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Crônicas

Nomes, para que servem

Por Nilson Lattari.

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Nilson Lattari

Muitos se preocupam com os significados dos seus nomes, talvez na vã tentativa de comprovar com a escolha do Destino uma futura missão, podendo estar em uma representação do mártir cristão, ou da figura pagã que reinou em outros tempos, do adjetivo que remeteria ao seu real eu, internado na alma, que poderia lhe dar importância sem o menor esforço.

Dar nome aos bois, falar em nome de alguém, de importância ou significado, ou a perguntar o nome disso ou daquilo; o que existe, de realidade, entre o nome que têm as coisas e os seus significados?

Nossos pais, aqueles os responsáveis pela escolha dos nossos nomes, não são inquiridos, até porque as respostas seriam as mais prosaicas; desde a homenagem a uma figura histórica, ao simples gosto pessoal, de um parente próximo e relevante, na escolha do artista da moda, ou uma simples onda que se apossa da multidão, e o sorteado da vez vai carregar pelo resto da vida o nome dado.

Nomes são, também, referências, pontos de partida para orientações, para um uniforme meio de comunicação para sabermos sobre o que falamos, onde estamos.

Depois, alguns nomes se tornam nomes de ruas, lugarejos, bairros, cidades. É com nomes que lembramos da nossa História, e é com nomes, alguns pejorativos, depreciativos que descartamos as coisas que não desejamos.

Mas não só de |Homens vivem os nomes. Vivem também daqueles que se referem a defeitos que existam nos corpos dos Homens, desde o careca, ao exageradamente gordo ou magro e, combinados, viram formas de homenagear duplas, grupos, etc., ou então são marcações que fazemos sobre os outros, taxando de conservadores, comunistas, direitistas e esquerdistas, e, mais recentemente, com os apelidos: coxinhas, mortadelas, trouxinhas até mesmo os maria-vai-com-as-outras, com o devido perdão com as Marias, quer aquelas que vão ou ignorem as outras.

Enfim, nomes são relevantes para sabermos com quem falamos, para nos lembrarmos de quem, e a relevância é dada por aquilo que fazemos, deixamos em nossa História, que pode ser a referência dizendo que aquele sujeito não é um fulano e tal, que fez tanta coisa boa, ou não pode ser igualado, ao mesmo tempo, com o sujeito que nunca poderá ser taxado de um beltrano que fez outro tanto não na mesma proporção de probidade e honradez.

Mais do que saber o significado do nome, devemos dar a ele um significado e uma história de que ele, e também nós devamos nos orgulhar, a ponto de ser lembrado como homenagem. Afinal, para que servem os nomes? Para serem preenchidos com uma bela história.

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Crônicas

As perguntas não devem se calar

Por Nilson Lattari.

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As perguntas não devem se calar

Se perguntar não ofende, por que há tanta timidez em se perguntar algo? A timidez é responsável, talvez, pela culpa em não se querer perguntar. A vergonha em admitir que não entendeu faz com que a vaidade não supere a barreira da ignorância. Se o sábio grego se considerava sábio porque nada sabia, não foi por falta de perguntas, e questionamentos, que construiu a sua filosofia.

Muitas formas de desistir de algo vem da vergonha de perguntar. A falta de perguntas nos leva à falta de pensar, e por consequência o poder de julgar se torna mais forte; afinal emitir um julgamento a partir de nossas convicções, com nossas respostas prontas a partir de nossos “pré conceitos”, aquilo que já julgamos antes de ouvir, é o caminho mais fácil para não perguntar, e, pior, não precisar responder.

Se passamos na rua e vemos uma mulher bem jovem, com um pequeno nos braços, pedindo esmolas, nosso primeiro impacto é julgá-la. E se perguntássemos a ela por que está ali? Teríamos a resposta às nossas convicções, mas, também, poderíamos ouvir razões que não constam do nosso script já pronto.

A pergunta nos tira dúvidas, nos dá rumos. Por exemplo, ao trocarmos olhares amorosos e esperançosos com alguém, ficamos pensando em se aproximar do nosso objeto de desejo ou não. Se não perguntarmos nunca saberemos, e também nunca saberemos se aquele alguém poderia ser o amor de nossas vidas. Ao aventureiro resta somente a alternativa válida de possivelmente ouvir um não, e, para ele, somente restam duas alternativas: sair ofendido, e dar uma resposta ríspida, própria dos prepotentes, e fechar uma porta definitivamente, ou, elegantemente, pedir desculpas e transformar essa possibilidade em um talvez. Afinal, na possibilidade de um retorno, qual dos dois teria melhores chances?

Perguntar é para os fortes, os curiosos, os conquistadores. A ausência da pergunta fica para os sonhadores, os tímidos, os recalcitrantes, guardando a pergunta e a dúvida dentro de si. Os conquistadores se perguntam se é possível, e por que não chegar lá. Se a imaginação é capaz de construir mundos, resta aos aventureiros se perguntarem como seria possível alcançar o objetivo. Se a mente imaginou, a questão é encontrar os caminhos até o final esperado, e isso se faz com perguntas.

Ao nos perguntarmos e questionarmos sobre tudo, construímos histórias fascinantes sobre nós mesmos. Projetar futuros é uma forma de perguntar ao universo sobre se somos capazes. A pergunta pode ser esclarecedora para alguns e pode ser uma forma de ironia para outros. Perguntar não ofende, mas determinadas perguntas podem ofender, ferir, questionar, mas podem ser também bandeiras de liberdade, quando confrontamos o opressor.

Para entender o mistério da vida, duas perguntas básicas definem a nossa humanidade: De onde viemos e para onde vamos?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação..

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Crônicas

A Viagem

Por Nilson Lattari.

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E assim, quando eu adoecia, sua mão fria pousava na minha fronte aquecida e era como um bálsamo que me trazia o remédio que nenhum outro remédio podia acalentar.

De outra vez, era você que estava na cama e, meio sem jeito, trazia fumegando uma sopa qualquer, e, doente, você ria diante dela, e minha mão sentia o flamejar da sua testa, e a sua febre de súbito desaparecia.

E fomos assim, com o passar do tempo, alimentando nossas alegrias, e sustentando nossas quedas, com o passar dos dias.

Uma noite dessas, eu acordei e minha mão ao pousar no seu lado encontrou o vazio. Foi a primeira noite que dormi sem você ao lado. Era como voltar ao passado sem ninguém e acordasse novamente sozinho, depois de viajar por tanto tempo com você.

Qualquer barulho que acontecia na casa, o bater do vento a porta teimosa em dançar sua dança muda, o latido do cachorro no quintal, como avisando a chegada de alguém, ou mesmo o pinga-pinga da bica que só agora eu percebia e me arrependia de nunca tê-la consertado, porque o seu barulho não me incomodava, você ocupava todo o resto, e só agora eu notava a solidão tomando conta do espaço antes ocupado. Levantava a cada um desses sons e andava pela casa tentando encontrar você, de seu espírito ainda zeloso, teimoso a tomar conta dos pratos sujos na pia, da roupa amarrotada e jogada sem qualquer jeito nas cadeiras.

E então eu resolvi sair pela noite, pelo dia, à procura dos lugares onde frequentamos juntos, não mais caminhando rápido ao seu encontro, mas prorrogando a chegada, como se meus passos recuados pudessem dar tempo de você chegar.

Quando amigos resolveram me levar para novamente viver a vida, no meio de dançarinas seminuas, como se meu conforto estivesse no viço de uma juventude qualquer, ou de um corpo oferecido em promoção, eu procurava no meio delas, descobrir você fantasiada de qualquer coisa que pudesse me enganar, e sairíamos dali correndo.

Tudo em vão.

Repasso as mãos nos seus retratos, vislumbro o sorriso branco, iluminado, como uma praia guardada no tempo. E depois, trazendo seus traços mais presentes, ainda o sorriso era a mesma praia, agora cercada pelas ondas que o rosto forma com o passar do tempo.

E uma das noites eu acordei de repente, com um susto qualquer, e procurei pela casa, como um fantasma, rápido e fagueiro, com as pernas obedientes como antigamente. E vi você, finalmente, chegar com a roupa e o rosto de antes, me pegar pelo braço e me olhar sorridente, com o convite para uma nova viagem iniciar.

O autor

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

Enquanto eu amei Maria

Por Nilson Lattari.

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Enquanto eu amei Maria

Bem que eu me arrependi de ter chegado ao baile usando aquela velha jaqueta surrada. Até que a calça era apresentável, o tênis nem tanto: afinal era um baile. Os amigos bateram na minha porta como se tivessem feito a maior descoberta do mundo. Encontraram uma festa, alguém tinha um convite, poderiam entrar todos, quem sabe?

E agora estava ali, sentado na cadeira e meu olhar se perdia, timidamente tentando mirar alguém que pudesse chamar para dançar. Logo eu!

Um grupo de meninas em uma roda parecia trocar segredos e risos, e, dentre todos aqueles sorrisos eu vi Maria.

Não sei se por impulso, uma mola que me jogou para dentro do salão, os meus passos foram, vagarosamente, na direção delas. Com a minha chegada, os sorrisos pararam e eu me dirigi para ela, Maria, que parou de sorrir, de repente.

Perguntei se ela queria dançar, e um silêncio se fez. Me fiz de desentendido, porque somente os olhos de Maria, e aquele sorriso que ela tinha no rosto, eram aquilo que eu gravava na memória: o sorriso de Maria, o olhar brilhante que de repente se desfez, mas, ao nos olharmos parecia que um interruptor qualquer o acionou. As amigas se afastaram, e diante da relutância dela, em se levantar, eu notei que a cadeira fazia parte dela.

O silêncio pareceu se acomodar no salão, a música continuava, mas os casais pararam em volta.

Puxei as mãos de Maria, fiquei ajoelhado aos seus pés, e fui trazendo as suas mãos delicadas, e pernas rodantes foram me acompanhando para o centro de tudo. Os casais se afastaram e fui volteando em torno dela, e o sorriso de Maria voltou, e nada mais eu via. Depois me contaram que um irmão queria saltar sobre mim, mas foi contido pelo pai.

Mas, nada disso eu ouvira, somente os olhos e o sorriso de Maria tomavam conta de mim. Queria abraçá-la, mas, ela parecia bem longe, segurando suas mãos, e me fazia circular em volta dela. Maria era muito mais do que era. Maria, de repente, no meio de meus vinte anos, se tornara a pessoa mais importante para mim.

Conversamos toda noite. Eu, de joelhos, ouvia a vida de Maria, e ela se inclinava para mim, e somente nós dois existíamos no baile.

Quando peguei o seu telefone, um pai se aproximou e avisou que era hora de ir. Não vi olhares sobre mim, somente via os olhos e o sorriso de Maria se afastarem, e se tornarem inesquecíveis.

Procurei Maria, e fomos resistindo com o tempo, às oposições de todos, e culminei esperando por ela em um altar, e, vendo-a chegar com o pai, desci as escadas e fui ao encontro dela, trazendo-a em meus braços para podermos casar. Nossa vida foi toda assim, de murmúrios, aplausos, compaixão daqueles que se aproximavam, e pareciam não entender que havia amor entre nós.

Mas, eu somente tinha olhos e ouvidos para os olhares e o sorriso de Maria. Maria escolhia as minhas roupas e ria da maneira despojada que eu tinha. Meu mundo era mais baixo do que todos, e eu sempre ouvia Maria de joelhos, e era um mundo mais silencioso, mais contido.

Ficamos pouco tempo juntos. Maria se foi, com a doença que aos poucos foi tomando conta do seu corpo, e eu ignorei ou não me disseram, não sei bem.

Às vezes, quando me chamam, amigos de outras datas, para conhecer alguém nos bailes, me visto do jeito mais simples, sem ouvir as críticas que certamente existem. Sento no bar, me afasto do movimento das pessoas, e fechando os olhos tento imaginar que ao reabri-los, de repente, serei surpreendido com o sorriso de Maria no meio de tantas outras.

E se me perguntam por que eu faço isso, eu respondo que não sei, sou feliz assim. Conheci o verdadeiro amor não no lugar comum, mas, descobri o amor além, muito além do que a maioria das pessoas percebe.

O autor

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

 

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