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Crônicas

Enfrentando o inimigo

Por Nilson Lattari.

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566

Enfrentando o inimigo

Enfrentamos muitos inimigos em nosso cotidiano, e ao longo da vida. Enfrentamos a possibilidade de perder o emprego, de não passar naquela prova crucial e definidora do futuro, da perda do amor de outro alguém, da saúde, da segurança e, portanto, da liberdade. Todos esses inimigos funcionam como uma tropa de assalto, perseguindo a todos, indistintamente, por qualquer motivação.

Não que estes inimigos tenham sido construídos por inimizade ou fruto de mal entendido, não é isso. Eles são inimigos naturais decorrentes do nosso estilo de vida.

Eles são satélites periféricos do inimigo que nos assombra, que jaz escondido, e que mostra a sua cara quando o controle sobre nós mesmos se instala.

É o inimigo interno o mais voraz, o mais destrutivo, aquele que cultivamos ao longo dos anos, decorrentes das derrotas, as mesmas derrotas, da luta contra o desemprego, contra as questões que não conseguimos resolver e nos daria o futuro desejado, do concurso tão aguardado, da rejeição da pessoa amada, da má sorte em ter uma deficiência qualquer, que nos impede a liberdade, o direito de ir e vir, de frequentar todos os lugares que queiramos.

Ele jaz adormecido e floresce nos desencantos, na má formação cultural, no desprezo social pela nossa origem humilde, na luta desigual das forças que se equilibram, tenuemente, na convivência em sociedade.

Ele floresce na raiva que sentimos por não conseguir a vitória que o outro obteve, quando somos preteridos na promoção, ou somos escolhidos como a vítima para ser deslocada do emprego que queremos, esbarramos na falta de desejo do ser amado, quando não conseguimos a vantagem intelectual que o outro consegue, e somos colocados na impossibilidade de seguir o caminho desejado.

Ele aparece no desgosto, no despreparo em não aceitar a derrota, que é dimensionada pela exata amplidão que damos aos seres vitoriosos, quando escolhemos o outro como culpado pelo que não conseguimos, culpamos o outro, sem nem ele saber o porquê, por habitar nossos espaços, sem obedecer aos nossos discursos, que imaginamos serem os verdadeiros e importantes, nos transforma no conhecedor do único caminho possível.

E mais ainda quando o mundo parece conspirar, e entramos no círculo descendente, e nos inconformamos, mas tão necessário para uma retomada mais criativa e equilibrada, até porque este inimigo não nos deixa abrir mão de nada para o bem comum, e ele se disfarça no egoísmo, e deságua no desprezo pelas roupas do outro, pelo andar do outro, pelo outro ocupar os espaços “nossos”, com seus comportamentos desprezados por nós.

Se derrotássemos este inimigo interno, possivelmente a tropa periférica da qual faz parte não existira, e o mundo seria mais amistoso.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Uma história sem fim

Por Nilson Lattari.

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Nilson Lattari
Nilson Lattari

No fundo sempre esperamos um final feliz para qualquer história: seja do menino pobre que vence na vida; do herói que, finalmente, salva o dia; do empregado que consegue alcançar o maior posto de comando em uma empresa e, por que não, do final feliz entre dois amantes, dois apaixonados que juram por todas as juras que o seu amor será eterno, enquanto durar.

De todas as histórias, mesmo o menino pobre que não vence na vida, acaba aprendendo uma lição, do herói que, apesar de não salvar o dia, mostra a coragem na luta e do empregado que, mesmo não alcançando o posto de supremo mandatário da empresa, coleciona as amizades e a admiração de seus pares. De uma certa forma eles têm um final feliz.

Ah! E os amantes?

Quando o final feliz adiado sine die, finalmente, encontra um final, a lição que se aprende é transformadora. Uma história de amor ao seu término invariavelmente deixa, para um dos lados, a dor da perda. O que se ganha em experiência, por mais que se transforme em lição, na verdade, fere o ser naquilo que a razão não se sobrepõe: A razão não se sobrepõe às razões do coração.

Para esse ser que sobra da relação, resta a dor da perda. Levar por um longo período da vida, mesmo que outras relações se estabeleçam, uma história sem fim. Uma história que nunca acaba dentro de si mesma. Uma história que a mente traz à tona no cheiro do perfume, no tom da voz, e nas fotografias que são deixadas de lado, mas que o manuseio traz a maciez da pele, do toque fino dos cabelos e no macio adocicado da boca.

Uma história sem fim é uma história que ultrapassa o final feliz. É a história interminável que sempre cai na conversa com os amigos, na visão distante do ser que se foi, do ser que não quis fazer mais parte da história.

Para os outros, a matéria da perda é sempre recuperada adiante, trazida pela experiência vivida. Para o amor não. Para o amor, um amor verdadeiro não consegue ser substituído. Ele é sempre cobrado, comparado, e pune mesmo aqueles amores que venham a habitar o coração abandonado.

Uma história sem fim de abandono é uma história que nunca vai terminar. Os atalhos, os caminhos que se trilham mais adiante são mais uma busca pelo amor perdido do que propriamente o encontro de um novo amor.

O novo amor vem mais maduro, não tão emotivo, mais preparado para a decepção, mais pronto para o soerguimento, vem com a sensação da perda já embutida nos beijos e nas promessas.

Paixões são vividas ad eternum, buscadas e conquistadas. Mas, são sempre calcadas na prudência, na preparação da perda. Ou são tratadas com desprezo, como se uma vingança interna estivesse sempre de tocaia.

A primeira paixão marca, é profunda, penetrante em um coração desavisado, aberto ao mundo, sem um colete para a flecha perdida lançada por um Cupido inconsequente.

A primeira paixão, essa sim, é uma história sem fim.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

Um amor à portuguesa…

Por Carlos R. Ticiano.

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Um amor à portuguesa...

Marcela é uma jovem portuguesa recentemente chegada ao Brasil, para fazer um curso de confeitaria, voltado exclusivamente para doces brasileiros. Com o propósito de incorporá-los no cardápio das confeitarias de seus pais, na cidade de Lisboa.

O curso iniciado por Marcela tinha por finalidade, não só expandir a rede de confeitarias, mas também, deixá-las com um cardápio vaiado, com doces de diversos países. Uma garota arrojada e determinada, que chamava atenção por sua beleza, simpatia e carisma.

No decorrer das aulas práticas, Marcela procurava estar sempre próximo de Gabriel. Era notório e recíproco, aquela troca de olhares entre eles, a ponto de Gabriel ficar imaginando uma forma de aproximar-se, daquela atraente portuguesinha.

Um dia, quando chegava para a aula, ofereceu-lhe um singelo “chocolate branco”. No final da aula, Marcela interceptou Gabriel dizendo: Como você adivinhou que eu gosto de chocolate branco? Ora, pois! Seria Impossível, uma garota bonita e elegante como você, não gostar de um chocolate branco, recheado de amor.

Marcela não se conteve e deu-lhe um selinho, saindo ligeiramente corada. Gabriel sentiu-se nas nuvens, com o coração transbordando de esperança. A tarde enviou-lhe um buquê de rosas com um cartão dizendo: Rosas formosas e belas, para uma doce e bela Marcela!

Não demorou em chegar, uma mensagem de agradecimento pelo celular. E deste então, o casalzinho passou a ser visto sempre juntos. A semana passou rápida e um convite de Gabriel para irem a uma pizzaria no final de semana, para saborearem uma pizza à portuguesa e um chopinho gelado, foi o suficiente para que aquela paquera se tornasse um namoro.

O semestre voou e o curso de confeitaria terminou. Marcela começou a planejar sua volta, sonhando com a possibilidade de Gabriel acompanhá-la na viagem de volta a Portugal. Diante da possibilidade de tentar alguma coisa no Brasil e de se aventurar ao lado de Marcela, em terras de além-mar, não pairou nenhuma dúvida.

Em Portugal, os dois começaram a colocar em prática a expansão das confeitarias. Entre planos, projetos e receitas de vários países, incluindo o Brasil, iniciaram com os tradicionais, Pastel de Nata, Brisa do Liz, Tarte de Amêndoa, Queijada de Évora, Pudim da Batalha, Telha de Amêndoas, Travesseiro de Sintra e tantas outras iguarias. Nos finais de semana, sempre arrumavam um tempinho para namorarem e passearem de bonde.

E conhecer, é claro, ao lado de Marcela, lugares como a Ponte Vasco da Gama, Palácio Nacional de Sintra, Convento do Carmo, Oceanário (pavilhão dos oceanos), Elevador de Santa Justa, Castelo dos Mouros, Torre de Belém, Praça do Comércio, Castelo de São Jorge, Cabo da Roca, Mosteiro da Batalha e tantos outros lugares.

Diante do Padrão dos Descobrimentos (monumento dedicado aos exploradores marítimos), quem garante que Gabriel, realizado com a descoberta do amor, não pedirá Marcela em casamento, ao sabor de um “chocolate branco” tendo como testemunha o Rio Tejo?…

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Crônicas

Consertando asas de borboletas

Por Nilson Lattari.

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Consertando asas de borboletas

Era azul e tinha asas poderosas. A sua beleza estava em ter tão grandes asas para um pequeno corpo. Do alto da janela, o seu voo parecia um pular constante em pontos imaginários. De súbito, se embaralhou em um galho que o vento carregou como uma armadilha da natureza.

Por um momento, ela ficou estática, e aos poucos se movia como se fizesse pequenos esforços para ficar livre. Com o passar do tempo, os movimentos se tornaram mais fortes, e alguns pequenos pontos pretos, que compunham as suas cores, começaram a parecer sombras que aumentavam, como uma espada perfurante a fender o fino tecido das suas asas.

O galho permanecia firme e indiferente, mas a minha indiferença começou a se assemelhar à indignação. Resolvi interferir na natureza e subi no pequeno arbusto para livrar a borboleta. Uma de suas asas tinha uma pequena abertura, e pensei comigo: podemos consertar asas de borboletas?

Enquanto balançava levemente o galho, a borboleta se libertou e o seu voo, de início, perturbado, logo se aprumou, como se estivesse se acostumando a levar a força em uma das asas, já que não podia ter tanta certeza de poder contar com ela. De longe, a pequena fenda se misturou às cores da borboleta, como se mais uma cor, diferente das demais, passasse a fazer parte dela.

Lendo sobre elas, aprendi que podem enxergar em 360º, e, portanto, ela sempre veria, a borboleta azul, o seu novo traço nas asas: a pequena cicatriz de uma batalha.

Consertamos nossas asas de borboleta, aquelas que não vemos, escondidas dentro de nós. A beleza delas são as cicatrizes que não mostramos, frutos de uma luta que traçamos dia a dia. Algumas vezes, alguns anjos, desses perdidos no meio da multidão, que nos dá passagem nas entradas, nos dá a mão depois de uma queda, nos avisa de um perigo iminente, são os que nunca mais veremos, pessoas desconhecidas, e somos também, para elas, as vozes salvadoras de um pequeno agradecimento e bons dias ou boas tardes que nos acordam e nos fazem lembrar que alguém está preocupado com as asas de borboletas que trazemos, e não vemos.

São esses pequenos gestos de gentileza que são capazes de consertar as nossas asas de borboleta e nos permitem aprender e confiar que podemos continuar voando. E as pequenas e grandes cicatrizes são as cores que guardamos nos consertos das nossas asas.

E, principalmente, devemos descer das nossas janelas para ajudar a consertar asas de borboletas.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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