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Crônicas

Lembrando namoradas

Por Nilson Lattari.

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O seu estilo era de namorar, desse estilo de andar de mãos dadas pelas ruas. E as lembranças que tinha das namoradas era a forma como as mãos se davam na caminhada. E, no entanto, não era disso o que mais recordava.

Enquanto se debruçava na janela, lembrava de Mariana, com seu jeito de princesa, deixando sua mão leve presa na dele, a seguir docemente seu caminho. Tinha um andar elegante, principalmente quando usava sua saia plissada, um pouco rodada para o seu gosto, a sua blusa leve, uma leve maquiagem, os cabelos pretos, o brinco discreto que o penteado de corte curto no seu cabelo ondulado deixava aparecer. Tinha um jeito seguro de se aproximar de seu braço a indicar, discretamente, com a outra mão, algum lugar ou circunstância que lhe parecia interessante. Seguia com ela pelas ruas e levando aquela princesa pelas mãos, se sentia um príncipe de verdade.

Júlia, no entanto, era diferente. Tinha um jeito alegre, as calças jeans com os rasgos nos joelhos, que provocavam suas brincadeiras, ela abandonava suas mãos e abraçava suavemente pelos seus cotovelos, encostando seu rosto nos seus ombros e seguia tagarelando falando sempre de coisas interessantes que vira, ou de algum assunto do momento em que achara alguma graça. Ele ria também, e se sentia conduzido pelo abraço leve, praticamente rindo sozinho, e era uma criança que voltava no tempo.

Márcia tinha um jeito de curiosa e seu olhar se perdia pelos cartazes, pelas pessoas que passavam pela rua, e era de poucas palavras, e prestava atenção a tudo que dizia, concordando com um olhar, não com um sorriso, mas, os brilhos dos olhos demonstravam todo seu afeto. Andando com ela era o centro das atenções, e se julgava o dono do mundo.

Somente as mãos podem dizer tudo o que somos. Na maneira de suar, de sentir calafrios, sentir o leve toque, como de alguém esperado que anuncia sua chegada, bem antes de o rosto aparecer.

Mas, de todas as lembranças que podia recorrer, não era de mãos que se lembrava, mas era quando Ludmila surgiu no meio de uma multidão, se aproximando devagarinho, tentando surpreendê-lo, quando esperava no ponto de encontro. Daquela namorada não era o toque suave dos dedos, mas, o olhar brilhante que se iluminava quando, descoberta, antes da travessura, era com os lábios anunciando rindo quando os olhos achavam o que o seu coração procurava.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Existem livros

Por Nilson Lattari

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Existem livros

Mesmo que em sua estante existam aqueles livros clássicos, de Machado a Eça, dos autores russos, dos americanos, daqueles autores da moda, teóricos deslumbrantes e as suas formas de modificar o mundo, com certeza, tem aquele que você recorre sempre. O meu é um simples livro de poesia de Guilherme de Almeida – Messidor.

Quem foi Guilherme de Almeida não importa, importa que ele me toca todas as vezes que eu o leio, com os seus sonetos simples, perfeitamente rimados, obedecendo a uma cadência que dialoga comigo.

Imagino que muito se cobra da leitura de poetas ou prosadores consagrados, quase que como uma obrigação para fazer sucesso em rodas de conversa, ou mostrar uma intelectualidade. Ler não é isso. Ler é uma forma de prazer que não é universal, mas, particular, e ver o mundo, ou o mundo particular de um poeta entrando na nossa sala.

“Vamos, portanto, como dois estranhos, deixando para trás o nosso ninho! Desmancha ao vento, os caracóis castanhos do teu cabelo, e vai devagarinho”.

É esse vagar, bem devagarinho que me acalma. Não há um compromisso em achar o tal: o que o poeta quis dizer. Aliás, quando alguém sugere isso em uma conversa, eu me pergunto se não é por demais pretensioso imaginar o que um ser em alto grau de inspiração quis dizer.

Não é preciso encontrar o que se quis dizer, mas, o importante é entrar no clima do que se diz, imaginar aquele devagarinho entrar no seu pensamento e se deixar levar pelo que o poeta diz, navegando em suas rimas, nos seus encaixes, nos seus finais.

Afinal, a poesia é ou “Era uma história simples e sombria que a minha velha pajem me contava. Eu tinha a graça da inocência – e ouvia; ela, o encanto dos velhos – e falava”.

Me inspiro sempre nas poesias, quando alguma ideia me ataca e ela não se verbaliza, e quando não entendo o mundo recorro aos livros, pensamentos de outros, que viveram uma vida de atropelos, de aventuras e de conhecimento de outras terras, ou habita em pensamentos. Transformo em poesia, para deglutir o mundo, copiando e me inspirando em poetas, para que mais tarde ele diga o que finalmente eu quero dizer.

Ao mesmo tempo, me realizo e busco ideias nos versos dos poetas, e tento imaginar o que eu poderia dizer a partir daquilo que ele diz.

Quando estou cansado da leitura, e tento conversar com o mundo, entendê-lo, amá-lo, ou simplesmente ouvi-lo, através de outros, me abraço com Guilherme de Almeida, mesmo quando alguém me diz: Guilherme, quem?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Dormir com ela

Por Nilson Lattari.

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Não consigo passar a noite sem ela, eu juro, ao dizer isso. Quando a escuridão da noite se aproxima eu penso na próxima etapa, e ainda com os olhos arregalados eu olho através do negror da cortina que desaba no quarto, e tento enxergar, descobrir, como ela virá vestida.

Temos uma senha, ou algo assim. Primeiro fecho os olhos e imagino um lugar qualquer, desses que ficaram perdidos no tempo passado, e resolvo dar um rumo, um novo roteiro na minha vida que seria no futuro.

Amante qual seria? A profissão, qual eu teria? E o que resolveria estudar, tentando uma outra formação, outra informação, dessas que já temos no futuro, e a transportamos para o passado de então.

Pronto. A cama já está feita e ela, bem ao meu lado, se deita. Começamos então a colocar pedra sobre pedra, elaborando caminhos, e… Ah! É claro! Os diálogos são perfeitos e encadeados, e o ouvido, enfim, ouve aquilo que deixou de ser dito, na hora devida, o sim e o não, sob o devido controle, colocam as coisas no devido eixo, e assim vai seguindo o mundo, em um caminho paralelo, sem desleixo.

Algo é murmurado, e claro, refazemos todo o trajeto, começamos do jeito que se quer, para que toda a caminhada chegue ao rumo certo. Aquele elogio que deveria ter sido dito, na mesma hora ganha vida, o beijo que ficou preso se expande e ganha ares de amante, ele é quente, mais amadurecido, mais prensado, nenhuma daquelas bobagens que foram ditas, na forma e na hora errada, Deus me livre, são logo abandonadas e fica aquele dito por não dito.

Realmente, somente com ela ao lado, a felicidade existe. O mundo? Ah! O mundo é bem diferente, para os outros é claro, que não fazem parte daquele círculo! Mas para os próximos, não, não, tudo fica diferente, harmonioso, e os momentos tristes são devidamente evitados.

As maravilhas correm a mil. Nos abraçamos e ficamos ali juntinhos, pensando, no murmurinho das vozes, a dizer coisas doces um para o outro. Que mundo, então, passa a existir, o sono chega, e quem sabe nos sonhos eles, aqueles momentos, não continuarão!

Antes que o dia ilumine pela janela, e ainda torcendo que se anuncie o som do rouxinol e não da cotovia, os olhos, ainda adormecidos, aos ouvidos chegando outros sons, tentam perdurar mais um pouco a pouca escuridão. Ela vai se embora, saindo de mansinho, abandonando o nosso ninho, essa louca imaginação.

E vem depois aquele desânimo, que desencadeia por dentro de nós, uma realidade crua e iluminada, deixando na mente bem marcada, se perguntando, como uma cicatriz: Meu Deus, por que não foi assim que eu fiz?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação..

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Artigos

Um amor de borboleta…

Por Carlos R. Ticiano.

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Dia desses ao entrar em um supermercado, passei pelo setor de jardinagem, que fica logo na entrada. Diante de tantas flores e principalmente de rosas, meu pensamento inevitavelmente voou no tempo e no espaço, levando-me exatamente para aquela semana, em que nos conhecemos: 1976 o ano! Julho o mês! 12 o dia!…

Uma semana depois, dia 19, lá estava eu em uma floricultura, para enviar-lhe rosas com um cartãozinho que dizia a seguinte frase: Hoje faz uma semana, que conheci a garota mais bacana do mundo! Vivemos então, um grande e inesquecível amor. Digno de uma história romântica, dessas que assistimos diariamente nas novelas. Até o dia em que decidimos separarmos e seguir caminhos opostos.

O tempo passou e nunca mais tivemos a oportunidade de reencontrarmos. Uma carta, um bilhete, um telefonema, uma notícia… Nada! Nem um sinal de vida! Até parece que uma tempestade tropical, abateu o barquinho de papel, que levava o nosso amor pelos infinitos oceanos da vida.

Agora você surge do nada, vem ao meu encontro e pousa em meu braço, como que querendo fazer-me companhia e dizer alguma coisa. Fiquei pensando e tentando entender o que estava acontecendo, mas como aceitar o fato, se humanamente falando é impossível.

Você pode até dizer que não era você. Mas diante deste fato inusitado e inexplicável, eu apenas conseguia admirá-la, sem poder fazer um carinho, abraçá-la e beijá-la como antigamente. Até pensei em levá-la comigo, para tê-la para sempre do meu lado. Mas como realizar tal proeza, se você era apenas uma simples, frágil e bela borboleta.

Mesmo não querendo, não tive outra opção a não ser deixá-la em um vaso de flores, na entrada do supermercado. Fui andando e olhando para trás até o carro e sai dirigindo e olhando o tempo todo pelo retrovisor, para ver se ainda conseguia visualizá-la.

Em casa, deitado no sofá, não conseguia tirar da cabeça todo aquele episódio. Acabei adormecendo e sonhando com você. Um sonho lindo, onde você aparecia em meio a um jardim todo florido. E segurando em minhas mãos dizia: Continue guardando todas as recordações. Eu sei que você não me esqueceu, da mesma forma, que eu também não lhe esqueci. Mas agora, estou vivendo em um plano apenas espiritual.

Quanto á borboleta que lhe abordou, você não estava enganado, era eu sim. Foi á forma que eu encontrei para estar com você, principalmente nesta época do ano, em que nos conhecemos e que você não se esquece de recordar. O seu pensamento, de forma involuntária me chamou. Por isso, fui ao seu encontro, em forma de uma borboleta.

Foi bom estar com você! Mas não se preocupe! Um dia nos reencontraremos e vamos ficar juntos para sempre. Não se esqueça! O amor é eterno!…

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