Guloseimas e infância

Por Nilson Lattari.

O garoto entrou na loja, praticamente puxando o pai pelo braço, e com o dedo em riste apontava para as bolas de vidro recheadas de balas, com invólucros coloridos. O pai, pacientemente, perguntava o preço ao vendedor e o menino se extasiava com a enxurrada de coloridos que encheram suas mãos.

Balas e crianças combinam com perfeição. As balas são, talvez, aquelas que mais lembram a infância, a boca sedenta de açúcar sem importar com as advertências da mãe, quanto às cáries que tanto choro vai custar depois.

Eu não fujo disso, tenho as minhas cáries, ainda, quem sabe, daqueles tempos em que os açúcares inundavam a minha boca também sedenta. Até hoje, ainda recorro a elas; sendo a minha preferência aquelas de iogurtes, oferecidas como brindes em restaurantes, bem baratinhas.

Mas, a maior lembrança é do doce de abóbora, da mariola, da maria-mole, e do principal: as balas de tamarindo, envolvidas em um papel branco, como se não tivessem dono, fabricadas artesanalmente.
Hoje, o doce de abóbora ainda se encontra, bem como da mariola, ou doce de goiabada, embaladas industrialmente. Seria por conta da higiene? Todos têm o mesmo tamanho, espessura, não lembrando aquelas que vinham em tamanhos disformes, e que os meus dedos iam apontando para as maiores, as de tamanho mais generosos.

Havia também aquelas gelatinas coloridas, com pedaços de açúcar cristal espalhados, aquela coisa quadradinha, perfeita, ou então os doces de jujuba.

Não sei se os nomes mariola, quebra-queixo, marias-moles, ou o doce de abóbora, que não tinha um nome específico, ainda são referidos dessa forma, ou, simplesmente, as crianças dizem: quero aquele doce, o pretinho, o cor de abóbora, a amarguinha do tamarindo. Apontam com o dedo e querem, e pronto.

Esses doces são lembranças de um tempo antigo, satisfazer as crianças com as guloseimas faz parte de um pouco de infância que trazemos conosco.

Os velhos balcões de madeira e vidro ao contrário do bem comportado pote de acrílico, as embalagens que envolvem os doces, protegendo-os de atores externos, visitantes noturnos das padarias.
Os objetos de desejo, todos têm uma preferência, uma recordação da infância: damos um doce para quem quiser recordar.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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