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Crônicas

Eu sei que dá medo

Por Nilson Lattari.

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Quando lemos, ouvimos, conversamos com aqueles que divergem da atual política, da atual situação, sentimos medo, eu sei, das argumentações que nos parecem tão precisas, cortantes, de que a opção pela política social é errada. Principalmente daqueles que receberam o peixe até ficar bem grandinhos, mas mandam para os outros que devam aprender a pescar. E, nessa questão do peixe, também podemos incluir uma cabeça melhor para os estudos, uma família razoavelmente organizada, não desestruturada, com pais omissos, mães solteiras etc.

Será que estamos errados? Que o mundo deva funcionar com a livre iniciativa, lições de grandes homens, capitães de indústrias, aqueles que tiveram sucesso empresarial e que, portanto, estão a cavaleiro para demonstrar as grandes oportunidades?

O que são histórias de sucesso, de tanto sucesso que podem subir nas tribunas e dar lições de moral a todos?

Se vários funcionários de grandes empresas, de pequenos empresários, que alcançam o sucesso funcionam por que não tentarmos todos a livre iniciativa, livres dos empregos públicos, das estatais?

Na verdade, dos vários funcionários que chegam à presidência, ou ao sucesso nos negócios, contamos uma centena, talvez milhares que não chegam. Simplesmente porque uma simples conta matemática resolve: só existe um presidente em cada empresa, e só existe um ou poucos empresários que acham o seu nicho de mercado. Não se enganem, uma questão de sorte ou azar, contadas em prosa e verso como fórmulas perfeitas, mas não copiáveis. Caso isso fosse verdade, seria somente copiar e comemorar.

Talvez a história, a verdadeira história seja aquela que os derrotados tenham para contar. Ninguém liga para os motivos que alguém foi derrotado, mas, ali estão as lições do como não fazer.

Relatar grandes feitos de grandes homens não é vantagem nenhuma, é contar simplesmente a História. Mais valeram as grandes derrotas e as grandes decepções e as comemorações longe dos holofotes daqueles que deram força ao grande nome. Ninguém é dono da História, e também ninguém é suficientemente grande para determinar a um povo qual o caminho que deva escolher.

Portanto, o discurso é apontar a falha do outro, comparando com o seu sucesso, que é individual, de si mesmo, e não se pode a partir dele determinar a todo um povo que somente exista uma vontade, um caminho determinado.

Citam, muitas vezes, Maquiavel, um manual de embuste que tenta dar ares de moralidade a uma imoralidade política que é um tirano, assim como o Contrato Social que não passou de uma maneira de organizar a sociedade para que tudo seja “bom para os negócios”. Ou a uma bem-vinda organização matemática cartesiana.

Todorov, em sua Conquista da América – a visão do outro, define muito bem quando os espanhóis chegam ao continente e encontram um povo que não tem como princípio de vida “o que eu quero ser”, libelo de uma sociedade organizada para que haja vencedores, mas um povo que consultava oráculos para que seus rebentos soubessem o que eles “deveriam ser”, a partir de um adivinho. E era uma sociedade que funcionava, apesar dos sacrifícios humanos, que eram numericamente inferiores ao massacre que sofreram dos conquistadores, por motivos bestiais e desumanos.

Medo do outro discurso? Eu acho que não. Como se pode ter medo de um discurso que prega a natureza humana dividida como o reino animal onde existem as águias e as formigas, o leão e o lobo? Um discurso que esquece que somos todos iguais, baseados no primeiro Contrato Social: os Dez Mandamentos.

Essa sociedade, finamente organizada, matematicamente predestinada a colocar cada um no seu lugar, se esconde atrás do discurso do medo, esse sim um discurso difuso e covarde.

É difícil nos desprender deste temor. Afinal foram séculos de raciocínio na base da razão, do custo e benefício, do vestir a camisa, trabalhar em equipe. Os pretensos donos da verdade têm medo de que a dispersão desse discurso torne cada um de nós provedor de nós mesmos, e a competição real nos iguale, e alguns discursos de vitoriosos se transformem em vitórias de Pirro, expostos à concorrência e reduzidos da genialidade à mediocridade.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Artigos

La belle Catherine…

Por Carlos R. Ticiano.

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La belle Catherine...

Tarde de sábado, andando pelos corredores do shopping, Thiago resolveu sentar-se em um banco. Do seu lado, sentou-se uma jovem muito bonita, saboreando um sorvete de pistache. Não resistindo à exuberante beleza feminina, que envolviam e hipnotizavam seus olhos, não se conteve, e olhando a novamente, perguntou: Oi! Tudo bem?

Para sua surpresa, com um belo sorriso no rosto e um atraente sotaque francês respondeu: Ça va, et toi? (Tudo bem, e você?) Diante de tal reação, mesmo não entendendo fluentemente francês, não se conteve e respondeu: Ça va! (Tudo bem!). Continuando o diálogo indagou: Qual o seu nome? Je m’appelle Catherine! (Meu nome é Catherine!) Você fala francês?…

Sorrindo ela respondeu: Je suis française (Eu sou francesa) e estou no Brasil fazendo um estágio pela Aliança Francesa (Fondation Alliance Française), na Embaixada Francesa no Brasil. Thiago, admirado não só com sua beleza, mas também pela oportunidade de redescobrir-se no amor, sentiu algo diferente por aquela francesinha.

Conversa vai, conversa vem, surgiu de forma inesperada o assunto sobre jogo de boliche. Catherine confidenciou que não sabia jogar, mas tinha vontade de aprender. Thiago respondeu que também não sabia, mas tinha curiosidade de saber como eram suas regras. No segundo andar do shopping tem um Clube de Boliche! Catherine não pensou duas vezes: Jouons au bowling? (Vamos jogar boliche?)

Como se fossem um casal de jovens enamorados, lá foram eles. Na recepção, receberam toda informação necessária a respeito do jogo. Só que para quem nunca jogou boliche, apenas a teoria não foi suficiente. Pegar na bola com os dedos polegar, médio e anelar em seus três furos foi uma dificuldade. Atirar a bola em direção dos pinos uma aventura. Fazer um strike então uma missão impossível.

De certo mesmo, apenas a descontração, as risadas e as brincadeiras durante todo tempo em que jogaram. Saindo do boliche, Thiago a convidou para tomar um café, em uma Bombonière que tinha na praça de alimentação. Trocando olhares apaixonados e com medo de nunca mais se encontrarem e não ficarem juntos ao final do estágio, Catherine perguntou: Tu ne veux pas voyager avec moi? (Você não quer viajar comigo?) Num francês abrasileirado, Thiago respondeu: Conhecer Paris, o Arco do Triunfo, o Rio Sena e a Torre Eiffel com você?… Paris! C’est parti! (Paris! Aí vamos nós!)

Assim, uma paquera “à la française”, que teve início de forma despretensiosa, tendo apenas como testemunha um delicioso sorvete, um inesquecível jogo de boliche e um adorável café, provavelmente se transformará em um poético romance. Com a possibilidade de um pedido de casamento no alto da Torre Eiffel, saboreando desta vez a dois, um gostoso sorvete de pistache…

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Crônicas

Onde está a alma gêmea

Por Nilson Lattari.

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Onde está a alma gêmea

A alma é gêmea, parecida, tem semelhanças, mas, não é igual, não é cópia, papel carbono, com as mesmas ideias, nem mesmo com a mesma força de amar. Nenhuma alma é gêmea, e nem por isso não existe, nem mesmo subsiste na nossa forma de pensar, porque não é o reflexo de um espelho do destino, nem mesmo está esperando a nossa chegada, a nossa entrada repentina em um bar, em uma virada de esquina, ou no apresentar de alguém.

Gêmeos são duplicados, mas, diferentes, nascidos em tempos entre si, distantes, mesmo que infinitesimais. Possuem gostos diferentes, pelas cores, pelas roupas, pelos brinquedos. E nem sempre formam um par equidistante, formal, que se completa, que se deva viver sempre próximo, colado, pregado, dividindo coisas em comum.

Não se procura uma alma gêmea, até porque sendo alma, inerte, feita de luz, imaginária, as almas não se procuram, porque são almas, puras e não viventes do viver físico.

Almas gêmeas são figuras físicas, podendo ser um amigo, uma amiga, um companheiro momentâneo de viagem, um conhecido que nos faça rir, um encontro em uma fila, um bate-papo informal. E como almas são assim, fugazes, momentâneas, podem se dar por um dia ou por toda a vida, nada além da eternidade, e na eternidade quem sabe, as almas sejam gêmeas, de verdade.

Quem procura almas gêmeas encontra infelicidade, e não percebem que as almas gêmeas vêm em nosso socorro sem que saibamos. No desconhecido que nos ajuda em um escorregar na calçada, no vizinho que acode nossos gritos, naquele que nos cede um lugar, ou nos oferece uma ajuda sem pensar, apenas com o prazer, este de alma, de nos ajudar.

É muitas vezes o amigo que para, para nos ouvir, consolar, indicar caminhos, e depois de algum tempo, ele some, se esconde no seu endereço, nunca mais é solicitado, e guardamos dele o endereço, o telefone e, algumas vezes, a saudade, e nos faz pensar: o que aquele anjo que nos guardou faz agora?

Não se procura a alma gêmea como a felicidade. Não encontramos a felicidade, ela nos encontra, nos momentos de sorte, de alegria, como devem ser os momentos de felicidade, surpresos, não cotidianos. Na alegria do primeiro beijo, do primeiro encontro, na troca de olhares, do aperto de mão entusiasmado e no abraço que concedemos sem vergonha, no meio da rua, apenas externando que a alma gêmea está ali, agora, e, de repente, não encontraremos mais, e encontraremos outras almas; igualzinho à felicidade.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Uma história de amor

Por Carlos R. Ticiano.

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Uma história de amor

A tarde começa a cair e num céu amarelado pelos últimos raios de sol, uma gaivota voa silenciosamente em direção ao horizonte. Que parece esconder a realidade sobre este voo solitário, que ela faz todos os dias quando o sol começa a ser pôr, no infinito de um céu misterioso, mesclado por nuvens espessas e obscuras.

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Diante de um mar azul, tendo como companhia apenas a gaivota, vou caminhando pela praia deserta, na expectativa de encontrar as marcas dos seus pés na areia. Mas as ondas, ignorando a minha tristeza, chegam antes e acabam apagando seus passos e a esperança de encontrá-la. Mesmo com um semblante abatido e uma lágrima no rosto, continuo lhe procurando e tentando entender aquele triste adeus, que descoloriu um lindo final de tarde ensolarado.

Até já escrevi nas nuvens que é inimaginável viver sem seu amor; no arco-íris sem seus beijos; na lua sem seu olhar; na aurora boreal sem seus abraços; no vento sem seus carinhos; na garoa sem sua ternura; no sol sem seu sorriso; nos relâmpago sem seu encanto; na chuva sem sua alegria. Mas você não responde!

Com sua partida, a vida para mim, perdeu todos os sentidos, seu olhar ficou ofuscado e sem expressão, seus passos confusos e distantes, seu sorriso enigmático e misterioso, suas palavras sem sentido e evasivas.  A valiosa arca do “tesouro do amor” que juntos descobrimos em alto mar, deixei abandonada na praia junto a uma palmeira, que acenando ao vento com suas folhas, insinuam que você não voltará.

Até já escrevi nos jornais que é indescritível viver sem sua doçura; nos outdoor sem sua simpatia; nos panfletos sem sua delicadeza; nas revistas sem suas fantasias; nos letreiros sem seu entusiasmo; nas faixas sem sua graciosidade; nas placas sem seu carisma; nas redes sociais sem sua amizade. Mas você não responde!   

Mas eu não desisto, e como as ondas do mar, minha esperança vai e volta, pois eu sei que tentar esquecê-la é como aventurar-se tentando atravessar o mar em um pequeno barquinho feito de papel crepom, que mesmo elaborado com muito amor e carinho, não resistirá as suas ondas e acabará naufragando, diante de um mar revolto.

A manhã começa a raiar num céu amarelado pelos primeiros raios de sol. A gaivota retorna de seu voo solitário e eu recomeço a caminhada por toda extensão da praia. Só que sempre sem sonhos, sem esperança, sem destino e sem objetivos, pois quando você caminha com a lua em direção do horizonte, pisa tão leve na areia da praia, que mesmo não tendo ondas, é praticamente impossível visualizar os seus passos.

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