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Crônicas

O maior de todos os medos

Por Nilson Lattari.

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O maior de todos os medos

O que fazer com nossos medos? Há muitos: medo do futuro, medo das consequências, medo das verdades, das mentiras. Situações que nos põem em alerta, nos fazem temer o que há por vir, nos trazem ansiedade por elas, resolvê-las, superá-las: um desafio, sempre um desafio.

Para cada um deles lidamos de vários modos. Em cada um deles, a nossa decisão, a despeito de acharmos que ela seja nossa, sofre a influência de alguém ou alguma coisa. Caso alguma pessoa seja perguntada sobre alguém que a tenha influenciado na vida, ou simplesmente tenha admiração, a resposta, em sua grande maioria, será a de um professor. Talvez por ser este profissional aquele com quem se tenha contato depois da casa, que nos incutirá responsabilidades, regras. Pode ser também a figura de um grande personagem político, do nosso círculo de amizade ou familiar. A reflexão, porém, é maior.

O professor, assim como a família e outros exemplos, nos ajuda a enfrentar alguns dos nossos medos, quando ensina as leis da física, o alfabeto, a compreensão da escrita, obediência, respeito, juízo de valor. Seguindo as regras, o futuro não fica tão temeroso, pensam eles. Com a orientação de uma família, de uma escola, lições são ministradas, aprendidas; e o medo vai se tornando mais leve. Mas, é, simplesmente, esse medo mundano: de regras.

Não, não falo desse medo ou do outro medo, cuja ausência nos transforma em um ser temerário e inconsequente, herói. O professor nos alerta sobre a obediência a legislações ditadas pela responsabilidade. Ela é um dos motivos que nos leva ao aprisionamento de nossas vontades, do nosso futuro. O professor, a família, a autoridade não são capazes de lidar com um tipo de medo: o medo dos nossos desejos. Este medo que está dentro de nós.

É o medo de romper com as ligações afetivas, sociais, trazidas pela cultura, o exemplo de pais, chefes, figuras religiosas. Esse medo de romper com coisas ditas sagradas, mas não sacralizadas por nós mesmos, herdado de qualquer coisa no subconsciente, dentro das nossas próprias cabeças. Aquele algo bem lá dentro, que conversa conosco a sós, que não é externo, que caminha com a gente o tempo todo.

Esse medo, ninguém nos ensina a conviver e principalmente a romper, para que tenhamos uma real liberdade interna, de pensamentos mais livres e não conectados ao dever, ao direito do outro, ao benefício ou estrago que podemos trazer a alguém. Esse medo de romper com os estratagemas do cumprimento de horários, agendas, compromissos profissionais ou afetivos, humanos, éticos. Elos que nos prendem indefinidamente à responsabilidade com a família, à comunidade, ao companheiro ou companheira, ao dever.

Não está beneficiado em nenhuma matéria obrigatória, preso a qualquer grade curricular e, portanto, ausente de um professor, alguém que nos dirija, passe lições, determinações, silêncios. É uma aula livre, vagabundeando pelo nosso cérebro, sem data e hora para nos atormentar, mostrar que um rompimento é possível, como a aula teórica, mas difícil de demonstrar numa mera aula laboratorial, com experimentação segura ao lado de um professor que interrompa nossas mãos e impeça o movimento errado.

O medo do momento da escolha, do caminho a seguir, quando estamos sós, e o mundo parece parar à espera da nossa decisão, e estamos no debate entre o que foi ensinado e os nossos desejos. Por isso, se diz: cuidado com aquilo que você deseja.

O momento de esse professor ausente aparecer é o momento do amadurecimento. Quando todos os instantes de equívocos, relutâncias acumuladas, entulhadas em nossa existência reclamam o momento de pedir licença e sair da sala de aula. Momento de respirar o ar livre e não tendo mais o giz e a régua do magistério a nos dar regras e determinações, a voz da consciência da coletividade, mas, a nossa; decidir o rumo a tomar. Quando resolvemos encarar esse medo e dar a nós mesmos uma lição de vida. Quando rompemos convenções, paramos de chamar para nós o ser responsável, analisamos friamente os prós e contras e alertamos o professor dentro de nós mesmos, para um momento de escolha só nosso, dos nossos desejos.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

Crônicas

De que pecado você se arrepende?

Por Nilson Lattari.

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Com certeza, escarafunchando sua memória, lá dentro, guardado em uma gaveta empoeirada você tem um pecado. Possivelmente um segredo que somente você sabe, ou então um segredo compartilhado a dois, porque de três, dizia minha avó, o diabo fez.

Ele deixa você triste, meio por baixo? Ele sujou de tinta a sua carne, marcou na sua pele algo que lhe dá um frio na barriga, um medo que ele desencarne, suba no muro, vá para o campanário da igreja, e grite para todo mundo, e o dedo acusatório de um crime, de uma desonra, penda sobre você, e você chore, se esconda, meta a cabeça entre os joelhos?

E você, possivelmente, poderá cometê-lo de novo, se lembrar, relembrar. Ele tem algo de prazeroso, asqueroso, ele tem um apelo que não se deixa hibernar, que você quer matar, mas, apenas, o esconde? É isso?

Ou então, por que não? Algo de uma nobreza imensa, que te encheu de orgulho, que mais ninguém sabe, que te faz sorrir, satisfeito, que o beneficiado nem soube. Você se arrepende não ter dito?
Afinal, o que é pecar? Atentar contra os ditos e mandamentos da religião é pecado. Mas contra quem? Contra Deus? Ele existindo então não há segredo, você sabe e Ele também. Ele fez alguma coisa para você? Você não conseguiu seus desejos, a culpa é dele, do pecado?

E que personagem é esse? Que de tão forte é capaz de figurar como um fantasma ao seu lado; é capaz de refrear você, ou então de fazê-lo avançar nos seus projetos.

Pecado tem a ver com a culpa. A culpa é o personagem real, o pecado a ficção, algo que criamos, fantasiamos sobre alguma coisa que fizemos. E esse pecado é que é capaz de nos livrar para as entranhas do inferno, mas, enquanto ele é segredo, somente a culpa nós carregamos. São segredos, e a culpa é o arrependimento, que tanto pode ser para o bem ou para o mal. E algo tão excludente não pode ser real, está dentro da gente.

Você não pode se arrepender do que viveu. E, com certeza, você aprendeu alguma coisa com ele. O pecado então pode ser o seu companheiro, e a culpa o seu próximo limite.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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Artigos

Vizinhas nada amigáveis…

Por Carlos R. Ticiano.

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Residir em apartamento, todos sabem que é um desafio manter-se em harmonia com os vizinhos. Telma e Lúcia são duas vizinhas que ignoram todos os conceitos de uma boa vizinhança e vivem se estranhando, seja por que motivo for.

Raramente se encontram, e quando isso acontece, um cumprimento é o máximo que conseguem expressar. No edifício onde moram, são conhecidas como Telma raio e Lúcia trovão, pois quando se desentende o tempo fecha. 

Por um golpe do acaso, dia desses, se encontram na feira livre do bairro. Ao passarem um pela outra, seus carrinhos de feira, se enroscaram. Para qualquer pessoa, seria apenas um incidente. Mas para Telma e Lúcia, foi o suficiente para um bate-boca. Sinceramente Lúcia: Com tantas pessoas nessa feira, você tinha abalroar justamente o meu carrinho. Afinal, “por quem me tomas?” Não entendo o significado da expressão idiomática, Vilma retrucou: o que eu tomo ou deixo de tomar não é problema seu!

Vejamos se não é, respondeu Lúcia! Diante de dois carrinhos abarrotados de hortifrúti, ambas viram dois tanques de guerra, não tendo argumento para acalmá-las, por parte dos que estavam nas bancas próximas. A guerra foi declarada! O resultado foi tomate, cebola, mamão pra lá; batata, cenoura, pepino pra cá. Uma chuva de alface, cebolinha, almeirão, acelga caiu sobre todos que passavam.

Os transeuntes até que tentavam apaziguar a situação, mas nada as convenceu a assinar um tratado de paz. Mas o pior ainda estava por vir. Quando Telma viu uma embalagem de ovos no carrinho de Lúcia, não pensou duas vezes: Foi uma artilharia de ovos para todos os lados, a ponto de acertar com precisão, uma criança em seu carrinho de bebê.

Nem o guarda municipal, que tentou apaziguar as duas briguentas, escapou de levar um ovo em seu quepe. Uma situação lamentável, esdrúxula e ao mesmo tempo cômica destas que aparecem nas cenas de novelas. De volta, Telma e Lúcia, cada uma empunhando seu carrinho de feira, praticamente vazio, chegaram ao edifício onde moravam. Na portaria, Antonio diante do estado em que se encontravam, perguntou: o que aconteceu?

Nenhuma das duas respondeu nada. Sérias e caladas pegaram o elevador de serviço, subindo cada qual para o seu apartamento, no sexto andar. Antonio, diante do silêncio das duas, não precisou esperar muito para saber o que tinha acontecido. À noite, no telejornal regional, descobriu o que tinha acontecido na feira.

Depois deste episodio deplorável, quase não são vistas e relacionamento entre as duas, parece que melhorou. Espere um pouco! Aquela não é Telma na entrada do elevador, agarrando Lúcia pelos cabelos? “Pelas barbas do profeta!” Lúcia usa peruca?…

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Crônicas

Essa história de morrer de amor

Por Nilson Lattari.

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Fonte da foto: morguefile.com

Ninguém morre de amor, mas, eu não falo daquela morte matada, daquela que se joga da ponte, toma veneno e se mata porque não tem o amor de alguém, como se amor tivesse dono. Eu falo daquele morrer de amor que é um derretimento só, uma solidão de um pensar sem fim, que faz a gente sentar no banco da praça e achar que é o único no mundo. Esse morrer de amor é um paradoxo. Imagine alguém desfalecer, sucumbir, esmorecer por causa de um amor, quando se está de quatro, praticamente entregue, sem eira nem beira.

Digamos que alguém morra, de fato, dessa morte morrida, sem volta. Que chato! Amou alguém e partiu, e deixou o amor aqui entregue a alguém mais esperto, mais resistente, mais cheio de palavreado. Que coisa, essa coisa de morrer de amor!

Digamos, novamente, que você encontrou alguém, ficou perdida ou perdido, não consegue viver longe, quer sentir o cheiro, o toque da pele, ouvir a voz, trocar beijos quentes, alguém pode morrer assim, desse jeito? Brincadeira, gente, ninguém pode morrer depois, muito menos durante uma coisa dessas.

Tá. Vem você me dizer que morre de saudades. E precisa morrer para sentir uma coisa assim, tão diferente? Chega de saudades, nunca! Saudade é coisa boa, dessas que remexe lá por dentro, deixa com falta de ar, meio saudosa, ops, repetindo, é coisa que dói sem sofrimento, mas um sofrer meio ausente, que mesmo quando se está por perto, a saudade parece que aperta mais ainda porque tem um momento, ah! que é preciso se desligar do abraço, sair do beijo apertado e sentar no banco cansado, esperando o round seguinte.

Pode alguém morrer por isso? Imagine! Nem de longe! E isso, gente, é momento para se morrer, naquele precioso momento, que a gente esperou por tanto tempo e finalmente aconteceu? Caramba! Muita falta de imaginação (se é que isso é momento para imaginar alguma coisa). É hora de atuação.

Mas, está bem, vá lá que eu concorde. Morrer de amor, e quantos poetas não morreram. Mas, vocês já perceberam que todo poeta que fala em morte, na verdade não tem ninguém ao seu lado? Só a imaginação descontrolada, tentando justificar uma ausência. Que poeta perderia tempo em fazer poesia, se a própria poesia já está ao seu lado, e parte logo, poeta, para o ato de fazer poesia de fato, na cama, no amasso do portão, na entrada da janela deixada aberta para entrar o ar… da sua graça.

Mas, para resumir essa história de morrer de amor, é uma grande mentira, falácia, coisa de trouxa, para enrolar com palavras o que se quer dizer. Na verdade, minha gente, na dura, ninguém morre, tá vivendo e é de graça.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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