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Crônicas

A Viagem

Por Nilson Lattari.

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E assim, quando eu adoecia, sua mão fria pousava na minha fronte aquecida e era como um bálsamo que me trazia o remédio que nenhum outro remédio podia acalentar.

De outra vez, era você que estava na cama e, meio sem jeito, trazia fumegando uma sopa qualquer, e, doente, você ria diante dela, e minha mão sentia o flamejar da sua testa, e a sua febre de súbito desaparecia.

E fomos assim, com o passar do tempo, alimentando nossas alegrias, e sustentando nossas quedas, com o passar dos dias.

Uma noite dessas, eu acordei e minha mão ao pousar no seu lado encontrou o vazio. Foi a primeira noite que dormi sem você ao lado. Era como voltar ao passado sem ninguém e acordasse novamente sozinho, depois de viajar por tanto tempo com você.

Qualquer barulho que acontecia na casa, o bater do vento a porta teimosa em dançar sua dança muda, o latido do cachorro no quintal, como avisando a chegada de alguém, ou mesmo o pinga-pinga da bica que só agora eu percebia e me arrependia de nunca tê-la consertado, porque o seu barulho não me incomodava, você ocupava todo o resto, e só agora eu notava a solidão tomando conta do espaço antes ocupado. Levantava a cada um desses sons e andava pela casa tentando encontrar você, de seu espírito ainda zeloso, teimoso a tomar conta dos pratos sujos na pia, da roupa amarrotada e jogada sem qualquer jeito nas cadeiras.

E então eu resolvi sair pela noite, pelo dia, à procura dos lugares onde frequentamos juntos, não mais caminhando rápido ao seu encontro, mas prorrogando a chegada, como se meus passos recuados pudessem dar tempo de você chegar.

Quando amigos resolveram me levar para novamente viver a vida, no meio de dançarinas seminuas, como se meu conforto estivesse no viço de uma juventude qualquer, ou de um corpo oferecido em promoção, eu procurava no meio delas, descobrir você fantasiada de qualquer coisa que pudesse me enganar, e sairíamos dali correndo.

Tudo em vão.

Repasso as mãos nos seus retratos, vislumbro o sorriso branco, iluminado, como uma praia guardada no tempo. E depois, trazendo seus traços mais presentes, ainda o sorriso era a mesma praia, agora cercada pelas ondas que o rosto forma com o passar do tempo.

E uma das noites eu acordei de repente, com um susto qualquer, e procurei pela casa, como um fantasma, rápido e fagueiro, com as pernas obedientes como antigamente. E vi você, finalmente, chegar com a roupa e o rosto de antes, me pegar pelo braço e me olhar sorridente, com o convite para uma nova viagem iniciar.

O autor

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.

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Crônicas

Revisitando o passado…

Por Carlos R. Ticiano.

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Revisitando o passado...

Com receio, ele foi chegando e abrindo o portão lentamente, na esperança de encontrar Carol em casa. Duas palmeiras, como que brincando com suas folhas ao vento, observava-o discretamente. Diante de uma pequena escada, foi subindo até a entrada da porta. Ao abri-la, além de não encontrá-la, deparou-se com um emaranhado de sentimentos, que o remeterão a um labirinto de saudades, emoções e tristeza.

Na sala, um sofá de tecido suede cinza e sobre ele, um jornal na página do horóscopo. Um tapete com listras coloridas, um revisteiro de vime com diversas revistas e um rack padrão rústico, com alguns objetos de decoração. Entre eles, a réplica do Farol da Barra e da Estátua da Liberdade. Além de um porta-retrato com a foto de Carol sorrindo. Na parede, próximo da porta um relógio dupla face modelo estação de trem.

Na cozinha, uma geladeira e seu inseparável pinguim, um fogão com um guardanapo dependurado no puxador e uma mesa de granito quadrada com cadeiras de pés palito, contendo um bule térmico, duas xícaras coloridas e um açucareiro. Um armário de cozinha com portas de vidro transparente, onde era possível visualizar vários utensílios domésticos. Na parede um quadro com a frase: Inspiração, fé e um bom café!

No quarto, uma cama por arrumar e um guarda-roupa com roupas e calçados da Carol. Um criado-mudo com um abajur e um rádio retrô. Uma escrivaninha com uma máquina de escrever, vários livros espalhados e numa das gavetas, um bilhetinho com a letra de Carol e uma caixinha de musica, que não teve coragem de tocá-los. Do lado, uma lixeira de aramado com vários papéis amassados, provavelmente de algumas poesias não concluídas.

No sótão, um relógio cuco parado no tempo, do lado um quadro com a foto da cidade de Nova York. Uma mesinha de canto com um vaso de flores artificiais, sobre uma toalhinha de crochê. Um mancebo com o casaco, a bolsa, o lenço e o echarpe, que Carol usava diariamente. Uma poltrona revestida com tecido florido, ainda decorava o ambiente.

Voltando, passou por uma janela envidraçada com vista para o quintal. Afastando a cortina rendada, pode visualizar um bonito e florido jardim, que hoje não passa de flores murchas e secas pelo tempo. Um banco descorado pela chuva e pelo sol, onde costumavam ficar namorando. Perdido entre tantas lembranças teve a sensação de ter Carol por perto.

Seu pensamento neste instante viajou, fazendo lembrar-se de coisas, que na realidade nunca esquecera. Como dos seus beijos, seus abraços, seu sorriso, seu perfume e do seu olhar a espera de um chamego. Ao perceber que não iria resistir e que iria chorar, escreveu sobre um espelho empoeirado, acima do aparador, seu nome junto ao dela.

Pensando novamente em tudo que existiu entre eles, e na dúvida em saber se era tudo realidade ou fruto da sua imaginação, saiu e trancou para sempre a porta de um passado que deixou marcas tão profundas, que seu coração jamais amou outra mulher. Carol foi única! Carol é insubstituível! Carol será inesquecível!…  Au revoir mon cher!…

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Crônicas

Amar, múltiplo de x

Por Nilson Lattari.

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Quantas vezes é possível amar? Digamos que uma vez amei Maria, e Maria me deixou, depois amei Joana, que, dessa vez, eu deixei, e por tantas vezes amei e fui amado e deixei e fui deixado. Então é possível que amando tantas vezes, também seja possível amar muitas vezes, e ao mesmo tempo, tantas Joanas e Marias que apareçam. E multiplicamos nossos amores e marcamos na memória, como o pistoleiro que marca sua arma, para cada presa abatida.

Certo. Digamos que uma amiga ou amigo é tão amigo e amiga que a amizade por tantas vezes multiplicada seja quase amor, confeitada com muita simpatia, com o devido espaço entre corpos. Podemos separar amor de amizade? Possivelmente, desde que não queiramos transformar amizade em amor, onde amor se transformar em amizade… aí, talvez, a coisa se complique e, em vez de multiplicar, divida.

Podemos estar com alguém e amar outras ou outros, pelos detalhes que nos falte ver na pessoa amada da vez. Uma forma de falar, compreender, ouvir, sorrir, acariciar e tantas qualidades faltam na pessoa que amamos e conseguimos ver, ou imaginar, que existam em outros ou outras tantas.

Ficamos com as nossas amadas e amados até que a morte ou um problema bem grave nos separe, e abrimos nosso coração de imediato para os outros amores para os quais lançamos pensamentos e olhares.

Depois da tempestade vem a bonança, ou depois de um fora bem-dado, nosso coração se abre para outros lados com esperança. Já disse Hegel que o segundo casamento, ou relacionamento, é a vitória da esperança sobre a realidade. Sempre acreditamos que o amor mora ao lado, ou na primeira troca de olhar no passear descontraído pelas calçadas. Uma troca de sutilezas, de convites para um café e novamente o amor se descabela, e se lança direto sobre o coração dele ou dela.

Podemos, sim, amar vários ou várias, de idades diferentes e variadas. Mas, o que nos leva a permanecer ao lado daquela que é bonita porque está em nossa companhia, disse Vinícius?

Amores são ganhos, imagina o conquistador barato, e como barato sai caro ele colhe muito mais perdas e danos. Amamos muitas vezes, e ficamos, com certeza, com aquele ou aquela que compreende nossas manias, defeitos e enganos.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Eu sei que dá medo

Por Nilson Lattari.

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Quando lemos, ouvimos, conversamos com aqueles que divergem da atual política, da atual situação, sentimos medo, eu sei, das argumentações que nos parecem tão precisas, cortantes, de que a opção pela política social é errada. Principalmente daqueles que receberam o peixe até ficar bem grandinhos, mas mandam para os outros que devam aprender a pescar. E, nessa questão do peixe, também podemos incluir uma cabeça melhor para os estudos, uma família razoavelmente organizada, não desestruturada, com pais omissos, mães solteiras etc.

Será que estamos errados? Que o mundo deva funcionar com a livre iniciativa, lições de grandes homens, capitães de indústrias, aqueles que tiveram sucesso empresarial e que, portanto, estão a cavaleiro para demonstrar as grandes oportunidades?

O que são histórias de sucesso, de tanto sucesso que podem subir nas tribunas e dar lições de moral a todos?

Se vários funcionários de grandes empresas, de pequenos empresários, que alcançam o sucesso funcionam por que não tentarmos todos a livre iniciativa, livres dos empregos públicos, das estatais?

Na verdade, dos vários funcionários que chegam à presidência, ou ao sucesso nos negócios, contamos uma centena, talvez milhares que não chegam. Simplesmente porque uma simples conta matemática resolve: só existe um presidente em cada empresa, e só existe um ou poucos empresários que acham o seu nicho de mercado. Não se enganem, uma questão de sorte ou azar, contadas em prosa e verso como fórmulas perfeitas, mas não copiáveis. Caso isso fosse verdade, seria somente copiar e comemorar.

Talvez a história, a verdadeira história seja aquela que os derrotados tenham para contar. Ninguém liga para os motivos que alguém foi derrotado, mas, ali estão as lições do como não fazer.

Relatar grandes feitos de grandes homens não é vantagem nenhuma, é contar simplesmente a História. Mais valeram as grandes derrotas e as grandes decepções e as comemorações longe dos holofotes daqueles que deram força ao grande nome. Ninguém é dono da História, e também ninguém é suficientemente grande para determinar a um povo qual o caminho que deva escolher.

Portanto, o discurso é apontar a falha do outro, comparando com o seu sucesso, que é individual, de si mesmo, e não se pode a partir dele determinar a todo um povo que somente exista uma vontade, um caminho determinado.

Citam, muitas vezes, Maquiavel, um manual de embuste que tenta dar ares de moralidade a uma imoralidade política que é um tirano, assim como o Contrato Social que não passou de uma maneira de organizar a sociedade para que tudo seja “bom para os negócios”. Ou a uma bem-vinda organização matemática cartesiana.

Todorov, em sua Conquista da América – a visão do outro, define muito bem quando os espanhóis chegam ao continente e encontram um povo que não tem como princípio de vida “o que eu quero ser”, libelo de uma sociedade organizada para que haja vencedores, mas um povo que consultava oráculos para que seus rebentos soubessem o que eles “deveriam ser”, a partir de um adivinho. E era uma sociedade que funcionava, apesar dos sacrifícios humanos, que eram numericamente inferiores ao massacre que sofreram dos conquistadores, por motivos bestiais e desumanos.

Medo do outro discurso? Eu acho que não. Como se pode ter medo de um discurso que prega a natureza humana dividida como o reino animal onde existem as águias e as formigas, o leão e o lobo? Um discurso que esquece que somos todos iguais, baseados no primeiro Contrato Social: os Dez Mandamentos.

Essa sociedade, finamente organizada, matematicamente predestinada a colocar cada um no seu lugar, se esconde atrás do discurso do medo, esse sim um discurso difuso e covarde.

É difícil nos desprender deste temor. Afinal foram séculos de raciocínio na base da razão, do custo e benefício, do vestir a camisa, trabalhar em equipe. Os pretensos donos da verdade têm medo de que a dispersão desse discurso torne cada um de nós provedor de nós mesmos, e a competição real nos iguale, e alguns discursos de vitoriosos se transformem em vitórias de Pirro, expostos à concorrência e reduzidos da genialidade à mediocridade.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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