pedaço de sebo, parafina, esquecida em uma gaveta, com a caixa de fósforos ao seu lado, preparadas para o chamado de emergência ou da comemoração, reunindo os homens ou dando ao solitário a companhia.

Está na mansão ou no casebre, no castelo, nas igrejas, caminhando com o santo e o seu capuz na estrada, ou o homem impuro, preso na tocaia, ela a vela, ele o fogo, companheiros inseparáveis que se transformam em luz.

O Autor

Nilson Lattari

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Crônicas

A espera

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Estava ali, solitário, no meio de outros a esperar a chegada do avião, como companhia um buquê com três rosas vermelhas, repousando na cadeira ao lado, mais um ser à espera de outro.

O seu olhar era ansioso, a aba do boné levantada, como um olhar mais alto, querendo espiar primeiro a chegada. Olhares fixos no corredor do desembarque.

De súbito, uma dúvida lhe assalta, e o homem arrebata o buquê de flores, que se curva com a força da mão, e percebe que ali era o portão errado, e seu rosto impulsiona o restante do corpo em desabalada carreira, enquanto as pernas obedecem ao momento vívido, e o letreiro informando a transferência do portão de desembarque pisca como se comemorasse com ele, o corredor, que de repente enfrenta a sua maratona particular, desviando dos outros corpos que, vagarosamente, arrastando malas pesadas abandonam o aeroporto ou os povoa na preparação da partida.

Ele se petrifica em outro portão, e não mais aguarda plácido, dessa vez está ansioso, a respiração pesada, e sem querer deixa escapar um sorriso de dentes brancos, perfeitamente enfileirados, iluminando a pele negra, a roupa simples, o tênis surrado, causando invejas. Ele espera um amor, longamente trabalhado em uma tela de computador, um amor cheio de mistérios e promessas a serem cumpridas. É como um pintor que se prepara, finalmente, para pincelar a tela em branco, de uma imagem tantas vezes cultivada na imaginação fértil do monitor iluminado.

Foram palavras, conversas, imagens que se conectaram entre a visão da tela e o imaginário se complementando. Era a visão de um corpo que nunca fora tocado, que caminharia pelo corredor que despeja abraços de reencontros, ânsias de descobertas.

E, de repente, ela aparece caminhando e o seu olhar viaja pelo saguão, como alguém perdido tentando encontrar braços abertos como um porto seguro, depois de singrar um mar desconhecido.

A imagem da tela se torna realidade, finalmente os corpos se encontram e surpresos se descobrem mais altos ou mais baixos do que seriam, são poucas as palavras, a descoberta do afinado e do grave das vozes, falam-se ao mesmo tempo, e a única coisa que poderia consolidar tudo, é um longo beijo, e um apertar de corpos e encontro de braços e mãos nervosos, frêmitos de descobertas futuras.

E as rosas ficaram esquecidas nas mãos dos dois.

Nilson Lattari

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