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Crônicas

Janelas

Por Nilson Lattari

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Querer conhecer o mundo é como abrir janelas. E como as janelas são e estão presentes? Não tão no presente, mas, janelas são portas abertas para o futuro. De uma janela se vê o mundo e nos encantamos com ele e por ela podem nos ver por entre as cortinas quando o vento bate. Por elas entram os assaltantes na busca do ganho fácil, e é de onde se lança aquele que a vida assalta no seu infortúnio, que não consegue labutar na sala de aula da vida.

O escritor lê sua história mirando uma janela desconhecida onde seus personagens tramam, se organizam, e a mente se fecha como os postigos quando encerra o seu trabalho de busca. Nossos olhos são as janelas da alma a descobrir o mundo. E onde o adivinho tenta decifrar o futuro iluminando a escuridão.

Da janela, Rapunzel jogou os seus longos cabelos, e no meio da noite, com pedras, Romeu despertou Julieta. Da janela vê-se o Corcovado, a cidade e seus desencontros. De janelas indiscretas, amantes trocam sinais de segredos e encontros combinados, e olhares furtivos descobrem outros, desfrutam intimidades. Ao fechar as janelas, os amantes finalmente dão vazão às suas paixões, e os maus tramam seus golpes.

No campo, as janelas são abertas para a luz, para o mato, para o cheiro de pasto, nas cidades elas encerram a vida envolta em grades, como a enjaular, definitivamente, a liberdade, ou as grades servem para mostrar ao preso uma meia vida, mostrando o mundo em pedaços.

Das janelas, o final de ano jorra papel picado para festejar os heróis, a volta da democracia, ou jorram objetos contundentes, são ombros para armas, na busca da vitória, ou atentados.

Nas despedidas, as janelas se enchem de mãos que se abrem desejando uma volta breve e cheia de felicidade. Na chegada, são as primeiras a serem vistas quando a casa pontilha ao longe.

São aquelas que identificam o lar, o ninho dos amantes com gerânios vermelhos a decorá-las, são o primeiro móvel de um casebre, depois de se cruzar a porta, como a dizer que aquele pedaço de chão é nosso, e que daquela trincheira vamos nos defender do mundo, com os cotovelos apoiados a amparar o rosto cheio de esperanças.

Quando a vida nos fecha as portas das oportunidades, das esperanças e das batalhas, é Deus que nos abre janelas para a fuga, para as alternativas.

Das janelas o mal educado lança o lixo, um rosto aparece alegremente, e a luz anuncia a presença de gente. Por elas, a luz azulada da televisão avisa a hora da novela, e é para onde as pessoas olham quando recebem uma notícia ruim, como a pedir ao céu um pouco de consolo. E por onde saem os primeiros sinais de fumaça de um incêndio, e alguém tenta em última instância um pedido de socorro.

Falar em janela, todo o tempo, é uma obsessão. Nenhuma casa pode prescindir de uma janela, do contrário é uma solidão.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Crônicas

O que desejo

Por Nilson Lattari.

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Não seja temperamental, detesto esses chiliques fora de hora, coisa de rompantes desnecessários. Não pague minhas contas, rachar as despesas, como se o dinheiro, a posição, o cargo fossem definidores de limites entre dois seres; até porque brincar de limites ainda é muito cedo, eles se cercam de responsabilidades, de rotinas, vêm recheados de dia a dia, lembram um quartel, com continências e roupas lavadas, passadas, perfeitas.

Talvez eu queira ser o homem da casa, mesmo que o seu salário e o seu cargo sejam maiores; pura fantasia, ninguém desconhece a verdade.

Não me perturbe quando estiver sozinho, pensando, não me pergunte o que eu penso: tenho direito a meus segredos, reviver lembranças, de relembrar descaminhos, de alterar o passado, como todo mundo faz. Faça também, em respeito a você mesma.

Talvez eu esteja sentindo a sua falta e tenha vergonha de dizer que gostaria de fazer mil coisas com você, enquanto você esmerilha a unha, pinta com cores que não me fazem sentido, e eu não esteja com vontade de saber o que a sua mãe, nosso filho, seu irmão fizeram com você no dia anterior.

Não me traga um chá toda vez que estiver doente, nem faça brincadeiras para me alegrar, não gosto disso. Não quero me sentir criança de novo, gosto de palavras de incentivo, mas não de voz alta, chamar a atenção, lições de moral, exemplos de outros que você conheceu. Não quero mais minha mãe, ela me esgotou com seu estilo de vida e eu a respeitei por isso, mas dois respeitos não cabem na mesma panela.

Talvez eu quisesse que você me abraçasse e ficasse calada sendo apenas uma mulher.

E, por falar em panela, ignore que eu esqueci de colocar sal na comida, que o bife ficou tempo demais na frigideira, que o tomate no tempero está muito grande, ou então estão cortados de vários formatos. Acredite quando eu digo que vi aquilo em algum programa de televisão, ou na internet. Que era um Chef, mas não precisa dizer que era, no mínimo, um maluco com panelas nas mãos, a bater com a frigideira molhada na cabeça enquanto tentava lembrar a receita.

Talvez eu tenha tentado uma vez, ter feito a coisa certa, meio de surpresa, sem nada a combinar.

Me deixe sem seguir receitas, lembrar a cada instante, a cada segundo, marcado no calendário que a roupa tem de ser retirada da lavandeira às quintas, que o futebol deveria ser às segundas-feiras e não aos domingos, dia de descanso. Me deixe seguir aquela bola mágica rolando no gramado verde, não pergunte por que o juiz marcou aquilo e não aquela outra coisa, não tente entender, apenas assista; mesmo que seja a roupa ridícula daquela fulana que não tem o que fazer, que fica com as pernas de fora, em pé em uma cadeira a chorar pelo gol perdido, perdida nos olhares masculinos em volta.

Talvez você nunca vá descobrir que eu gostaria de estar lá, dando um beijo em você, só para aparecer na TV.

Entenda o que é companheirismo, não os membros de uma passeata meio sem sentido, uma juntada de colegas a festejar uma data qualquer, um grupo de pessoas para assistir uma peça, uma sessão de cinema.

Talvez você nunca tenha percebido que companheirismo é aquele que acompanha o outro, colocando coisas na casa que eu nunca colocaria, um quadro, um tapete novo, podendo ser caro e longe de aparecer no cartão de crédito, tenha um escondido, com pagamento no banco, sem avisos de cobrança.

Talvez você nunca tenha percebido que companheirismo é acompanhar um sonho idiota, comemorar uma promoção, torcer por ela, e não fabricar obstáculos, como se os seus braços fossem suficientemente longos para amparar a minha queda.

Acompanhe simplesmente.

Não me obrigue a dançar, caso não queira, e acuse uma dor no pé quando alguém quiser tirar você. Se você me acompanha, qual motivo encontrarei para não acompanhar você, se depois de tudo a gente vai poder dormir abraçados como duas crianças?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Artigos

Uma japonesinha cativante…

Por Carlos R. Ticiano.

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Uma japonesinha cativante...
Uma japonesinha cativante...

Depois de prestar o vestibular e ver seu nome na relação dos aprovados, Paulo efetivou a matrícula. Primeira semana de aula e a surpresa do “trote” no sábado. Entre ovos e farinha de trigo, da turma do segundo ano, que aplicavam o trote nos calouros; uma japonesinha até que tentava aliviar as coisas. Mas, o estrago nos cabelos encaracolados de Paulo, não teve como atenuar, nem tão pouco evitar.

Na semana seguinte, Akemi foi procurar por Paulo na sala de aula, para ver como estava de visual novo. Ao vê-lo, exclamou: você fica bem de careca e o boné lhe dá um charme todo especial. Diante do elogio e da forma como ela o olhava, percebeu uma envolvente e discreta paquera.

Na realidade, até Paulo não conseguia ficar indiferente, diante daquela japonesinha de olhos puxados, cabelos lisos e pretos, com um leve sotaque oriental. Apenas uma simples amizade, pensava Paulo. O que não se poderia afirmar por parte de Akemi. Que vivia sonhando com o dia em que pudesse revelar seu amor.

Akemi, sempre estava por perto. Na porta da sala de aula, nas rodinhas de bate-papo, na cantina tomando café, enfim, havia um mistério a ser desvendado. A única forma que Paulo encontrou, foi convidá-la para sair. De pronto ela aceitou, abriu um sorriso nipônico e disse: vamos a um restaurante de culinária japonesa?

No restaurante, Paulo achou melhor deixá-la fazer o pedido. Assim, sem correr riscos, degustaram yakisoba, sushi e yakitori, acompanhado de saquê. Mesmo com a explicação de Akemi, de como pegar no hashi (palitinhos), Paulo achou melhor não se aventurar.

De volta, no portão de sua casa, falando de músicas, poesias e de filmes românticos, Paulo diante de um olhar mais carinhoso, um afago nos cabelos, um toque nas mãos, se rendeu a um inevitável beijo, transformando finalmente aquela paquera em um namoro.

O ano letivo passou rápido, as férias chegaram e um convite da irmã de Akemi, levou o casalzinho para a terra do sol nascente. Admirado com a hospitalidade dos japoneses, Paulo na companhia de Akemi, que já conhecera o Japão de outras viagens, passou a desfrutar da tradição, da cultura, da culinária e da educação do povo japonês.

Numa tarde, saíram para conhecer alguns pontos turísticos, entre eles, o Palácio Imperial, a Torre Skytree, O Templo Senso-Ji e o Templo Meiji. Alugaram bicicletas e saíram pedalando pelas ruas de Tóquio, até o Parque Ueno. Um parque público, com lago, pedalinhos e repleto de flores de lótus (símbolo do budismo). Diante daquela paisagem romântica, Paulo confidenciou: assim que terminarmos a faculdade, vamos nos casar e viver uma eterna lua de mel no Japão?

Deixando rolar duas lágrimas de felicidade pelo rosto, Akemi exclamou: Watashi wa anata o aishite iru! (Eu te amo!)…

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Crônicas

Crônica do amor profano

Por Nilson Lattari.

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Meu nome consta na sua agenda como um nome a mais, mas não existe a coragem de colocar prazer ao seu lado. Para mim você não necessita de palavras, nem mesmo versos bem colocados, não precisa de um jantar à luz de velas, e nem é preciso criar um clima romântico. Sou leviano, sou leve, sou fugaz, sou a vela acesa que ilumina a sua solidão.

Minhas roupas são uma embalagem que se desembrulha como um presente, como caixas de sapatos, de roupas que, alegremente, são compradas em uma butique, em um supermercado, colocadas no chão da sala, do quarto, em cima da cama.

Posso rir se me for pedido, posso colocar as roupas que as fantasias que abundam sua imaginação quiserem, posso chegar chorando, pedindo para que você me proteja, ou posso me deixar espancar, se esse for o desejo.

Sou inerte, sou frio e o meu exterior abunda o falso que você acredita em ser verdadeiro. Não me importa sua cor, sua condição, e me porto da maneira possível, dando a você a impressão de que é dono de alguma coisa.

Rio, no entanto, por dentro. Se você pudesse imaginar o que eu penso, que o meu corpo está ali, mas a minha alma não é possível. Sou leviano, ou leviana, sou o objeto de uso e abuso, sou o objeto de um contrato.

Sou capaz de dizer as palavras que você quiser ouvir, e escutar as suas como se fossem as mais importantes.

Sou um amor comprado, me vendo, e o tato de sua mão que me causa asco, voa áspera pelo corpo trabalhado para que você possa ter.

Estou ao alcance de um telefonema, de um pedido, de um acordo financeiro, para alguém que não é capaz de pedir a outro alguém que simplesmente o ame, e o leviano é a imagem do casal apaixonado que nós inventamos e que se enrola na cama.

Quando vou embora, você não pode perceber o alívio que vai dentro de mim. Não vou perder tempo em velar o seu sono, nem mesmo te acariciar o rosto agradecendo um prazer que você me deu.

O único momento em que elevo as mãos é pegar o dinheiro do pagamento pelo prazer que você sentiu. Ao bater a porta te deixo solitário, quem sabe chorando pela incapacidade de saber viver e sofrer na conquista de um amor legítimo, que te enriqueça nas brigas, nos sorrisos espontâneos, no passeio pela casa, leve e sem ser profano.

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