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Crônicas

Monstro e companhia

Por Nilson Lattari.

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271

Certa vez, João, um agricultor que morava em Praépolis, uma cidadezinha muito esquecida pelo tempo, arrumou um grande amigo chamado Carlos. Carlos também era agricultor, mas, muito mais novo do que João. Resolveram trabalhar uma roça juntos e voltavam sempre tarde da noite.

Ao voltarem para casa precisavam atravessar um campo muito grande onde uma plantação de milho acabara de ser semeada. Carlos sempre dizia que o dia em que as plantas começassem a crescer, com certeza, atrairia muitos animais para ali, e precisavam ter cuidado.

João, pelo contrário, dizia que os animais que iriam para ali não seriam animais perigosos, talvez algumas aranhas, algum gambá, coisas assim, pequenos animais e não fariam mal a eles. Ele não se impressionava com isto.

Com o tempo, enquanto atravessavam o campo até a cidadezinha onde moravam, o mato foi crescendo e o milharal foi alcançando altura que dava até para encobrir a lua que costumava iluminar o caminho deles. Quando a lua não aparecia no céu, a escuridão era muito grande e eles se guiavam pelas estrelas, ou então pela estradinha de terra que contornava, uma estrada barrenta, o milharal até a cidadezinha.

Também foram percebendo que a tal estradinha de terra não era uma reta perfeita, na verdade, fazia uma curva, e com o milharal crescendo a tal reta se transformava em uma escuridão muito grande, encobrindo, inclusive, as luzes da cidadezinha.

Com o milharal alcançando uma altura considerável, a escuridão era muito grande, e João, muito zombeteiro, começou a contar histórias de monstros só para assustar Carlos. Carlos ouvia tudo aquilo e não se importava, algumas vezes até demonstrava admiração e fazia perguntas, apenas para que o amigo começasse a rir, e no fundo ele sabia que João ria de nervosismo. Ao que Carlos dizia que somente em dias de vento era que a coisa podia mudar.

João perguntou, então, por que dia de vento. Carlos respondeu que o vento traz muita coisa pelos ares, inclusive monstros, e começou a rir.

A estação foi mudando e com ela os ventos foram chegando. O milharal balançava muito, fazendo, até algumas vezes, um barulhinho como se alguém quisesse conversar.

Um dia em que saíram para o trabalho chovia e ventava muito forte, com o vento trazendo objetos pelo ar, fazendo com que o milharal dançasse ao sabor da ventania.

À noite, o vento ainda continuava, e quando atravessaram o milharal, João se assustou quando achou que um ponto muito escuro do mato parecia ser de um grande animal.

Carlos não se importou, mas João muito assustado ameaçou sair correndo, no que foi seguro pelo amigo, querendo saber o que acontecia.

Quando João parou de gaguejar e disse para o amigo o que sentia, Carlos começou a rir e disse que não fazia sentido tudo aquilo, e que possivelmente João estava assustado à toa.

Enquanto Carlos, calmamente, andava ao lado de João, esse olhava para trás e dizia, a todo o momento, que havia um monstro seguindo os dois.

Carlos procurou tranquilizar o amigo e começaram a se aproximar da curva e finalmente começaram a ver as luzes da cidadezinha, e João, sem dizer nada, empreendeu uma carreira desabalada pela estradinha, deixando o amigo Carlos para trás.

Depois de algum tempo, Carlos começou a falar.

– Que mania, monstro, você tem de assustar os outros!

– Ora quem fala, logo você que desembestou uma carreira quando me viu. E depois viu que era só um saco plástico que ficou preso no milharal.

– Mas, no fundo, era um disfarce seu.

– Pois é, coisas assim acontecem.

– É claro, mas como você me disse que era só imaginação eu nunca mais corri.

– E esse João?

– Ah, João acredita em qualquer coisa!

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

A chuva

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Existe algo mais democrático do que a chuva? Ou tão democrático quanto ela? Ela pode chegar de mansinho e derramar suas lágrimas igualmente. Ela pode chegar torrencialmente e afogar a todos, quer sejam ricos ou pobres, ela arrasta desde a mansão mais nobre ou o barraco mais pobre.

Quando alaga não interessa a ela se as coisas que destrói sejam decorações de palácios ou casas médias ou pobres.

A água se imiscui pelas reentrâncias e nenhum poder a impede. Ela não se deixa conduzir quando a sua índole, o seu fazer natural lhe domina, e a natureza vingativa retoma aquilo que lhe foi roubado, ou é festejada quando chega ao solo seco e despeja dos telhados uma alegria que é festejada pelas ruas, com as pessoas a se banharem.

A chuva se anuncia, algumas vezes é saudada ou bem-vinda, e, às vezes, é temida, é mal vinda, e não importa a origem dos olhares que a enxergam.

Ela se anuncia num repente como a chuva de verão que nos surpreende. Ou é antevista pelos relâmpagos e trovões a iluminarem o céu.

A chuva transborda os rios, alaga as ruas, enche os reservatórios, as represas, e se transforma em riqueza que traz a água que nos mata a sede ou a intempérie furiosa que arrasta na noite, sejam ricos, pobres, brancos ou negros, todos à procura de proteção.

Para os desertos é coisa rara, para as florestas abundância, pune com suas regras aqueles que desmatam, e abençoa aqueles que peregrinam nas areias, e valorizam a água como tesouro descoberto.

O aprendizado da chuva é enorme, nas plantas que agradecem, no solo seco que rejuvenesce, no viajante que enfrenta a mudança, porque depois da tempestade vem a bonança.Quanta coisa nos traz a chuva, e, no entanto, são somente as nuvens a espremer o que lhes trouxe o sol. Quanta coisa nos traz a chuva e, no entanto, é apenas água que cai do céu.

Nilson Lattari

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Crônicas

A história de um ateu

Por Nilson Lattari.

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A história de um ateu

Era um ateu, assim considerado porque não via nenhuma espécie de conserto em alguma coisa. Coisas como fraternidade universal, bem estar da comunidade ou mesmo amor ao próximo. Dizia essas coisas aos quatro ventos. Muitas vezes saía dali e vinha pela madrugada levando cobertores para os moradores de rua, que ficavam à mercê do frio. Ele distribuía os cobertores ou mesmo fazia serviços colaborando com uma sopa, enquanto praguejava dentro de si mesmo, se afastando até mesmo quando algum grupo se juntava para rezar. Ele se afastava, e saía pelas ruas se compadecendo de algum cão que perambulava pelas ruas, ficando na eterna dúvida se deveria levar somente mais aquele para sua casa, e vê-lo se reunir a outros que o aguardavam cheios de mimos, latidos e agrados.

Festejava, quando lhe diziam, que o seu comportamento de ofender a Deus o levaria ao Inferno, e ele respondia que ainda bem que não se misturaria com quem não concordava. E não via nenhum problema em blasfemar, até porque não blasfemava, porque até mesmo se fizesse isso aceitaria a existência de Deus. Logo não perderia tempo com isto.

As lágrimas corriam de seus olhos, silenciosamente, quando via negros e pobres, crianças serem afugentadas por seguranças e policiais dos locais mais nobres, e quando se sentiu mal, resolveu morar perto deles, para que de alguma maneira pudesse ajudá-los. E não aceitava um agradecimento em nome Dele. Achava absurdo, porque ele o fazia porque queria, movido por alguma coisa que desconhecia.
Retribuía dizendo que se Deus existisse não teria permitido as injustiças no mundo. E que as ações de cada um é que poderiam mudar o mundo, e fazia todas elas dando o exemplo de como seria possível.

Se dizia infeliz consigo mesmo, quando olhava no espelho, apesar de, escondido, um sorriso chegar à sua boca, vendo que uma ação que fizera antes com alguém, com algum animal havia surtido algum efeito benéfico. Era o seu momento de alegria, se sentia o melhor dos homens, mesmo que quando olhasse para os lados não houvesse ninguém para festejá-lo. Para os outros era apenas um ateu incorrigível, mas, para ele, e somente para ele, era o melhor de si que poderia fazer. E enquanto as lamentações de outros era não ter conseguido algum bem material, para ele a lamentação era não ser possível fazer mais.

Outras vezes conseguia algum benefício para alguém, e atribuía à sorte ou ao destino, afinal de algum jeito a vida tenderia a mudar. Era alguma coisa inexplicável, como se viesse do nada. A sua explicação era de que o mundo era como é, sem nada a acrescentar e nada que se pudesse fazer para alterá-lo. Simplesmente, ninguém poderia fazer a diferença.

Ninguém acreditava nas suas boas ações, diziam que quem não acreditava em Deus, com certeza, nenhuma boa intenção poderia existir.

E ele seguia seguindo seus próprios passos e o que o seu coração mandava, ações, para ele, era o que importava, e em Deus, simplesmente, não acreditava. Mesmo que Deus continuasse a procurá-lo, porque acreditava nele.

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Crônicas

De volta para o aconchego

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Do G1

Aconchego é chegar a algum lugar, seja na porta de casa, na presença da pessoa apaixonada, no coração querido. Aconchego é a reza escondida que conforta a alma, declamada baixinho no silêncio do quarto, são as palavras que jogamos no alto, na esperança de Alguém que desejamos que exista, que as receba em Seu colo e nos atenda, porque nos aconchegamos a Ele sempre nos momentos mais precisados e também naqueles preciosos quando conquistamos o nosso desejo guardado.

Aconchego está no aceno de longe, quando somos reconhecidos entre muitos, na multidão, quando aquele sorriso se expande à vista da nossa simples presença, descendo de um ônibus, de um avião, vindo de algum lugar distante. Está no correr para os abraços, nos risos, nos deboches engraçados que fazemos com aqueles que amamos.

É bom quando voltamos para o aconchego, porque é como se aquele lugar nunca nos abandonasse, seja uma paisagem, que guardamos desde criança, um simples cheiro de flor, em um jardim onde encontramos nosso amor de outros tempos, está na lembrança de um beijo, porque é no conforto de nossas coisas boas, acontecidas, que nos revigoramos de tempestades nos tempos presentes.

Todos nós temos nosso aconchego. É quando a noite desce, e nos enrolamos em nossos travesseiros, e imaginamos fantasias sobre o que poderíamos ter feito, é quando choramos sem motivo algum, porque esses momentos não são de fraquezas, é quando choramos por injustiças, e nosso aconchego não está em nada poder fazer, mas, o simples fato de querermos que o mundo seja melhor é a melhor maneira de demonstrar o quanto de bom temos dentro de nós.

São nesses momentos em que demonstramos para nós mesmos, que o mundo não deveria ser assim, que comparamos as vidas daqueles que sofrem às nossas vivências, com vidas vividas em um tempo anterior, imaginado, sem saber.

É quando nos aconchegamos perto Dele.
Porque se imaginamos que o mundo não pode ser assim como é, se existem injustiças, ódios e falta de amores, quando vivemos em um mundo impossível, de disputas desnecessárias, de ganâncias extremadas, pela razão de que as coisas são assim, geridas em nosso íntimo, quando entendemos que as coisas não podem ocorrer dessa maneira, e nos sentimos incomodados com isso, é que nossa alma, nossas lembranças mais guardadas nos lembram do aconchego de que já habitamos um outro lugar, mais justo, onde a irmandade realmente existe.

Porque o entendimento de que o mundo é injusto vem do fato de já termos vivido a justiça plena em algum lugar. A comparação é a consequência de que estaremos de volta para o nosso aconchego algum dia, e a certeza de que Ele existe, com certeza.

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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