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Crônicas

Uma história de amor

Por Carlos R. Ticiano.

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Uma história de amor

A tarde começa a cair e num céu amarelado pelos últimos raios de sol, uma gaivota voa silenciosamente em direção ao horizonte. Que parece esconder a realidade sobre este voo solitário, que ela faz todos os dias quando o sol começa a ser pôr, no infinito de um céu misterioso, mesclado por nuvens espessas e obscuras.

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Diante de um mar azul, tendo como companhia apenas a gaivota, vou caminhando pela praia deserta, na expectativa de encontrar as marcas dos seus pés na areia. Mas as ondas, ignorando a minha tristeza, chegam antes e acabam apagando seus passos e a esperança de encontrá-la. Mesmo com um semblante abatido e uma lágrima no rosto, continuo lhe procurando e tentando entender aquele triste adeus, que descoloriu um lindo final de tarde ensolarado.

Até já escrevi nas nuvens que é inimaginável viver sem seu amor; no arco-íris sem seus beijos; na lua sem seu olhar; na aurora boreal sem seus abraços; no vento sem seus carinhos; na garoa sem sua ternura; no sol sem seu sorriso; nos relâmpago sem seu encanto; na chuva sem sua alegria. Mas você não responde!

Com sua partida, a vida para mim, perdeu todos os sentidos, seu olhar ficou ofuscado e sem expressão, seus passos confusos e distantes, seu sorriso enigmático e misterioso, suas palavras sem sentido e evasivas.  A valiosa arca do “tesouro do amor” que juntos descobrimos em alto mar, deixei abandonada na praia junto a uma palmeira, que acenando ao vento com suas folhas, insinuam que você não voltará.

Até já escrevi nos jornais que é indescritível viver sem sua doçura; nos outdoor sem sua simpatia; nos panfletos sem sua delicadeza; nas revistas sem suas fantasias; nos letreiros sem seu entusiasmo; nas faixas sem sua graciosidade; nas placas sem seu carisma; nas redes sociais sem sua amizade. Mas você não responde!   

Mas eu não desisto, e como as ondas do mar, minha esperança vai e volta, pois eu sei que tentar esquecê-la é como aventurar-se tentando atravessar o mar em um pequeno barquinho feito de papel crepom, que mesmo elaborado com muito amor e carinho, não resistirá as suas ondas e acabará naufragando, diante de um mar revolto.

A manhã começa a raiar num céu amarelado pelos primeiros raios de sol. A gaivota retorna de seu voo solitário e eu recomeço a caminhada por toda extensão da praia. Só que sempre sem sonhos, sem esperança, sem destino e sem objetivos, pois quando você caminha com a lua em direção do horizonte, pisa tão leve na areia da praia, que mesmo não tendo ondas, é praticamente impossível visualizar os seus passos.

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Crônicas

O maior de todos os medos

Por Nilson Lattari.

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O maior de todos os medos

O que fazer com nossos medos? Há muitos: medo do futuro, medo das consequências, medo das verdades, das mentiras. Situações que nos põem em alerta, nos fazem temer o que há por vir, nos trazem ansiedade por elas, resolvê-las, superá-las: um desafio, sempre um desafio.

Para cada um deles lidamos de vários modos. Em cada um deles, a nossa decisão, a despeito de acharmos que ela seja nossa, sofre a influência de alguém ou alguma coisa. Caso alguma pessoa seja perguntada sobre alguém que a tenha influenciado na vida, ou simplesmente tenha admiração, a resposta, em sua grande maioria, será a de um professor. Talvez por ser este profissional aquele com quem se tenha contato depois da casa, que nos incutirá responsabilidades, regras. Pode ser também a figura de um grande personagem político, do nosso círculo de amizade ou familiar. A reflexão, porém, é maior.

O professor, assim como a família e outros exemplos, nos ajuda a enfrentar alguns dos nossos medos, quando ensina as leis da física, o alfabeto, a compreensão da escrita, obediência, respeito, juízo de valor. Seguindo as regras, o futuro não fica tão temeroso, pensam eles. Com a orientação de uma família, de uma escola, lições são ministradas, aprendidas; e o medo vai se tornando mais leve. Mas, é, simplesmente, esse medo mundano: de regras.

Não, não falo desse medo ou do outro medo, cuja ausência nos transforma em um ser temerário e inconsequente, herói. O professor nos alerta sobre a obediência a legislações ditadas pela responsabilidade. Ela é um dos motivos que nos leva ao aprisionamento de nossas vontades, do nosso futuro. O professor, a família, a autoridade não são capazes de lidar com um tipo de medo: o medo dos nossos desejos. Este medo que está dentro de nós.

É o medo de romper com as ligações afetivas, sociais, trazidas pela cultura, o exemplo de pais, chefes, figuras religiosas. Esse medo de romper com coisas ditas sagradas, mas não sacralizadas por nós mesmos, herdado de qualquer coisa no subconsciente, dentro das nossas próprias cabeças. Aquele algo bem lá dentro, que conversa conosco a sós, que não é externo, que caminha com a gente o tempo todo.

Esse medo, ninguém nos ensina a conviver e principalmente a romper, para que tenhamos uma real liberdade interna, de pensamentos mais livres e não conectados ao dever, ao direito do outro, ao benefício ou estrago que podemos trazer a alguém. Esse medo de romper com os estratagemas do cumprimento de horários, agendas, compromissos profissionais ou afetivos, humanos, éticos. Elos que nos prendem indefinidamente à responsabilidade com a família, à comunidade, ao companheiro ou companheira, ao dever.

Não está beneficiado em nenhuma matéria obrigatória, preso a qualquer grade curricular e, portanto, ausente de um professor, alguém que nos dirija, passe lições, determinações, silêncios. É uma aula livre, vagabundeando pelo nosso cérebro, sem data e hora para nos atormentar, mostrar que um rompimento é possível, como a aula teórica, mas difícil de demonstrar numa mera aula laboratorial, com experimentação segura ao lado de um professor que interrompa nossas mãos e impeça o movimento errado.

O medo do momento da escolha, do caminho a seguir, quando estamos sós, e o mundo parece parar à espera da nossa decisão, e estamos no debate entre o que foi ensinado e os nossos desejos. Por isso, se diz: cuidado com aquilo que você deseja.

O momento de esse professor ausente aparecer é o momento do amadurecimento. Quando todos os instantes de equívocos, relutâncias acumuladas, entulhadas em nossa existência reclamam o momento de pedir licença e sair da sala de aula. Momento de respirar o ar livre e não tendo mais o giz e a régua do magistério a nos dar regras e determinações, a voz da consciência da coletividade, mas, a nossa; decidir o rumo a tomar. Quando resolvemos encarar esse medo e dar a nós mesmos uma lição de vida. Quando rompemos convenções, paramos de chamar para nós o ser responsável, analisamos friamente os prós e contras e alertamos o professor dentro de nós mesmos, para um momento de escolha só nosso, dos nossos desejos.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Janelas

Por Nilson Lattari

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Querer conhecer o mundo é como abrir janelas. E como as janelas são e estão presentes? Não tão no presente, mas, janelas são portas abertas para o futuro. De uma janela se vê o mundo e nos encantamos com ele e por ela podem nos ver por entre as cortinas quando o vento bate. Por elas entram os assaltantes na busca do ganho fácil, e é de onde se lança aquele que a vida assalta no seu infortúnio, que não consegue labutar na sala de aula da vida.

O escritor lê sua história mirando uma janela desconhecida onde seus personagens tramam, se organizam, e a mente se fecha como os postigos quando encerra o seu trabalho de busca. Nossos olhos são as janelas da alma a descobrir o mundo. E onde o adivinho tenta decifrar o futuro iluminando a escuridão.

Da janela, Rapunzel jogou os seus longos cabelos, e no meio da noite, com pedras, Romeu despertou Julieta. Da janela vê-se o Corcovado, a cidade e seus desencontros. De janelas indiscretas, amantes trocam sinais de segredos e encontros combinados, e olhares furtivos descobrem outros, desfrutam intimidades. Ao fechar as janelas, os amantes finalmente dão vazão às suas paixões, e os maus tramam seus golpes.

No campo, as janelas são abertas para a luz, para o mato, para o cheiro de pasto, nas cidades elas encerram a vida envolta em grades, como a enjaular, definitivamente, a liberdade, ou as grades servem para mostrar ao preso uma meia vida, mostrando o mundo em pedaços.

Das janelas, o final de ano jorra papel picado para festejar os heróis, a volta da democracia, ou jorram objetos contundentes, são ombros para armas, na busca da vitória, ou atentados.

Nas despedidas, as janelas se enchem de mãos que se abrem desejando uma volta breve e cheia de felicidade. Na chegada, são as primeiras a serem vistas quando a casa pontilha ao longe.

São aquelas que identificam o lar, o ninho dos amantes com gerânios vermelhos a decorá-las, são o primeiro móvel de um casebre, depois de se cruzar a porta, como a dizer que aquele pedaço de chão é nosso, e que daquela trincheira vamos nos defender do mundo, com os cotovelos apoiados a amparar o rosto cheio de esperanças.

Quando a vida nos fecha as portas das oportunidades, das esperanças e das batalhas, é Deus que nos abre janelas para a fuga, para as alternativas.

Das janelas o mal educado lança o lixo, um rosto aparece alegremente, e a luz anuncia a presença de gente. Por elas, a luz azulada da televisão avisa a hora da novela, e é para onde as pessoas olham quando recebem uma notícia ruim, como a pedir ao céu um pouco de consolo. E por onde saem os primeiros sinais de fumaça de um incêndio, e alguém tenta em última instância um pedido de socorro.

Falar em janela, todo o tempo, é uma obsessão. Nenhuma casa pode prescindir de uma janela, do contrário é uma solidão.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Enfrentando o inimigo

Por Nilson Lattari.

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Enfrentando o inimigo

Enfrentamos muitos inimigos em nosso cotidiano, e ao longo da vida. Enfrentamos a possibilidade de perder o emprego, de não passar naquela prova crucial e definidora do futuro, da perda do amor de outro alguém, da saúde, da segurança e, portanto, da liberdade. Todos esses inimigos funcionam como uma tropa de assalto, perseguindo a todos, indistintamente, por qualquer motivação.

Não que estes inimigos tenham sido construídos por inimizade ou fruto de mal entendido, não é isso. Eles são inimigos naturais decorrentes do nosso estilo de vida.

Eles são satélites periféricos do inimigo que nos assombra, que jaz escondido, e que mostra a sua cara quando o controle sobre nós mesmos se instala.

É o inimigo interno o mais voraz, o mais destrutivo, aquele que cultivamos ao longo dos anos, decorrentes das derrotas, as mesmas derrotas, da luta contra o desemprego, contra as questões que não conseguimos resolver e nos daria o futuro desejado, do concurso tão aguardado, da rejeição da pessoa amada, da má sorte em ter uma deficiência qualquer, que nos impede a liberdade, o direito de ir e vir, de frequentar todos os lugares que queiramos.

Ele jaz adormecido e floresce nos desencantos, na má formação cultural, no desprezo social pela nossa origem humilde, na luta desigual das forças que se equilibram, tenuemente, na convivência em sociedade.

Ele floresce na raiva que sentimos por não conseguir a vitória que o outro obteve, quando somos preteridos na promoção, ou somos escolhidos como a vítima para ser deslocada do emprego que queremos, esbarramos na falta de desejo do ser amado, quando não conseguimos a vantagem intelectual que o outro consegue, e somos colocados na impossibilidade de seguir o caminho desejado.

Ele aparece no desgosto, no despreparo em não aceitar a derrota, que é dimensionada pela exata amplidão que damos aos seres vitoriosos, quando escolhemos o outro como culpado pelo que não conseguimos, culpamos o outro, sem nem ele saber o porquê, por habitar nossos espaços, sem obedecer aos nossos discursos, que imaginamos serem os verdadeiros e importantes, nos transforma no conhecedor do único caminho possível.

E mais ainda quando o mundo parece conspirar, e entramos no círculo descendente, e nos inconformamos, mas tão necessário para uma retomada mais criativa e equilibrada, até porque este inimigo não nos deixa abrir mão de nada para o bem comum, e ele se disfarça no egoísmo, e deságua no desprezo pelas roupas do outro, pelo andar do outro, pelo outro ocupar os espaços “nossos”, com seus comportamentos desprezados por nós.

Se derrotássemos este inimigo interno, possivelmente a tropa periférica da qual faz parte não existira, e o mundo seria mais amistoso.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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