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Crônicas

O primeiro beijo

Por Nilson Lattari.

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O primeiro beijo

Vamos lembrar do nosso primeiro beijo? Você roubou, ele foi dado? Foi surpreso, inesperado?

Quantas fantasias existem no primeiro beijo. Vamos relembrar?

Foi num encontro de olhares, quando as palavras já perderam o sentido, as mãos se atraíram, o toque foi nervoso, estranho, o primeiro contato com alguém não familiar, sem risos, meio tenso, e uma espécie de ímã foi atraindo os olhares, os rostos se aproximaram, meio escondidos encontrando as bochechas de dois lados, e um abismo se abriu, o chão se afundou, e tudo aconteceu.

É mágica, simplesmente mágica.

Em um artigo foi descoberto que o beijo é algo recente. Os egípcios encontravam os rostos e não havia o contato labial, por exemplo. Seu nascimento foi um mistério, que leva duas pessoas misturarem salivas e bactérias, ignorando perigos.

E o beijo é isso: um perigo, e tudo que é proibido tem seu sabor, sua quentura, algo escondido, sem testemunhas.

Mas, existe um cheiro que acontece naquele instante, um odor que infla as narinas, uma mistura de pecado e permissão. Um beijo é a rudeza do algodão, é o inflar das pétalas da flor que se abre, é o encontro de corpos calados, é o inexistir, o tempo parado, é a vontade de não se acabar.

O mágico do primeiro beijo é que ele nunca se repete. Ele nunca é o mesmo, mesmo que se beije o mesmo amor por longos anos, ele adormece na lembrança, a emoção se resguarda, e por isso ele se torna único. Para sempre ser lembrado como o primeiro, aquele beijo.

Pois ele tem um significado. Ele sela o amor entre dois seres, e de repente aqueles dois não são mais os mesmos, se tornam únicos, partilhadores de segredos, criadores de fantasias futuras, de projetos, conjecturas. Faz de dois seres um só. E aí está a mágica do primeiro beijo: o acordo entre dois, o abraço cúmplice que marca o futuro, ele é a primeira aliança entre dois amores.

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Crônicas

A viagem no tempo

Por Nilson Lattari.

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A viagem no tempo

Arrumando o armário, por esses dias, uma quantidade de negativos caiu sobre mim, e me perdi revendo fotos antigas. Aliás, nestes tempos tecnológicos, é bom esclarecer que: negativo é essa coisa escorregadia que fazia o papel do moderno back up nas fotografias tiradas antes da era digital. Quando perdíamos uma fotografia corríamos atrás dele para restaurar a memória de pessoas queridas, viagens e essas coisas.

E é escorregadio, deve ser guardado dentro das capas protetoras para ficar livre de arranhões, impressões digitais, gorduras que podem alterar a cor e a qualidade das fotos. Guardando as devidas proporções o mesmo cuidado que é aconselhado aos CDs e DVDs. Falo que deve ser guardado porque ainda existem alguns admiradores que enxergam, naquela forma de fotografar, algo de romântico e artesanal.

Mas as semelhanças curiosas param por aí. Depois delas vêm as fotografias de fato. Os registros temporais cuidadosamente guardados em álbuns, e mostrados às visitas, às namoradas quando chegam pela primeira vez nas casas, e querem conhecer o namorado de antes, suas vidas, seus passeios, suas ex (Por que não?), e vice-versa, naturalmente, sob risos e lembranças.

Esse antes, o manipular dos então positivos, é que é o nosso assunto. Manipular fotos é viajar no tempo. Não basta, tão somente, olhá-las, imaginá-las, mas perceber que os personagens, as paisagens, o como eram antes, parados, sorrisos paralisados no “make cheese”, poses estudadas, cenários escolhidos, todos ajuntados para caber no quadro, o registro em único flash, significam a verdadeira viagem no tempo.

Me perco observando não o que está nelas, mas o que está por trás delas. O que pensaria aquela pessoa naquele instante? Jovem ainda, o que esperaria do futuro? Como pano de fundo uma cena urbana, flagrada para decorar a foto, comprovando a estada em um determinado lugar, testemunhando uma cena inusitada, uma roupa estranha; as pessoas atrás andando distraídas, pensando lá em algo sobre suas vidas, sem imaginar que os seus pensamentos, os seus andares ficarão registrados no tempo, levados para lugares longínquos, sem imaginar que outras pessoas, em outras culturas, as estarão olhando, e imaginando seus afazeres, fazendo comentários e deitando olhares curiosos, sendo apontados por outros.

Quantos de nós não estaremos nos registros de viajantes que passaram por nossas terras, levaram nossa impressão, que nossas roupas, maneiras de andar, hábitos vão representar em outros lugares a norma de comportamento de todo nosso povo. Somos incógnitos e ao mesmo tempo reveladores e revelados.

Antes do advento da tecnologia fotográfica digital e a sua fácil reprodução, em tempos idos, bem poucos tinham acesso aos apetrechos fotográficos. E esses registros se tornam para o futuro documentos únicos, que nos trazem ou nos levam ao passado.

O que me distrai vendo essas fotos é me imaginar caminhando por aquelas ruas, conversando com aquelas pessoas, fazer, criticamente, uma comparação com seus modos de vida, rir, interiormente, sobre suas crenças que o futuro poderá ser, o que poderá acontecer. E, ao mesmo tempo, poderia dizer-lhes que muitas daquelas esperanças vãs não se concretizarão. Talvez, a viagem no tempo seja impossível, e tomara que seja. Seria desconcertante tirar dos nossos antepassados as esperanças nas soluções dos problemas sociais, políticos, assim como não gostaríamos que alguém nos viesse dizer que o futuro nada tem de diferente. E que, com a abundância de registros fotográficos, gravados dessa vez na web, acessível ao mundo todo, imaginar, lá na frente, que o passado era muito mais gostoso e a Terra era um lugar melhor de viver.

E o mundo caminhando igual, deixando registrados os sorrisos de confiança.

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Crônicas

A chuva

Por Nilson Lattari.

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Existe algo mais democrático do que a chuva? Ou tão democrático quanto ela? Ela pode chegar de mansinho e derramar suas lágrimas igualmente. Ela pode chegar torrencialmente e afogar a todos, quer sejam ricos ou pobres, ela arrasta desde a mansão mais nobre ou o barraco mais pobre.

Quando alaga não interessa a ela se as coisas que destrói sejam decorações de palácios ou casas médias ou pobres.

A água se imiscui pelas reentrâncias e nenhum poder a impede. Ela não se deixa conduzir quando a sua índole, o seu fazer natural lhe domina, e a natureza vingativa retoma aquilo que lhe foi roubado, ou é festejada quando chega ao solo seco e despeja dos telhados uma alegria que é festejada pelas ruas, com as pessoas a se banharem.

A chuva se anuncia, algumas vezes é saudada ou bem-vinda, e, às vezes, é temida, é mal vinda, e não importa a origem dos olhares que a enxergam.

Ela se anuncia num repente como a chuva de verão que nos surpreende. Ou é antevista pelos relâmpagos e trovões a iluminarem o céu.

A chuva transborda os rios, alaga as ruas, enche os reservatórios, as represas, e se transforma em riqueza que traz a água que nos mata a sede ou a intempérie furiosa que arrasta na noite, sejam ricos, pobres, brancos ou negros, todos à procura de proteção.

Para os desertos é coisa rara, para as florestas abundância, pune com suas regras aqueles que desmatam, e abençoa aqueles que peregrinam nas areias, e valorizam a água como tesouro descoberto.

O aprendizado da chuva é enorme, nas plantas que agradecem, no solo seco que rejuvenesce, no viajante que enfrenta a mudança, porque depois da tempestade vem a bonança.Quanta coisa nos traz a chuva, e, no entanto, são somente as nuvens a espremer o que lhes trouxe o sol. Quanta coisa nos traz a chuva e, no entanto, é apenas água que cai do céu.

Nilson Lattari

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Crônicas

A história de um ateu

Por Nilson Lattari.

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A história de um ateu

Era um ateu, assim considerado porque não via nenhuma espécie de conserto em alguma coisa. Coisas como fraternidade universal, bem estar da comunidade ou mesmo amor ao próximo. Dizia essas coisas aos quatro ventos. Muitas vezes saía dali e vinha pela madrugada levando cobertores para os moradores de rua, que ficavam à mercê do frio. Ele distribuía os cobertores ou mesmo fazia serviços colaborando com uma sopa, enquanto praguejava dentro de si mesmo, se afastando até mesmo quando algum grupo se juntava para rezar. Ele se afastava, e saía pelas ruas se compadecendo de algum cão que perambulava pelas ruas, ficando na eterna dúvida se deveria levar somente mais aquele para sua casa, e vê-lo se reunir a outros que o aguardavam cheios de mimos, latidos e agrados.

Festejava, quando lhe diziam, que o seu comportamento de ofender a Deus o levaria ao Inferno, e ele respondia que ainda bem que não se misturaria com quem não concordava. E não via nenhum problema em blasfemar, até porque não blasfemava, porque até mesmo se fizesse isso aceitaria a existência de Deus. Logo não perderia tempo com isto.

As lágrimas corriam de seus olhos, silenciosamente, quando via negros e pobres, crianças serem afugentadas por seguranças e policiais dos locais mais nobres, e quando se sentiu mal, resolveu morar perto deles, para que de alguma maneira pudesse ajudá-los. E não aceitava um agradecimento em nome Dele. Achava absurdo, porque ele o fazia porque queria, movido por alguma coisa que desconhecia.
Retribuía dizendo que se Deus existisse não teria permitido as injustiças no mundo. E que as ações de cada um é que poderiam mudar o mundo, e fazia todas elas dando o exemplo de como seria possível.

Se dizia infeliz consigo mesmo, quando olhava no espelho, apesar de, escondido, um sorriso chegar à sua boca, vendo que uma ação que fizera antes com alguém, com algum animal havia surtido algum efeito benéfico. Era o seu momento de alegria, se sentia o melhor dos homens, mesmo que quando olhasse para os lados não houvesse ninguém para festejá-lo. Para os outros era apenas um ateu incorrigível, mas, para ele, e somente para ele, era o melhor de si que poderia fazer. E enquanto as lamentações de outros era não ter conseguido algum bem material, para ele a lamentação era não ser possível fazer mais.

Outras vezes conseguia algum benefício para alguém, e atribuía à sorte ou ao destino, afinal de algum jeito a vida tenderia a mudar. Era alguma coisa inexplicável, como se viesse do nada. A sua explicação era de que o mundo era como é, sem nada a acrescentar e nada que se pudesse fazer para alterá-lo. Simplesmente, ninguém poderia fazer a diferença.

Ninguém acreditava nas suas boas ações, diziam que quem não acreditava em Deus, com certeza, nenhuma boa intenção poderia existir.

E ele seguia seguindo seus próprios passos e o que o seu coração mandava, ações, para ele, era o que importava, e em Deus, simplesmente, não acreditava. Mesmo que Deus continuasse a procurá-lo, porque acreditava nele.

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