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Crônicas

As perguntas não devem se calar

Por Nilson Lattari.

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As perguntas não devem se calar

Se perguntar não ofende, por que há tanta timidez em se perguntar algo? A timidez é responsável, talvez, pela culpa em não se querer perguntar. A vergonha em admitir que não entendeu faz com que a vaidade não supere a barreira da ignorância. Se o sábio grego se considerava sábio porque nada sabia, não foi por falta de perguntas, e questionamentos, que construiu a sua filosofia.

Muitas formas de desistir de algo vem da vergonha de perguntar. A falta de perguntas nos leva à falta de pensar, e por consequência o poder de julgar se torna mais forte; afinal emitir um julgamento a partir de nossas convicções, com nossas respostas prontas a partir de nossos “pré conceitos”, aquilo que já julgamos antes de ouvir, é o caminho mais fácil para não perguntar, e, pior, não precisar responder.

Se passamos na rua e vemos uma mulher bem jovem, com um pequeno nos braços, pedindo esmolas, nosso primeiro impacto é julgá-la. E se perguntássemos a ela por que está ali? Teríamos a resposta às nossas convicções, mas, também, poderíamos ouvir razões que não constam do nosso script já pronto.

A pergunta nos tira dúvidas, nos dá rumos. Por exemplo, ao trocarmos olhares amorosos e esperançosos com alguém, ficamos pensando em se aproximar do nosso objeto de desejo ou não. Se não perguntarmos nunca saberemos, e também nunca saberemos se aquele alguém poderia ser o amor de nossas vidas. Ao aventureiro resta somente a alternativa válida de possivelmente ouvir um não, e, para ele, somente restam duas alternativas: sair ofendido, e dar uma resposta ríspida, própria dos prepotentes, e fechar uma porta definitivamente, ou, elegantemente, pedir desculpas e transformar essa possibilidade em um talvez. Afinal, na possibilidade de um retorno, qual dos dois teria melhores chances?

Perguntar é para os fortes, os curiosos, os conquistadores. A ausência da pergunta fica para os sonhadores, os tímidos, os recalcitrantes, guardando a pergunta e a dúvida dentro de si. Os conquistadores se perguntam se é possível, e por que não chegar lá. Se a imaginação é capaz de construir mundos, resta aos aventureiros se perguntarem como seria possível alcançar o objetivo. Se a mente imaginou, a questão é encontrar os caminhos até o final esperado, e isso se faz com perguntas.

Ao nos perguntarmos e questionarmos sobre tudo, construímos histórias fascinantes sobre nós mesmos. Projetar futuros é uma forma de perguntar ao universo sobre se somos capazes. A pergunta pode ser esclarecedora para alguns e pode ser uma forma de ironia para outros. Perguntar não ofende, mas determinadas perguntas podem ofender, ferir, questionar, mas podem ser também bandeiras de liberdade, quando confrontamos o opressor.

Para entender o mistério da vida, duas perguntas básicas definem a nossa humanidade: De onde viemos e para onde vamos?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação..

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Crônicas

Uma história de amor

Por Carlos R. Ticiano.

Publicado em

Uma história de amor

A tarde começa a cair e num céu amarelado pelos últimos raios de sol, uma gaivota voa silenciosamente em direção ao horizonte. Que parece esconder a realidade sobre este voo solitário, que ela faz todos os dias quando o sol começa a ser pôr, no infinito de um céu misterioso, mesclado por nuvens espessas e obscuras.

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Diante de um mar azul, tendo como companhia apenas a gaivota, vou caminhando pela praia deserta, na expectativa de encontrar as marcas dos seus pés na areia. Mas as ondas, ignorando a minha tristeza, chegam antes e acabam apagando seus passos e a esperança de encontrá-la. Mesmo com um semblante abatido e uma lágrima no rosto, continuo lhe procurando e tentando entender aquele triste adeus, que descoloriu um lindo final de tarde ensolarado.

Até já escrevi nas nuvens que é inimaginável viver sem seu amor; no arco-íris sem seus beijos; na lua sem seu olhar; na aurora boreal sem seus abraços; no vento sem seus carinhos; na garoa sem sua ternura; no sol sem seu sorriso; nos relâmpago sem seu encanto; na chuva sem sua alegria. Mas você não responde!

Com sua partida, a vida para mim, perdeu todos os sentidos, seu olhar ficou ofuscado e sem expressão, seus passos confusos e distantes, seu sorriso enigmático e misterioso, suas palavras sem sentido e evasivas.  A valiosa arca do “tesouro do amor” que juntos descobrimos em alto mar, deixei abandonada na praia junto a uma palmeira, que acenando ao vento com suas folhas, insinuam que você não voltará.

Até já escrevi nos jornais que é indescritível viver sem sua doçura; nos outdoor sem sua simpatia; nos panfletos sem sua delicadeza; nas revistas sem suas fantasias; nos letreiros sem seu entusiasmo; nas faixas sem sua graciosidade; nas placas sem seu carisma; nas redes sociais sem sua amizade. Mas você não responde!   

Mas eu não desisto, e como as ondas do mar, minha esperança vai e volta, pois eu sei que tentar esquecê-la é como aventurar-se tentando atravessar o mar em um pequeno barquinho feito de papel crepom, que mesmo elaborado com muito amor e carinho, não resistirá as suas ondas e acabará naufragando, diante de um mar revolto.

A manhã começa a raiar num céu amarelado pelos primeiros raios de sol. A gaivota retorna de seu voo solitário e eu recomeço a caminhada por toda extensão da praia. Só que sempre sem sonhos, sem esperança, sem destino e sem objetivos, pois quando você caminha com a lua em direção do horizonte, pisa tão leve na areia da praia, que mesmo não tendo ondas, é praticamente impossível visualizar os seus passos.

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Crônicas

As cidades

Por Nilson Lattari.

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As cidades guardam dentro de si mais do que ruelas apertadas, ruas largas, avenidas, janelas, carros parando nos sinais para as gentes apressadas, e seguirem depois em loucas disparadas.

Cidades são olhos nos olhando do alto dos edifícios. Espionando por fora de outros olhos que se escondem por trás de cortinas, vidros fumegados, óculos escuros em andares pendurados.

O que a cidade enxerga? Como ela nos vê?

As cidades nos comprimem no amontoado de pessoas, a se encontrarem sem carinho no esbarrar de ombros, encontros casuais de mãos. As suas ruas estreitas parecem comprimir os seus lados e os paralelepípedos dos calçamentos ameaçam saltar no encontro deles. São escuras as ruas e amedrontadas à noite.

Lado a lado, casas que se espremem ao longo do calçamento de rua, em uma briga louca por espaço. Transeuntes noturnos, cobertos pelo manto da noite, pés encostados nas paredes a observar o nada, e, ao mesmo tempo, tudo. Pequenos rolos de cigarros a circular pelo ar, para encontrar as luzes da iluminação pobre, pirilampos de névoa a buscar a luz.

Luzes saindo de janelas, a fornecer o pouco de vida para a noite. Gritos, barulhos que ecoam pelo ar. Alguém grita, todos ouvem e não mexem um dedo. Apenas os olhos se movem: Morte.

A iluminação do dia traz os contornos mais nítidos. Barulhos de vendedores, apregoando a sorte que pode chegar, anúncios de pechinchas, lojas a oferecerem objetos em bancadas nas calçadas. Mulheres em seus trajes de passeio ondulam pelas vitrines, a admirar os objetos de desejo ou para se exibirem a si mesmas as roupas novas, outras passam apressadas para alcançar a hora de atendê-las, burburinho: Vida.

A chuva cai, de repente, a rua esvazia, a população se espreme nas marquises, igualando ricos e pobres. Democrática, brinda a todos com a mesma benção. A rua de seca passa a molhada, coloridos espelhos dos neons nas poças d’água, interrompendo o fluxo dos vidros espelhados. A cidade narcisa se vê refletida no líquido.

Um carro passa e mistura tudo.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Guloseimas e infância

Por Nilson Lattari.

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Guloseimas e infância

O garoto entrou na loja, praticamente puxando o pai pelo braço, e com o dedo em riste apontava para as bolas de vidro recheadas de balas, com invólucros coloridos. O pai, pacientemente, perguntava o preço ao vendedor e o menino se extasiava com a enxurrada de coloridos que encheram suas mãos.

Balas e crianças combinam com perfeição. As balas são, talvez, aquelas que mais lembram a infância, a boca sedenta de açúcar sem importar com as advertências da mãe, quanto às cáries que tanto choro vai custar depois.

Eu não fujo disso, tenho as minhas cáries, ainda, quem sabe, daqueles tempos em que os açúcares inundavam a minha boca também sedenta. Até hoje, ainda recorro a elas; sendo a minha preferência aquelas de iogurtes, oferecidas como brindes em restaurantes, bem baratinhas.

Mas, a maior lembrança é do doce de abóbora, da mariola, da maria-mole, e do principal: as balas de tamarindo, envolvidas em um papel branco, como se não tivessem dono, fabricadas artesanalmente.
Hoje, o doce de abóbora ainda se encontra, bem como da mariola, ou doce de goiabada, embaladas industrialmente. Seria por conta da higiene? Todos têm o mesmo tamanho, espessura, não lembrando aquelas que vinham em tamanhos disformes, e que os meus dedos iam apontando para as maiores, as de tamanho mais generosos.

Havia também aquelas gelatinas coloridas, com pedaços de açúcar cristal espalhados, aquela coisa quadradinha, perfeita, ou então os doces de jujuba.

Não sei se os nomes mariola, quebra-queixo, marias-moles, ou o doce de abóbora, que não tinha um nome específico, ainda são referidos dessa forma, ou, simplesmente, as crianças dizem: quero aquele doce, o pretinho, o cor de abóbora, a amarguinha do tamarindo. Apontam com o dedo e querem, e pronto.

Esses doces são lembranças de um tempo antigo, satisfazer as crianças com as guloseimas faz parte de um pouco de infância que trazemos conosco.

Os velhos balcões de madeira e vidro ao contrário do bem comportado pote de acrílico, as embalagens que envolvem os doces, protegendo-os de atores externos, visitantes noturnos das padarias.
Os objetos de desejo, todos têm uma preferência, uma recordação da infância: damos um doce para quem quiser recordar.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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