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Crônicas

Encontro na noite

Por Nilson Lattari.

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Ainda me lembro da fumaça enrolando da ponta do cigarro subindo enovelada. Minha mãe reclamava que ela era responsável pelo amarelão do teto. Que nada! A umidade que passava do telhado que não tinha conserto era a responsável, dizia ele. Quando ele morreu, ela olhava para o teto amarelado e ficava pensativa.

Nessa hora, encolhido nesse canto de rua, fico imaginando o pensamento dele enquanto enovelava o cigarro, que como uma pira exalava um perfume enjoativo, e o cigarro queimava na sua mão, essa sim amarelada pelo fumo. E o pensamento dela, perdido a olhar para o céu de gesso, amarelo como um pôr do sol que nunca terminava.

A chuva teimava em continuar enquanto eu me encolhia no canto de rua, vendo o cigarro consumir nas mãos, e apertava com impaciência a cinta rechonchuda, sentindo a coronha da arma, como se verificasse as horas intermináveis que não passavam.

Nunca me imaginei ali parado para um acerto de contas, mas estava, sim, parado, vendo a chuva respingar no cimento e molhar com insistência a barra da calça. A rua estreita, com casas somente, tinha uma pequena elevação rumo à favela, localizada a centenas de metros adiante. A chuva forte afugentara a população e algumas casas iluminadas, com o acender e apagar azulado, denunciavam as televisões ligadas.

O que a minha mãe estaria assistindo agora? Nada. Nunca mais ligara a televisão e ficava entretida com um crochê interminável, medindo uma camisa dele, como se fosse uma encomenda sem urgência.

Certa vez ele quis aprender xadrez. Resolvi ensinar. Ele ficava com ciúme vendo os outros jogando nas praças.

– Para que jogar xadrez na praça?

– As meninas olham – dizia ele.

– E você acha que olham para vocês? Devem pensar no bando de desocupados a ocupar desnecessariamente os bancos, como se tivessem sido feitos só para vocês.

– Brincadeira, continuava ele, me disseram que esse jogo é coisa de gente inteligente. Quero ser também.

Eu ensinei. Ele nunca aprendeu. Teimava jogar como se fosse jogo de damas.

– Cavalo não salta? Então é dama.

– Não, não é dama.

Falávamos de futebol. Ele Vasco, eu Flamengo. Nunca dava certo. Brigávamos. Brigávamos sempre. Hoje estou aqui, por causa dele, à espera…

Quando saía da janela, depois de acender o terceiro cigarro, eram quatro horas da tarde, hora do jogo. Arrumava a mesa, colocava a garrafa térmica de café bem forte e sorvia vagarosamente a caneca, arrumando expressões no rosto em cada lance do jogo. Eu ficava na sala ao lado, lendo um livro, vendo a televisão e torcendo contra ele, silenciosamente. Quando ganhava entrava na sala com um sorriso triunfante, eu me guardava. Quando perdia, vibrava com alguma atitude antidesportiva e incentivava, depois de um gole de café, alguma pancada que seu jogador dava no adversário.

Aquilo me indignava. Como podia vibrar com isso? Naquela hora, ele era um herói maculado. Um Odisseu sem rumo na sua nau vascaína, agarrado no mastro, como se fosse o único goleiro que poderia impedir um gol.

Já passava da meia-noite e a espera não acabava. A chuva parou, mas a barra da calça seguia molhada, e eu sentindo o pingar dela para o chão. Estava imóvel. Um rato saiu do bueiro e olhando para os lados, sua sombra projetava na calçada, contra a direção da luz que vinha de uma lâmpada no poste, que teimava em sinalizar um tempo final de vida. Piscava. A sombra do rato também. Ele, imóvel, a sua sombra aparecendo e desaparecendo dava-lhe sinais de vida. Ameaçou arrancar na minha direção. Senti um frêmito. Encrespei o rosto e atirei o cigarro na direção dele. Foi certeiro. O bicho se assustou com a brasa cintilando na sua frente. Seus olhos pareciam abrir. Seu tamanho cresceu para mim. Ele olhou com os bigodes no ar e numa fração de tempo atirou-se de volta ao bueiro.

Não sorri, não chorei, não senti medo. Apertei a coronha na minha cintura e olhei a barra da calça molhada, teimosa grudando na minha perna.

Odiava aquele cigarro. Me encarregava de buscá-los. Não gostava. Ele insistia. Minha mãe reclamava. Ele insistia. Eu buscava. Fumo agora. Mas ninguém o traz para mim. Fico com ele. Observo a fumaça enovelar diante de mim. Não quero ser a sua cópia. Mas não era justo que ele fosse embora assim. Simplesmente não era justo.

Quando ando pela casa, abro a porta do armário da cozinha e olho lá no fundo a caneca que ele sorvia e torcia contra mim. Não me atrevia a tocá-la. Minha mãe lavou-a e nunca mais a tirou do fundo do armário. Era imune às outras, era imune à limpeza do pano decorado com babados que guarnecia a prateleira de copos. O meu preferido ficava na ponta, bem no lado esquerdo. Ficava imaginando o dia em que ele iria para o fundo do armário. Estava pronto para tudo.

Soltei um suspiro profundo. A rua ficaria mais deserta e o trânsito de pessoas que era pequeno estaria reduzido a nada, e o momento em que ele passaria era próximo. Não sentia nenhum medo, também não tinha coragem. Somente não achava justo ele ter ido embora assim tão de repente. Minha mãe ficara com o olhar perdido no amarelão do teto. Eu me perdera com ela, quando ele foi embora. Não, não era um abandono, ele foi embora por essas coisas do destino. E, por causa disso, eu estava ali parado, depois de tanto tempo investigando, perguntando com cuidado, como se achava, onde morava, por onde caminhava. E a noite escura, com a lâmpada teimosa a emitir sinais gráficos, como o barco no meio do nada a emitir algum sinal de socorro, iluminava a ponta do outro cigarro que eu acendera.

Quando apontava no final da rua, chegando em casa, podia ver no meio da noite a brasa do cigarro acesa. Ele terminara seu trabalho. Quantos sapatos fizera naquele dia? Quantos consertara? Quantas vezes, ele recebia do cliente e repassava para minha mãe. Ela dizia que, pelo menos, poderia comprar uma tinta para cobrir o amarelão do teto, já que ninguém se atrevia a consertar o buraco na telha. Ele dizia que era um desnível do telhado. Coisa que não dava para consertar. Fizeram a casa errado. Fizeram um erro no desnível do telhado. Ela teimava que era telha quebrada, ele dizia que não tinha jeito. Só se mudasse de casa. Ela dizia que era uma boa ideia, mas não iria com ele. Ele dizia que, tudo bem, poderia ir e ela que consertasse o telhado do jeito dela. E quando descobrisse o desnível se lembraria dele. Quando ele foi embora, ela ficou olhando o amarelão do teto.

Nunca descobriu se era desnível ou telha quebrada, mas, com certeza, o amarelão do teto lembrava ele.

A chuva voltou fininha, passava de uma hora da madrugada. Jogando xadrez na praça, os amigos dele diziam onde ficava, onde morava, mas ninguém conseguia explicar o motivo. Não havia motivo, o motivo foi fútil. Fez porque quis, o sujeito era assim. Malicioso, fingia o que não era. Queria aprender xadrez, mas não gostava de perder. Se perdesse matava, fazia e acontecia. Mas era apenas um jogo.

Minha mãe queria saber que jogo era aquele e se ele ia apostar. Ele dizia que não. Ele piscava o olho para mim. Sempre piscava o olho para mim. Buscava uma cumplicidade, uma vontade de contar como era a sua vida, de reclamar da mulher, da mãe, das impertinências. Enquanto acendia outro cigarro e enovelava o ar. O cheiro enjoado, o ar na casa ficava insuportável, até que minha mãe escancarava a janela para o ar entrar e ele ia fumar no parapeito da janela. Um dia eu te largo, e ele dizia o mesmo, e complementava com um “mas, eu falo sério”. E piscava o olho. Até o dia em que foi embora.

Foi embora de repente. E por isso eu estava ali, quando a lâmpada acabou de piscar e exalou seu último halo de luz. O rato não teria mais motivo para não sair, tudo era uma sombra onde podia se esconder.

– Sabe como se pega um rato?

Ele me disse uma vez, depois de insistentemente ficar esperando um rato sair da toca e eu de tocaia com a minha espingarda de chumbinho.

– Você não tem que vigiá-lo, você tem que atrair ele para você, esperar, saber como ele se comporta.

Em seguida, colocou um pedaço de queijo, de comida, para saber a hora exata que o rato saía. O bicho pôs o nariz para fora e rapidamente roubou a comida. Nem deu tempo de apertar o gatilho. Ele riu. Em seguida colocou a comida mais longe, e mais longe, e mais longe, até que o rato foi ganhando confiança e parou para comer antes de entrar no buraco. Ele deu um tapinha nas minhas costas e eu apertei o gatilho. Calmamente. Ele dizia que o rato era meu, era só matar. E eu matei o rato. Um frenesi subiu pelas minhas costas e eu podia sentir um certo brilho no olhar do velho.

Investiguei muito tempo, me expus, subi morro, disfarcei de mendigo, fingi ser policial, amedrontei, tremi e finalmente encontrei. Fugidio como a fumaça do cigarro que se enovelava no ar. Começando espessa, em seguida ficando límpida, fugaz, se espalhando e se escondendo no ar.

Desapareceu como fumaça, diziam os jogadores de xadrez. Ficou aqui três dias, desafiando.

– Posso aprender em três dias, me ensina só alguns truques.

Decorou cada um deles, poderia pegar um incauto, um bobo, coisa só para tirar um sarro, mostrar que era bom. Era bom no sapato, no sapateado, poderia ser bom naquilo, poderia ser bom no que tivesse vontade de ser. Eu ensinei, peguei alguns livros, mostrei, decorou. Ele achava os nomes engraçados: saída dos quatro cavalos; defesa índia do oeste. Minha mãe perguntava se era para apostar a dinheiro. Ele dizia que não, mas se ganhasse uma graninha, poderia comemorar assistindo ao jogo do Vasco no Maracanã.

Piscava o olho. Zombava. Dizia que tinha sorte.

Eu dera sorte. Achei a amante, a bruaca que encobria, que lhe dava dinheiro. Um muquifo, onde morava, no meio de uma favela. Fingi ser alguém à procura de um aluguel barato. Não sentia nenhum temor em ser reconhecido. Nem me importava. Estava para o que desse e viesse. Apertei a coronha do 38 na cintura. Não me sentia seguro, apenas tinha uma vontade. Uma vontade de fazer aquilo desde o dia em que ele foi embora e deixou minha mãe olhando o amarelão do teto, à procura de um sol que nunca terminava o dia.

Eu o vi chegar, era um pouco diferente, mas o jeito de andar era igual. Um pouco mais velho que imaginava. Levantava da mesa de xadrez jogando a perna esquerda bem longe, fingindo ser capoeirista, diziam. Mas era, não era, o que importava.

Vasculhei seus caminhos, decorei seus horários, não fizera mais nada depois que ele foi embora, levando seu cigarro de fumaça enovelada e deixando o amarelão no teto para minha mãe lembrar dele.

Já se passaram dois meses depois dele. Fiquei postado muitas vezes naquele lugar, a subida da ladeira onde estava o muquifo que ele morava com a amante. Não tinha cigarro nas mãos, nunca vira, e, com certeza, não tinha um amarelão no teto para a amante lembrar dele.

Depois de minha mãe insistir bastante, o velho resolveu subir no telhado. Ficou lá, não descia. Eu fui bem devagar e fiquei observando ele, enovelando o cigarro contra o céu azul, olhava para diante, como quem singra com a nau por mares nunca dantes navegados. Era ele contra o azul do céu. O buraco na telha? Não iria consertá-lo, eu já sabia. Em que ele estava pensando? Em um lugar bem longe. O amarelão continuou. Ele disse que era desnível do telhado, não tinha conserto. Lá em cima ele olhava o horizonte com os olhos semicerrados da quentura da fumaça do cigarro.

Quando meus olhos ameaçaram fechar no sono e na espera, ele apontou no início da rua, sua sombra se projetava depois dele, de encontro com a luz dos outros postes, contra a cumplicidade do meu. Ela, a sombra, se movimentava para trás e para frente, à medida que avançava na direção de cada poste de luz. O meu, aquele que ficava bem atrás, a lâmpada soltou o último halo, e a escuridão, o bueiro, o rato que se encolhera, estavam silenciosos. Podia ouvir o barulho dos pés e uma cantoria baixinha que sua boca exalava. Jogava o corpo para os lados como se ameaçasse um bailado, uma luta imaginária.

Resolveram apostar, eles disseram. Os dois se postaram de frente. A plateia se aproximou. Os mais experientes se preparavam para ridicularizar, se cutucando a cada jogada mal feita. Mas os dois estavam levando o jogo a sério. Meu velho tinha decorado muito bem, cada uma das jogadas. Arrancava alguns gestos de aprovação e ele sorvia um trago do cigarro, satisfeito, jogando a fumaça para o ar, com força.

O outro se irritara, quis desfazer o jogo. Não dava. Como não dava? Eu faço o que eu quero, e jogando a perna esquerda para o lado num gesto de capoeira, sacou a arma e descarregou três tiros no meu velho.

Quando olhava para o caixão lembrava da fumaça enovelada que ele levou embora e o amarelão que ele deixara no teto para minha mãe lembrar dele.

Sai silenciosamente da ruela escura, e o outro com um olhar de surpresa, encoberto pela escuridão, tombou com três tiros no peito, meio de lado, com a perna esquerda jogada, na tentativa de uma última jogada de capoeira.

 

Primeiro lugar XXIX Concurso de Contos Paulo Leminski 2018

Nilson Lattari

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Crônicas

A chuva

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Existe algo mais democrático do que a chuva? Ou tão democrático quanto ela? Ela pode chegar de mansinho e derramar suas lágrimas igualmente. Ela pode chegar torrencialmente e afogar a todos, quer sejam ricos ou pobres, ela arrasta desde a mansão mais nobre ou o barraco mais pobre.

Quando alaga não interessa a ela se as coisas que destrói sejam decorações de palácios ou casas médias ou pobres.

A água se imiscui pelas reentrâncias e nenhum poder a impede. Ela não se deixa conduzir quando a sua índole, o seu fazer natural lhe domina, e a natureza vingativa retoma aquilo que lhe foi roubado, ou é festejada quando chega ao solo seco e despeja dos telhados uma alegria que é festejada pelas ruas, com as pessoas a se banharem.

A chuva se anuncia, algumas vezes é saudada ou bem-vinda, e, às vezes, é temida, é mal vinda, e não importa a origem dos olhares que a enxergam.

Ela se anuncia num repente como a chuva de verão que nos surpreende. Ou é antevista pelos relâmpagos e trovões a iluminarem o céu.

A chuva transborda os rios, alaga as ruas, enche os reservatórios, as represas, e se transforma em riqueza que traz a água que nos mata a sede ou a intempérie furiosa que arrasta na noite, sejam ricos, pobres, brancos ou negros, todos à procura de proteção.

Para os desertos é coisa rara, para as florestas abundância, pune com suas regras aqueles que desmatam, e abençoa aqueles que peregrinam nas areias, e valorizam a água como tesouro descoberto.

O aprendizado da chuva é enorme, nas plantas que agradecem, no solo seco que rejuvenesce, no viajante que enfrenta a mudança, porque depois da tempestade vem a bonança.Quanta coisa nos traz a chuva, e, no entanto, são somente as nuvens a espremer o que lhes trouxe o sol. Quanta coisa nos traz a chuva e, no entanto, é apenas água que cai do céu.

Nilson Lattari

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Crônicas

A história de um ateu

Por Nilson Lattari.

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A história de um ateu

Era um ateu, assim considerado porque não via nenhuma espécie de conserto em alguma coisa. Coisas como fraternidade universal, bem estar da comunidade ou mesmo amor ao próximo. Dizia essas coisas aos quatro ventos. Muitas vezes saía dali e vinha pela madrugada levando cobertores para os moradores de rua, que ficavam à mercê do frio. Ele distribuía os cobertores ou mesmo fazia serviços colaborando com uma sopa, enquanto praguejava dentro de si mesmo, se afastando até mesmo quando algum grupo se juntava para rezar. Ele se afastava, e saía pelas ruas se compadecendo de algum cão que perambulava pelas ruas, ficando na eterna dúvida se deveria levar somente mais aquele para sua casa, e vê-lo se reunir a outros que o aguardavam cheios de mimos, latidos e agrados.

Festejava, quando lhe diziam, que o seu comportamento de ofender a Deus o levaria ao Inferno, e ele respondia que ainda bem que não se misturaria com quem não concordava. E não via nenhum problema em blasfemar, até porque não blasfemava, porque até mesmo se fizesse isso aceitaria a existência de Deus. Logo não perderia tempo com isto.

As lágrimas corriam de seus olhos, silenciosamente, quando via negros e pobres, crianças serem afugentadas por seguranças e policiais dos locais mais nobres, e quando se sentiu mal, resolveu morar perto deles, para que de alguma maneira pudesse ajudá-los. E não aceitava um agradecimento em nome Dele. Achava absurdo, porque ele o fazia porque queria, movido por alguma coisa que desconhecia.
Retribuía dizendo que se Deus existisse não teria permitido as injustiças no mundo. E que as ações de cada um é que poderiam mudar o mundo, e fazia todas elas dando o exemplo de como seria possível.

Se dizia infeliz consigo mesmo, quando olhava no espelho, apesar de, escondido, um sorriso chegar à sua boca, vendo que uma ação que fizera antes com alguém, com algum animal havia surtido algum efeito benéfico. Era o seu momento de alegria, se sentia o melhor dos homens, mesmo que quando olhasse para os lados não houvesse ninguém para festejá-lo. Para os outros era apenas um ateu incorrigível, mas, para ele, e somente para ele, era o melhor de si que poderia fazer. E enquanto as lamentações de outros era não ter conseguido algum bem material, para ele a lamentação era não ser possível fazer mais.

Outras vezes conseguia algum benefício para alguém, e atribuía à sorte ou ao destino, afinal de algum jeito a vida tenderia a mudar. Era alguma coisa inexplicável, como se viesse do nada. A sua explicação era de que o mundo era como é, sem nada a acrescentar e nada que se pudesse fazer para alterá-lo. Simplesmente, ninguém poderia fazer a diferença.

Ninguém acreditava nas suas boas ações, diziam que quem não acreditava em Deus, com certeza, nenhuma boa intenção poderia existir.

E ele seguia seguindo seus próprios passos e o que o seu coração mandava, ações, para ele, era o que importava, e em Deus, simplesmente, não acreditava. Mesmo que Deus continuasse a procurá-lo, porque acreditava nele.

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Crônicas

De volta para o aconchego

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Do G1

Aconchego é chegar a algum lugar, seja na porta de casa, na presença da pessoa apaixonada, no coração querido. Aconchego é a reza escondida que conforta a alma, declamada baixinho no silêncio do quarto, são as palavras que jogamos no alto, na esperança de Alguém que desejamos que exista, que as receba em Seu colo e nos atenda, porque nos aconchegamos a Ele sempre nos momentos mais precisados e também naqueles preciosos quando conquistamos o nosso desejo guardado.

Aconchego está no aceno de longe, quando somos reconhecidos entre muitos, na multidão, quando aquele sorriso se expande à vista da nossa simples presença, descendo de um ônibus, de um avião, vindo de algum lugar distante. Está no correr para os abraços, nos risos, nos deboches engraçados que fazemos com aqueles que amamos.

É bom quando voltamos para o aconchego, porque é como se aquele lugar nunca nos abandonasse, seja uma paisagem, que guardamos desde criança, um simples cheiro de flor, em um jardim onde encontramos nosso amor de outros tempos, está na lembrança de um beijo, porque é no conforto de nossas coisas boas, acontecidas, que nos revigoramos de tempestades nos tempos presentes.

Todos nós temos nosso aconchego. É quando a noite desce, e nos enrolamos em nossos travesseiros, e imaginamos fantasias sobre o que poderíamos ter feito, é quando choramos sem motivo algum, porque esses momentos não são de fraquezas, é quando choramos por injustiças, e nosso aconchego não está em nada poder fazer, mas, o simples fato de querermos que o mundo seja melhor é a melhor maneira de demonstrar o quanto de bom temos dentro de nós.

São nesses momentos em que demonstramos para nós mesmos, que o mundo não deveria ser assim, que comparamos as vidas daqueles que sofrem às nossas vivências, com vidas vividas em um tempo anterior, imaginado, sem saber.

É quando nos aconchegamos perto Dele.
Porque se imaginamos que o mundo não pode ser assim como é, se existem injustiças, ódios e falta de amores, quando vivemos em um mundo impossível, de disputas desnecessárias, de ganâncias extremadas, pela razão de que as coisas são assim, geridas em nosso íntimo, quando entendemos que as coisas não podem ocorrer dessa maneira, e nos sentimos incomodados com isso, é que nossa alma, nossas lembranças mais guardadas nos lembram do aconchego de que já habitamos um outro lugar, mais justo, onde a irmandade realmente existe.

Porque o entendimento de que o mundo é injusto vem do fato de já termos vivido a justiça plena em algum lugar. A comparação é a consequência de que estaremos de volta para o nosso aconchego algum dia, e a certeza de que Ele existe, com certeza.

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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