Fique conectado

Crônicas

Encontro na noite

Por Nilson Lattari.

Publicado em

115

Ainda me lembro da fumaça enrolando da ponta do cigarro subindo enovelada. Minha mãe reclamava que ela era responsável pelo amarelão do teto. Que nada! A umidade que passava do telhado que não tinha conserto era a responsável, dizia ele. Quando ele morreu, ela olhava para o teto amarelado e ficava pensativa.

Nessa hora, encolhido nesse canto de rua, fico imaginando o pensamento dele enquanto enovelava o cigarro, que como uma pira exalava um perfume enjoativo, e o cigarro queimava na sua mão, essa sim amarelada pelo fumo. E o pensamento dela, perdido a olhar para o céu de gesso, amarelo como um pôr do sol que nunca terminava.

A chuva teimava em continuar enquanto eu me encolhia no canto de rua, vendo o cigarro consumir nas mãos, e apertava com impaciência a cinta rechonchuda, sentindo a coronha da arma, como se verificasse as horas intermináveis que não passavam.

Nunca me imaginei ali parado para um acerto de contas, mas estava, sim, parado, vendo a chuva respingar no cimento e molhar com insistência a barra da calça. A rua estreita, com casas somente, tinha uma pequena elevação rumo à favela, localizada a centenas de metros adiante. A chuva forte afugentara a população e algumas casas iluminadas, com o acender e apagar azulado, denunciavam as televisões ligadas.

O que a minha mãe estaria assistindo agora? Nada. Nunca mais ligara a televisão e ficava entretida com um crochê interminável, medindo uma camisa dele, como se fosse uma encomenda sem urgência.

Certa vez ele quis aprender xadrez. Resolvi ensinar. Ele ficava com ciúme vendo os outros jogando nas praças.

– Para que jogar xadrez na praça?

– As meninas olham – dizia ele.

– E você acha que olham para vocês? Devem pensar no bando de desocupados a ocupar desnecessariamente os bancos, como se tivessem sido feitos só para vocês.

– Brincadeira, continuava ele, me disseram que esse jogo é coisa de gente inteligente. Quero ser também.

Eu ensinei. Ele nunca aprendeu. Teimava jogar como se fosse jogo de damas.

– Cavalo não salta? Então é dama.

– Não, não é dama.

Falávamos de futebol. Ele Vasco, eu Flamengo. Nunca dava certo. Brigávamos. Brigávamos sempre. Hoje estou aqui, por causa dele, à espera…

Quando saía da janela, depois de acender o terceiro cigarro, eram quatro horas da tarde, hora do jogo. Arrumava a mesa, colocava a garrafa térmica de café bem forte e sorvia vagarosamente a caneca, arrumando expressões no rosto em cada lance do jogo. Eu ficava na sala ao lado, lendo um livro, vendo a televisão e torcendo contra ele, silenciosamente. Quando ganhava entrava na sala com um sorriso triunfante, eu me guardava. Quando perdia, vibrava com alguma atitude antidesportiva e incentivava, depois de um gole de café, alguma pancada que seu jogador dava no adversário.

Aquilo me indignava. Como podia vibrar com isso? Naquela hora, ele era um herói maculado. Um Odisseu sem rumo na sua nau vascaína, agarrado no mastro, como se fosse o único goleiro que poderia impedir um gol.

Já passava da meia-noite e a espera não acabava. A chuva parou, mas a barra da calça seguia molhada, e eu sentindo o pingar dela para o chão. Estava imóvel. Um rato saiu do bueiro e olhando para os lados, sua sombra projetava na calçada, contra a direção da luz que vinha de uma lâmpada no poste, que teimava em sinalizar um tempo final de vida. Piscava. A sombra do rato também. Ele, imóvel, a sua sombra aparecendo e desaparecendo dava-lhe sinais de vida. Ameaçou arrancar na minha direção. Senti um frêmito. Encrespei o rosto e atirei o cigarro na direção dele. Foi certeiro. O bicho se assustou com a brasa cintilando na sua frente. Seus olhos pareciam abrir. Seu tamanho cresceu para mim. Ele olhou com os bigodes no ar e numa fração de tempo atirou-se de volta ao bueiro.

Não sorri, não chorei, não senti medo. Apertei a coronha na minha cintura e olhei a barra da calça molhada, teimosa grudando na minha perna.

Odiava aquele cigarro. Me encarregava de buscá-los. Não gostava. Ele insistia. Minha mãe reclamava. Ele insistia. Eu buscava. Fumo agora. Mas ninguém o traz para mim. Fico com ele. Observo a fumaça enovelar diante de mim. Não quero ser a sua cópia. Mas não era justo que ele fosse embora assim. Simplesmente não era justo.

Quando ando pela casa, abro a porta do armário da cozinha e olho lá no fundo a caneca que ele sorvia e torcia contra mim. Não me atrevia a tocá-la. Minha mãe lavou-a e nunca mais a tirou do fundo do armário. Era imune às outras, era imune à limpeza do pano decorado com babados que guarnecia a prateleira de copos. O meu preferido ficava na ponta, bem no lado esquerdo. Ficava imaginando o dia em que ele iria para o fundo do armário. Estava pronto para tudo.

Soltei um suspiro profundo. A rua ficaria mais deserta e o trânsito de pessoas que era pequeno estaria reduzido a nada, e o momento em que ele passaria era próximo. Não sentia nenhum medo, também não tinha coragem. Somente não achava justo ele ter ido embora assim tão de repente. Minha mãe ficara com o olhar perdido no amarelão do teto. Eu me perdera com ela, quando ele foi embora. Não, não era um abandono, ele foi embora por essas coisas do destino. E, por causa disso, eu estava ali parado, depois de tanto tempo investigando, perguntando com cuidado, como se achava, onde morava, por onde caminhava. E a noite escura, com a lâmpada teimosa a emitir sinais gráficos, como o barco no meio do nada a emitir algum sinal de socorro, iluminava a ponta do outro cigarro que eu acendera.

Quando apontava no final da rua, chegando em casa, podia ver no meio da noite a brasa do cigarro acesa. Ele terminara seu trabalho. Quantos sapatos fizera naquele dia? Quantos consertara? Quantas vezes, ele recebia do cliente e repassava para minha mãe. Ela dizia que, pelo menos, poderia comprar uma tinta para cobrir o amarelão do teto, já que ninguém se atrevia a consertar o buraco na telha. Ele dizia que era um desnível do telhado. Coisa que não dava para consertar. Fizeram a casa errado. Fizeram um erro no desnível do telhado. Ela teimava que era telha quebrada, ele dizia que não tinha jeito. Só se mudasse de casa. Ela dizia que era uma boa ideia, mas não iria com ele. Ele dizia que, tudo bem, poderia ir e ela que consertasse o telhado do jeito dela. E quando descobrisse o desnível se lembraria dele. Quando ele foi embora, ela ficou olhando o amarelão do teto.

Nunca descobriu se era desnível ou telha quebrada, mas, com certeza, o amarelão do teto lembrava ele.

A chuva voltou fininha, passava de uma hora da madrugada. Jogando xadrez na praça, os amigos dele diziam onde ficava, onde morava, mas ninguém conseguia explicar o motivo. Não havia motivo, o motivo foi fútil. Fez porque quis, o sujeito era assim. Malicioso, fingia o que não era. Queria aprender xadrez, mas não gostava de perder. Se perdesse matava, fazia e acontecia. Mas era apenas um jogo.

Minha mãe queria saber que jogo era aquele e se ele ia apostar. Ele dizia que não. Ele piscava o olho para mim. Sempre piscava o olho para mim. Buscava uma cumplicidade, uma vontade de contar como era a sua vida, de reclamar da mulher, da mãe, das impertinências. Enquanto acendia outro cigarro e enovelava o ar. O cheiro enjoado, o ar na casa ficava insuportável, até que minha mãe escancarava a janela para o ar entrar e ele ia fumar no parapeito da janela. Um dia eu te largo, e ele dizia o mesmo, e complementava com um “mas, eu falo sério”. E piscava o olho. Até o dia em que foi embora.

Foi embora de repente. E por isso eu estava ali, quando a lâmpada acabou de piscar e exalou seu último halo de luz. O rato não teria mais motivo para não sair, tudo era uma sombra onde podia se esconder.

– Sabe como se pega um rato?

Ele me disse uma vez, depois de insistentemente ficar esperando um rato sair da toca e eu de tocaia com a minha espingarda de chumbinho.

– Você não tem que vigiá-lo, você tem que atrair ele para você, esperar, saber como ele se comporta.

Em seguida, colocou um pedaço de queijo, de comida, para saber a hora exata que o rato saía. O bicho pôs o nariz para fora e rapidamente roubou a comida. Nem deu tempo de apertar o gatilho. Ele riu. Em seguida colocou a comida mais longe, e mais longe, e mais longe, até que o rato foi ganhando confiança e parou para comer antes de entrar no buraco. Ele deu um tapinha nas minhas costas e eu apertei o gatilho. Calmamente. Ele dizia que o rato era meu, era só matar. E eu matei o rato. Um frenesi subiu pelas minhas costas e eu podia sentir um certo brilho no olhar do velho.

Investiguei muito tempo, me expus, subi morro, disfarcei de mendigo, fingi ser policial, amedrontei, tremi e finalmente encontrei. Fugidio como a fumaça do cigarro que se enovelava no ar. Começando espessa, em seguida ficando límpida, fugaz, se espalhando e se escondendo no ar.

Desapareceu como fumaça, diziam os jogadores de xadrez. Ficou aqui três dias, desafiando.

– Posso aprender em três dias, me ensina só alguns truques.

Decorou cada um deles, poderia pegar um incauto, um bobo, coisa só para tirar um sarro, mostrar que era bom. Era bom no sapato, no sapateado, poderia ser bom naquilo, poderia ser bom no que tivesse vontade de ser. Eu ensinei, peguei alguns livros, mostrei, decorou. Ele achava os nomes engraçados: saída dos quatro cavalos; defesa índia do oeste. Minha mãe perguntava se era para apostar a dinheiro. Ele dizia que não, mas se ganhasse uma graninha, poderia comemorar assistindo ao jogo do Vasco no Maracanã.

Piscava o olho. Zombava. Dizia que tinha sorte.

Eu dera sorte. Achei a amante, a bruaca que encobria, que lhe dava dinheiro. Um muquifo, onde morava, no meio de uma favela. Fingi ser alguém à procura de um aluguel barato. Não sentia nenhum temor em ser reconhecido. Nem me importava. Estava para o que desse e viesse. Apertei a coronha do 38 na cintura. Não me sentia seguro, apenas tinha uma vontade. Uma vontade de fazer aquilo desde o dia em que ele foi embora e deixou minha mãe olhando o amarelão do teto, à procura de um sol que nunca terminava o dia.

Eu o vi chegar, era um pouco diferente, mas o jeito de andar era igual. Um pouco mais velho que imaginava. Levantava da mesa de xadrez jogando a perna esquerda bem longe, fingindo ser capoeirista, diziam. Mas era, não era, o que importava.

Vasculhei seus caminhos, decorei seus horários, não fizera mais nada depois que ele foi embora, levando seu cigarro de fumaça enovelada e deixando o amarelão no teto para minha mãe lembrar dele.

Já se passaram dois meses depois dele. Fiquei postado muitas vezes naquele lugar, a subida da ladeira onde estava o muquifo que ele morava com a amante. Não tinha cigarro nas mãos, nunca vira, e, com certeza, não tinha um amarelão no teto para a amante lembrar dele.

Depois de minha mãe insistir bastante, o velho resolveu subir no telhado. Ficou lá, não descia. Eu fui bem devagar e fiquei observando ele, enovelando o cigarro contra o céu azul, olhava para diante, como quem singra com a nau por mares nunca dantes navegados. Era ele contra o azul do céu. O buraco na telha? Não iria consertá-lo, eu já sabia. Em que ele estava pensando? Em um lugar bem longe. O amarelão continuou. Ele disse que era desnível do telhado, não tinha conserto. Lá em cima ele olhava o horizonte com os olhos semicerrados da quentura da fumaça do cigarro.

Quando meus olhos ameaçaram fechar no sono e na espera, ele apontou no início da rua, sua sombra se projetava depois dele, de encontro com a luz dos outros postes, contra a cumplicidade do meu. Ela, a sombra, se movimentava para trás e para frente, à medida que avançava na direção de cada poste de luz. O meu, aquele que ficava bem atrás, a lâmpada soltou o último halo, e a escuridão, o bueiro, o rato que se encolhera, estavam silenciosos. Podia ouvir o barulho dos pés e uma cantoria baixinha que sua boca exalava. Jogava o corpo para os lados como se ameaçasse um bailado, uma luta imaginária.

Resolveram apostar, eles disseram. Os dois se postaram de frente. A plateia se aproximou. Os mais experientes se preparavam para ridicularizar, se cutucando a cada jogada mal feita. Mas os dois estavam levando o jogo a sério. Meu velho tinha decorado muito bem, cada uma das jogadas. Arrancava alguns gestos de aprovação e ele sorvia um trago do cigarro, satisfeito, jogando a fumaça para o ar, com força.

O outro se irritara, quis desfazer o jogo. Não dava. Como não dava? Eu faço o que eu quero, e jogando a perna esquerda para o lado num gesto de capoeira, sacou a arma e descarregou três tiros no meu velho.

Quando olhava para o caixão lembrava da fumaça enovelada que ele levou embora e o amarelão que ele deixara no teto para minha mãe lembrar dele.

Sai silenciosamente da ruela escura, e o outro com um olhar de surpresa, encoberto pela escuridão, tombou com três tiros no peito, meio de lado, com a perna esquerda jogada, na tentativa de uma última jogada de capoeira.

 

Primeiro lugar XXIX Concurso de Contos Paulo Leminski 2018

Nilson Lattari

Publicidade

Crônicas

Nomes, para que servem

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Nilson Lattari

Muitos se preocupam com os significados dos seus nomes, talvez na vã tentativa de comprovar com a escolha do Destino uma futura missão, podendo estar em uma representação do mártir cristão, ou da figura pagã que reinou em outros tempos, do adjetivo que remeteria ao seu real eu, internado na alma, que poderia lhe dar importância sem o menor esforço.

Dar nome aos bois, falar em nome de alguém, de importância ou significado, ou a perguntar o nome disso ou daquilo; o que existe, de realidade, entre o nome que têm as coisas e os seus significados?

Nossos pais, aqueles os responsáveis pela escolha dos nossos nomes, não são inquiridos, até porque as respostas seriam as mais prosaicas; desde a homenagem a uma figura histórica, ao simples gosto pessoal, de um parente próximo e relevante, na escolha do artista da moda, ou uma simples onda que se apossa da multidão, e o sorteado da vez vai carregar pelo resto da vida o nome dado.

Nomes são, também, referências, pontos de partida para orientações, para um uniforme meio de comunicação para sabermos sobre o que falamos, onde estamos.

Depois, alguns nomes se tornam nomes de ruas, lugarejos, bairros, cidades. É com nomes que lembramos da nossa História, e é com nomes, alguns pejorativos, depreciativos que descartamos as coisas que não desejamos.

Mas não só de |Homens vivem os nomes. Vivem também daqueles que se referem a defeitos que existam nos corpos dos Homens, desde o careca, ao exageradamente gordo ou magro e, combinados, viram formas de homenagear duplas, grupos, etc., ou então são marcações que fazemos sobre os outros, taxando de conservadores, comunistas, direitistas e esquerdistas, e, mais recentemente, com os apelidos: coxinhas, mortadelas, trouxinhas até mesmo os maria-vai-com-as-outras, com o devido perdão com as Marias, quer aquelas que vão ou ignorem as outras.

Enfim, nomes são relevantes para sabermos com quem falamos, para nos lembrarmos de quem, e a relevância é dada por aquilo que fazemos, deixamos em nossa História, que pode ser a referência dizendo que aquele sujeito não é um fulano e tal, que fez tanta coisa boa, ou não pode ser igualado, ao mesmo tempo, com o sujeito que nunca poderá ser taxado de um beltrano que fez outro tanto não na mesma proporção de probidade e honradez.

Mais do que saber o significado do nome, devemos dar a ele um significado e uma história de que ele, e também nós devamos nos orgulhar, a ponto de ser lembrado como homenagem. Afinal, para que servem os nomes? Para serem preenchidos com uma bela história.

Continue lendo

Crônicas

Escolha seu eu para colorir

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Escolha seu eu para colorir

Colorir flores em um livro recheado de vazios onde colocamos as cores que nos vêm à cabeça. Dizem que serve como alívio para o stress, a distração em espalhar gotas coloridas, criando jardins na imaginação.

A vida também é um espaço vazio onde preenchemos com momentos coloridos, jardins onde os olhos e os sorrisos nos fazem ver passarinhos verdes. O amor, por exemplo, preenche nossos corações, nossos pensamentos com momentos coloridos (e como é bom esse colorido!). Ás vezes nem é bem amor, mas uma espécie de contrato, mas, mesmo assim, chamamos de amizade colorida.

Algumas pessoas veem a vida em preto e branco. O olhar é sombrio, o sorriso forçado. Sentimentos que perambulam na escuridão, na espreita, invejas, ambição desmedida, propensões às traições, na busca de um colorido que não habita o outro lado da janela do poeta, que como um arlequim de chapéu colorido salta no imaginário em busca de um arco-íris de colorido infinito.

Na busca da autoafirmação do gênero, novos gêneros se abrigam em cores alegres e divertidas.

Pessoas em preto e branco não se permitem colorir. Afastam os momentos coloridos com desdém, desprezo, criticam o colorido que algumas almas, não, quer dizer, muitas almas, com certeza, que já trazem dentro de si um colorido diferente. Expressos nos sorrisos, nos olhares úmidos e brilhantes, esbanjando cores para o mundo, de quanto e como estão coloridos por dentro.

Como ideia para afastar o stress, o desânimo, a desesperança, que tal colorir nossa vida por dentro? Um vermelho bem vivo a bombear do coração para o mundo, uma mente desvanecida, azulada, de anil, a fazer fluir pensamentos positivos, o amarelo desprezado, mas que habita na luz solar, saindo das mãos a espalhar a luz pelos caminhos, o branco, por que não, na suavidade das palavras distribuindo a paz, o verde da calma do respirar tranquilo e tranquilizador, e o preto, também por que não, a servir de pano de fundo, o que dá o realce, e até o brilho.

Mas o falso também pode trabalhar o colorido. Mas, é o verniz da desenvoltura que o desmascara. No verdadeiro, a cor brilha e passa realidade. Como encher nosso livro interior com os momentos coloridos?

Amando, mesmo que não seja amado, porque o amor de si mesmo é que prepara a página de amar. Não existem amantes que não sejam coloridos, e colorem e se deixam colorir e são livros abertos, páginas e páginas que vagueiam, se autopreenchendo dando de si para o outro, na troca de lápis de cor, como crianças em mesa de jardim de infância.

Falta colorir o mundo, não tão somente os livros, que guardamos nas gavetas. Falta o colorido no abrigo das discussões políticas, encardidas nas ideias aferradas, tanto de um lado como de outros, a espalhar a cor única da divisão da riqueza dos homens, da matéria ou da alma que abraça.

É preciso colorir e se deixar colorir pelo mundo. Deixar-se abrir como um livro que revela seus segredos em preto e branco, à espera de que a luz da compreensão venha com seus momentos policrômicos.

Portanto, entregue-se às tintas da imaginação e comece a se colorir por dentro, porque mais do que nunca as cores que outros trazem nos revelam as melhores combinações. Grafites que revelam o que nós somos.

Transforme-se em um livro para colorir, e se encha de cores por dentro.

O autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

Continue lendo

Crônicas

Minha Rua

Por Nilson Lattari

Publicado em

Minha rua é como um rio que vai carregando memórias, eternamente. Quando chego à janela e debruço o olhar sobre as pedras, relembro que ela mudou ao longo do tempo. Foram as casas que se tornaram prédios, foram vizinhos que encheram carros com as mudanças de vida, e novos vizinhos que foram chegando, buscando as informações que os outros levaram, e quem sabe as recontar.

Minha rua é um rio que às vezes desce caudaloso, com as notícias terríveis correndo, contando horrores de crimes, de brigas, de desencontros de amores, e contendas entre antes amigos, durante inimigos e novamente amigos antigos que se retornaram.

Minha rua de tanto mudar ficou muda, e de tantas coisas que aconteceram nela tornaram as janelas meras fontes de informações de gente antiga, e numa confusão de coisas, a memória ficou pra trás.

Minha rua às vezes tem notícias boas, como o conserto do buraco, da água que corria infinita, das luzes que se acenderam novas, trazendo modernidades, dos amigos, já velhos, já avós e avôs, a passearem com seus netos, contando, quem sabe, novidades que trazem de um tempo anterior, apontando com os dedos os lugares onde correram, e os lugares onde tiveram o primeiro amor.

Minha rua é um rio onde o ribeirinho somos nós, os vizinhos de longa data, que se conhecem e se cumprimentam e relembram o tempo onde, crianças, se divertiam nela.

Minha rua é populosa, outrora tão vazia, que as festas que ocorriam eram mais que reuniões de patotas. Minha rua era um ponto de reunião, como o ouro de aluvião que subitamente um grupo encontra.

Minha rua é transgressora, às vezes, perigosa, como o rio que transborda e arrasta as gentes, seus móveis, suas angústias e seus amores.

Minha rua tinha namorados e namoradas, tinha cantiga de roda, hoje é um passar de carros, motos, que as brincadeiras de bikes, antigamente, bicicletas, já não encontram espaço no meio do asfalto novo, tão gostoso de passear, ao contrário dos paralelepípedos que pareciam cantar.

Minha rua tem memória, dessas que até as pedras escondidas no asfalto sabem. Por isso, a memória, que fica escondida no engarrafamento, parece o gigante que dorme à espera de um despertar, aguardando que alguém, finalmente, faça um buraco na rua e ela volte a acordar.

Minha rua tem memória, enquanto vivemos aqui. Um dia, quem sabe, alguém venha a perguntar: Que faz aquela chaminé ali, como um monumento a ninguém? Alguém talvez se lembre que era a casa de um homem que gostava de escrever e, por último alento, colocou na lareira ardente os últimos parágrafos da rua, e levou para sempre as memórias do lugar.·.

Nilson Lattari

Continue lendo

Mais lidas