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Crônicas

Revisitando o passado…

Por Carlos R. Ticiano.

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Revisitando o passado...

Com receio, ele foi chegando e abrindo o portão lentamente, na esperança de encontrar Carol em casa. Duas palmeiras, como que brincando com suas folhas ao vento, observava-o discretamente. Diante de uma pequena escada, foi subindo até a entrada da porta. Ao abri-la, além de não encontrá-la, deparou-se com um emaranhado de sentimentos, que o remeterão a um labirinto de saudades, emoções e tristeza.

Na sala, um sofá de tecido suede cinza e sobre ele, um jornal na página do horóscopo. Um tapete com listras coloridas, um revisteiro de vime com diversas revistas e um rack padrão rústico, com alguns objetos de decoração. Entre eles, a réplica do Farol da Barra e da Estátua da Liberdade. Além de um porta-retrato com a foto de Carol sorrindo. Na parede, próximo da porta um relógio dupla face modelo estação de trem.

Na cozinha, uma geladeira e seu inseparável pinguim, um fogão com um guardanapo dependurado no puxador e uma mesa de granito quadrada com cadeiras de pés palito, contendo um bule térmico, duas xícaras coloridas e um açucareiro. Um armário de cozinha com portas de vidro transparente, onde era possível visualizar vários utensílios domésticos. Na parede um quadro com a frase: Inspiração, fé e um bom café!

No quarto, uma cama por arrumar e um guarda-roupa com roupas e calçados da Carol. Um criado-mudo com um abajur e um rádio retrô. Uma escrivaninha com uma máquina de escrever, vários livros espalhados e numa das gavetas, um bilhetinho com a letra de Carol e uma caixinha de musica, que não teve coragem de tocá-los. Do lado, uma lixeira de aramado com vários papéis amassados, provavelmente de algumas poesias não concluídas.

No sótão, um relógio cuco parado no tempo, do lado um quadro com a foto da cidade de Nova York. Uma mesinha de canto com um vaso de flores artificiais, sobre uma toalhinha de crochê. Um mancebo com o casaco, a bolsa, o lenço e o echarpe, que Carol usava diariamente. Uma poltrona revestida com tecido florido, ainda decorava o ambiente.

Voltando, passou por uma janela envidraçada com vista para o quintal. Afastando a cortina rendada, pode visualizar um bonito e florido jardim, que hoje não passa de flores murchas e secas pelo tempo. Um banco descorado pela chuva e pelo sol, onde costumavam ficar namorando. Perdido entre tantas lembranças teve a sensação de ter Carol por perto.

Seu pensamento neste instante viajou, fazendo lembrar-se de coisas, que na realidade nunca esquecera. Como dos seus beijos, seus abraços, seu sorriso, seu perfume e do seu olhar a espera de um chamego. Ao perceber que não iria resistir e que iria chorar, escreveu sobre um espelho empoeirado, acima do aparador, seu nome junto ao dela.

Pensando novamente em tudo que existiu entre eles, e na dúvida em saber se era tudo realidade ou fruto da sua imaginação, saiu e trancou para sempre a porta de um passado que deixou marcas tão profundas, que seu coração jamais amou outra mulher. Carol foi única! Carol é insubstituível! Carol será inesquecível!…  Au revoir mon cher!…

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Crônicas

De um leitor aprendiz

Por Nilson Lattari.

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De um leitor aprendiz

Minha mãe foi a responsável: foi aquela que me alfabetizou. A primeira lembrança de contato com as letras, da qual me lembro, foi corrigir um feirante que escrevera xuxu, em vez de chuchu. A segunda, quando minha mãe cobria o chão da cozinha, que acabara de limpar, com os jornais velhos que guardava; eu me acocorava e lia as manchetes.

O leitor foi se formando assim, no mundo mágico das palavras, e a construção do discurso foi como uma marcenaria de grafismos, uma obra de arte de lápis, papel e letras, imagens construídas na imaginação.

Hoje, compreendo que ler vai além disso. Não basta o contato com as palavras. E somente uma delas, dentre tantas outras, pode funcionar, para o bem ou para o mal, e nos levar à emoção.

A emoção vem da simples coleta da informação, como a leitura para embasamento de uma argumentação futura, da busca pelas fontes que nos pareçam dignas, mais afeitas a embalar corações e mentes em um discurso único, uniforme, e nesse caso doutrinador, ou meramente para fornecer dados aos carentes de discursos que buscam armas de outros para argumentar, para aqueles preguiçosos na arte de ler e interpretar, até o sujeito que, a partir dela, se propõe a revolucionar a si mesmo e ao mundo.

Interpretar não é se emocionar, um gesto mecânico, mas se emocionar ou não com aquilo que interpretamos, imaginamos, é um gesto de envolvimento; mesmo que a falta de emoção também seja contagiante. Portanto, a função emocionar existe sempre. Ler e interpretar é colocar as nossas vivências, a nossa cultura, o nosso discurso familiar contra as palavras que aparecem no mundo a querer impor vontades.

A ordem das palavras altera o discurso, acreditem. Muitas vezes a arte da palavra é uma forma de condução. Ler o discurso habitual, familiar, de fontes amigas é confortante, mas, ler o não habitual, “inimigo”, é, antes de tudo, o confronto com nossos confortos.

Menino, lia de cócoras os discursos, as palavras, hoje, leio de pé, altivo, e preparado para desafiar minhas leituras. Muitas vezes, também como o combatente que precisa de conforto e procura fontes amigas, como o religioso que procura seus livros sagrados, como os desconfortados que procuram a ajuda, a autoajuda.

No entanto, o olhar que procura as palavras, também deve procurar o que se vê, o que se ouve, o silêncio e o barulho das ruas.

No mundo de hoje, conturbado, nossas leituras devem ir além do limite dos papéis, das postagens digestivas das redes sociais, como se compartilhar e curtir fossem leituras.

Afinal, o que está acontecendo, hoje, para você interpretar vai se limitar a consultar fontes amigas e confortantes, ou você deve se propor ao desconforto e abandonar a segurança do barco e aprender a nadar?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Das tripas, um coração

Por Nilson Lattari.

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É com um coração que tiramos das adversidades a coragem de continuar. Se tudo aquilo que temos é o infortúnio e adversidade para enfrentar, não poderemos nunca encará-las, se não tivermos um coração para colocar na frente e avançar.

O coração do ser humano é um terreno de solidão onde ninguém, a não ser seu dono, pode penetrar, invadir, perguntar, se sentir acolhido. O terreno da solidão é árido. E como dois viajantes que vagam pelo deserto, o coração e seu dono vão se satisfazer nas lágrimas, oásis de banhos de tristezas e alegrias, em busca das miragens que oscilam na penumbra da noite, ou no recolhimento da casa, se perguntando onde foi o erro, e, identificado, os porquês tão angustiantes que assomam a nossa consciência.

Louco é o coração que vagueia pela noite em busca de um amor inconsequente, ou que se esconde nas sombras para poder vislumbrar a sombra do perfil amado que se exibe na janela iluminada. Louco é o seu dono que leva o companheiro da solidão pelas escaladas da aventura, na busca de um amor incerto.

Se o coração não suporta mais a adversidade, é o guerreiro com tenacidade que tece outros corações, vindo de outras partes do corpo, e mesmo nas tripas encontra força para que ele exista.

Sofre o corpo de um coração aventureiro que dá ao corpo as dores reais que ele apenas sente como um arranhão na pele. Indiferente continua a maltratá-lo, porque é do amor ausente que ele se alimenta, enquanto o corpo definha lentamente.

No corpo, o coração é o único órgão que fala, batendo sempre como um código indecifrável, e que transmite apenas emoções, quando acelera, dispara, ou quando, lentamente, vai diminuindo sua ansiedade, dando ao corpo a oportunidade de pensar e agir, enquanto os outros somente a dor acusa sua presença.

Se das tripas construímos um coração, a ele depois damos vida humana, quando quase sai pela boca, ou aos pulos parece que vai explodir quando se prepara para a notícia por longo tempo esperada.

Coração de pedra, coração de anjo, coração de gelo, coração de criança, coração de ouro, quantos nomes damos a ele, e, no entanto, nenhum deles pode lhe nomear, o coração é inconstante, e muda de nome diante de cada momento que vive, e se se despedaça é nas tripas que vamos encontrá-lo.

Mesmo que nomes tenha, sejam para o bem ou para o mal, todos são afetos que sentimos e damos aos outros, e se damos, a afeição é um feito revolucionário. A ela não podemos ficar indiferentes; ou mudamos, ou as circunstâncias nos farão mudar. Abandonamos nosso mundo de conforto, e para enfrentar o mundo novo é preciso buscar um coração onde estiver, mesmo nas tripas do ditado popular.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

O maior de todos os medos

Por Nilson Lattari.

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O maior de todos os medos

O que fazer com nossos medos? Há muitos: medo do futuro, medo das consequências, medo das verdades, das mentiras. Situações que nos põem em alerta, nos fazem temer o que há por vir, nos trazem ansiedade por elas, resolvê-las, superá-las: um desafio, sempre um desafio.

Para cada um deles lidamos de vários modos. Em cada um deles, a nossa decisão, a despeito de acharmos que ela seja nossa, sofre a influência de alguém ou alguma coisa. Caso alguma pessoa seja perguntada sobre alguém que a tenha influenciado na vida, ou simplesmente tenha admiração, a resposta, em sua grande maioria, será a de um professor. Talvez por ser este profissional aquele com quem se tenha contato depois da casa, que nos incutirá responsabilidades, regras. Pode ser também a figura de um grande personagem político, do nosso círculo de amizade ou familiar. A reflexão, porém, é maior.

O professor, assim como a família e outros exemplos, nos ajuda a enfrentar alguns dos nossos medos, quando ensina as leis da física, o alfabeto, a compreensão da escrita, obediência, respeito, juízo de valor. Seguindo as regras, o futuro não fica tão temeroso, pensam eles. Com a orientação de uma família, de uma escola, lições são ministradas, aprendidas; e o medo vai se tornando mais leve. Mas, é, simplesmente, esse medo mundano: de regras.

Não, não falo desse medo ou do outro medo, cuja ausência nos transforma em um ser temerário e inconsequente, herói. O professor nos alerta sobre a obediência a legislações ditadas pela responsabilidade. Ela é um dos motivos que nos leva ao aprisionamento de nossas vontades, do nosso futuro. O professor, a família, a autoridade não são capazes de lidar com um tipo de medo: o medo dos nossos desejos. Este medo que está dentro de nós.

É o medo de romper com as ligações afetivas, sociais, trazidas pela cultura, o exemplo de pais, chefes, figuras religiosas. Esse medo de romper com coisas ditas sagradas, mas não sacralizadas por nós mesmos, herdado de qualquer coisa no subconsciente, dentro das nossas próprias cabeças. Aquele algo bem lá dentro, que conversa conosco a sós, que não é externo, que caminha com a gente o tempo todo.

Esse medo, ninguém nos ensina a conviver e principalmente a romper, para que tenhamos uma real liberdade interna, de pensamentos mais livres e não conectados ao dever, ao direito do outro, ao benefício ou estrago que podemos trazer a alguém. Esse medo de romper com os estratagemas do cumprimento de horários, agendas, compromissos profissionais ou afetivos, humanos, éticos. Elos que nos prendem indefinidamente à responsabilidade com a família, à comunidade, ao companheiro ou companheira, ao dever.

Não está beneficiado em nenhuma matéria obrigatória, preso a qualquer grade curricular e, portanto, ausente de um professor, alguém que nos dirija, passe lições, determinações, silêncios. É uma aula livre, vagabundeando pelo nosso cérebro, sem data e hora para nos atormentar, mostrar que um rompimento é possível, como a aula teórica, mas difícil de demonstrar numa mera aula laboratorial, com experimentação segura ao lado de um professor que interrompa nossas mãos e impeça o movimento errado.

O medo do momento da escolha, do caminho a seguir, quando estamos sós, e o mundo parece parar à espera da nossa decisão, e estamos no debate entre o que foi ensinado e os nossos desejos. Por isso, se diz: cuidado com aquilo que você deseja.

O momento de esse professor ausente aparecer é o momento do amadurecimento. Quando todos os instantes de equívocos, relutâncias acumuladas, entulhadas em nossa existência reclamam o momento de pedir licença e sair da sala de aula. Momento de respirar o ar livre e não tendo mais o giz e a régua do magistério a nos dar regras e determinações, a voz da consciência da coletividade, mas, a nossa; decidir o rumo a tomar. Quando resolvemos encarar esse medo e dar a nós mesmos uma lição de vida. Quando rompemos convenções, paramos de chamar para nós o ser responsável, analisamos friamente os prós e contras e alertamos o professor dentro de nós mesmos, para um momento de escolha só nosso, dos nossos desejos.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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