Fique conectado

Crônicas

O que desejo

Por Nilson Lattari.

Publicado em

1.512

Não seja temperamental, detesto esses chiliques fora de hora, coisa de rompantes desnecessários. Não pague minhas contas, rachar as despesas, como se o dinheiro, a posição, o cargo fossem definidores de limites entre dois seres; até porque brincar de limites ainda é muito cedo, eles se cercam de responsabilidades, de rotinas, vêm recheados de dia a dia, lembram um quartel, com continências e roupas lavadas, passadas, perfeitas.

Talvez eu queira ser o homem da casa, mesmo que o seu salário e o seu cargo sejam maiores; pura fantasia, ninguém desconhece a verdade.

Não me perturbe quando estiver sozinho, pensando, não me pergunte o que eu penso: tenho direito a meus segredos, reviver lembranças, de relembrar descaminhos, de alterar o passado, como todo mundo faz. Faça também, em respeito a você mesma.

Talvez eu esteja sentindo a sua falta e tenha vergonha de dizer que gostaria de fazer mil coisas com você, enquanto você esmerilha a unha, pinta com cores que não me fazem sentido, e eu não esteja com vontade de saber o que a sua mãe, nosso filho, seu irmão fizeram com você no dia anterior.

Não me traga um chá toda vez que estiver doente, nem faça brincadeiras para me alegrar, não gosto disso. Não quero me sentir criança de novo, gosto de palavras de incentivo, mas não de voz alta, chamar a atenção, lições de moral, exemplos de outros que você conheceu. Não quero mais minha mãe, ela me esgotou com seu estilo de vida e eu a respeitei por isso, mas dois respeitos não cabem na mesma panela.

Talvez eu quisesse que você me abraçasse e ficasse calada sendo apenas uma mulher.

E, por falar em panela, ignore que eu esqueci de colocar sal na comida, que o bife ficou tempo demais na frigideira, que o tomate no tempero está muito grande, ou então estão cortados de vários formatos. Acredite quando eu digo que vi aquilo em algum programa de televisão, ou na internet. Que era um Chef, mas não precisa dizer que era, no mínimo, um maluco com panelas nas mãos, a bater com a frigideira molhada na cabeça enquanto tentava lembrar a receita.

Talvez eu tenha tentado uma vez, ter feito a coisa certa, meio de surpresa, sem nada a combinar.

Me deixe sem seguir receitas, lembrar a cada instante, a cada segundo, marcado no calendário que a roupa tem de ser retirada da lavandeira às quintas, que o futebol deveria ser às segundas-feiras e não aos domingos, dia de descanso. Me deixe seguir aquela bola mágica rolando no gramado verde, não pergunte por que o juiz marcou aquilo e não aquela outra coisa, não tente entender, apenas assista; mesmo que seja a roupa ridícula daquela fulana que não tem o que fazer, que fica com as pernas de fora, em pé em uma cadeira a chorar pelo gol perdido, perdida nos olhares masculinos em volta.

Talvez você nunca vá descobrir que eu gostaria de estar lá, dando um beijo em você, só para aparecer na TV.

Entenda o que é companheirismo, não os membros de uma passeata meio sem sentido, uma juntada de colegas a festejar uma data qualquer, um grupo de pessoas para assistir uma peça, uma sessão de cinema.

Talvez você nunca tenha percebido que companheirismo é aquele que acompanha o outro, colocando coisas na casa que eu nunca colocaria, um quadro, um tapete novo, podendo ser caro e longe de aparecer no cartão de crédito, tenha um escondido, com pagamento no banco, sem avisos de cobrança.

Talvez você nunca tenha percebido que companheirismo é acompanhar um sonho idiota, comemorar uma promoção, torcer por ela, e não fabricar obstáculos, como se os seus braços fossem suficientemente longos para amparar a minha queda.

Acompanhe simplesmente.

Não me obrigue a dançar, caso não queira, e acuse uma dor no pé quando alguém quiser tirar você. Se você me acompanha, qual motivo encontrarei para não acompanhar você, se depois de tudo a gente vai poder dormir abraçados como duas crianças?

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

Artigos

Vizinhas nada amigáveis…

Por Carlos R. Ticiano.

Publicado em

Residir em apartamento, todos sabem que é um desafio manter-se em harmonia com os vizinhos. Telma e Lúcia são duas vizinhas que ignoram todos os conceitos de uma boa vizinhança e vivem se estranhando, seja por que motivo for.

Raramente se encontram, e quando isso acontece, um cumprimento é o máximo que conseguem expressar. No edifício onde moram, são conhecidas como Telma raio e Lúcia trovão, pois quando se desentende o tempo fecha. 

Por um golpe do acaso, dia desses, se encontram na feira livre do bairro. Ao passarem um pela outra, seus carrinhos de feira, se enroscaram. Para qualquer pessoa, seria apenas um incidente. Mas para Telma e Lúcia, foi o suficiente para um bate-boca. Sinceramente Lúcia: Com tantas pessoas nessa feira, você tinha abalroar justamente o meu carrinho. Afinal, “por quem me tomas?” Não entendo o significado da expressão idiomática, Vilma retrucou: o que eu tomo ou deixo de tomar não é problema seu!

Vejamos se não é, respondeu Lúcia! Diante de dois carrinhos abarrotados de hortifrúti, ambas viram dois tanques de guerra, não tendo argumento para acalmá-las, por parte dos que estavam nas bancas próximas. A guerra foi declarada! O resultado foi tomate, cebola, mamão pra lá; batata, cenoura, pepino pra cá. Uma chuva de alface, cebolinha, almeirão, acelga caiu sobre todos que passavam.

Os transeuntes até que tentavam apaziguar a situação, mas nada as convenceu a assinar um tratado de paz. Mas o pior ainda estava por vir. Quando Telma viu uma embalagem de ovos no carrinho de Lúcia, não pensou duas vezes: Foi uma artilharia de ovos para todos os lados, a ponto de acertar com precisão, uma criança em seu carrinho de bebê.

Nem o guarda municipal, que tentou apaziguar as duas briguentas, escapou de levar um ovo em seu quepe. Uma situação lamentável, esdrúxula e ao mesmo tempo cômica destas que aparecem nas cenas de novelas. De volta, Telma e Lúcia, cada uma empunhando seu carrinho de feira, praticamente vazio, chegaram ao edifício onde moravam. Na portaria, Antonio diante do estado em que se encontravam, perguntou: o que aconteceu?

Nenhuma das duas respondeu nada. Sérias e caladas pegaram o elevador de serviço, subindo cada qual para o seu apartamento, no sexto andar. Antonio, diante do silêncio das duas, não precisou esperar muito para saber o que tinha acontecido. À noite, no telejornal regional, descobriu o que tinha acontecido na feira.

Depois deste episodio deplorável, quase não são vistas e relacionamento entre as duas, parece que melhorou. Espere um pouco! Aquela não é Telma na entrada do elevador, agarrando Lúcia pelos cabelos? “Pelas barbas do profeta!” Lúcia usa peruca?…

Continue lendo

Crônicas

Essa história de morrer de amor

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Fonte da foto: morguefile.com

Ninguém morre de amor, mas, eu não falo daquela morte matada, daquela que se joga da ponte, toma veneno e se mata porque não tem o amor de alguém, como se amor tivesse dono. Eu falo daquele morrer de amor que é um derretimento só, uma solidão de um pensar sem fim, que faz a gente sentar no banco da praça e achar que é o único no mundo. Esse morrer de amor é um paradoxo. Imagine alguém desfalecer, sucumbir, esmorecer por causa de um amor, quando se está de quatro, praticamente entregue, sem eira nem beira.

Digamos que alguém morra, de fato, dessa morte morrida, sem volta. Que chato! Amou alguém e partiu, e deixou o amor aqui entregue a alguém mais esperto, mais resistente, mais cheio de palavreado. Que coisa, essa coisa de morrer de amor!

Digamos, novamente, que você encontrou alguém, ficou perdida ou perdido, não consegue viver longe, quer sentir o cheiro, o toque da pele, ouvir a voz, trocar beijos quentes, alguém pode morrer assim, desse jeito? Brincadeira, gente, ninguém pode morrer depois, muito menos durante uma coisa dessas.

Tá. Vem você me dizer que morre de saudades. E precisa morrer para sentir uma coisa assim, tão diferente? Chega de saudades, nunca! Saudade é coisa boa, dessas que remexe lá por dentro, deixa com falta de ar, meio saudosa, ops, repetindo, é coisa que dói sem sofrimento, mas um sofrer meio ausente, que mesmo quando se está por perto, a saudade parece que aperta mais ainda porque tem um momento, ah! que é preciso se desligar do abraço, sair do beijo apertado e sentar no banco cansado, esperando o round seguinte.

Pode alguém morrer por isso? Imagine! Nem de longe! E isso, gente, é momento para se morrer, naquele precioso momento, que a gente esperou por tanto tempo e finalmente aconteceu? Caramba! Muita falta de imaginação (se é que isso é momento para imaginar alguma coisa). É hora de atuação.

Mas, está bem, vá lá que eu concorde. Morrer de amor, e quantos poetas não morreram. Mas, vocês já perceberam que todo poeta que fala em morte, na verdade não tem ninguém ao seu lado? Só a imaginação descontrolada, tentando justificar uma ausência. Que poeta perderia tempo em fazer poesia, se a própria poesia já está ao seu lado, e parte logo, poeta, para o ato de fazer poesia de fato, na cama, no amasso do portão, na entrada da janela deixada aberta para entrar o ar… da sua graça.

Mas, para resumir essa história de morrer de amor, é uma grande mentira, falácia, coisa de trouxa, para enrolar com palavras o que se quer dizer. Na verdade, minha gente, na dura, ninguém morre, tá vivendo e é de graça.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

Continue lendo

Crônicas

Não só de pão vive o homem

Por Nilson Lattari.

Publicado em

Não só de pão vive o homem

De pão vive o homem para buscar a alimentação do corpo. Mas, não só de pão vive o homem, mas vive do alimento da arte, do alimento do olhar, do alimento da vontade.

Qual aquele que, estando diante do ser amado, mesmo depois de desprezar a poesia como arte menor, de pouca importância, produto de fraquezas humanas, não se torna capaz de fazer promessas, fazer comparações de belezas, dizer amorosas frases, inconscientemente, se valendo das amarguras, dos desamparos daqueles mesmos poetas?

Quando se descobre o amor, ou no êxtase de um descobrimento, são as palavras de sensíveis seres, que eternizaram em papéis largados nos cantos das mesas, nas brochuras de livros velhos, nas epígrafes, que descobrimos que o alimento de que nos servimos foi dado por um artista da palavra.

Descobrimos as belezas das cores quando elas se juntam e formam uma figura que não sai da nossa lembrança. Nos alimentamos da organização das cores ao organizar nossa casa, nossa mesa de trabalho, nossas roupas, na combinação da cortina; um artista nos deu na boca a fina expressão de um pensamento na forma da cor, e nos disse, sem sabermos, o que não pode permanecer junto e aquilo que é inseparável.

E as formas curvas, retas, aplicadas com maestria nos alimenta no percurso com que a avidez do nosso olhar percorre paisagens. Sensuais nas ondulações, na correção do raciocínio em célere encontro pelo caminho mais rápido, ditos pelos artistas dos números, nos desenhos incontroláveis dos arquitetos. Como nos alimentamos do certo, do plausível dito por outros!

Nem só de pão vive o homem, porque a alma não se alimenta de corpos vivos, de matéria. Nossa alma se alimenta do frescor do mundo, das ideias novas, dos projetos, daquilo que fazemos e daquilo que não fazemos, mesmo as decepções da nossa alma a enriquecem e, fortalecida, está sempre pronta para alavancar nosso futuro.

Nossa alma se alimenta da energia proporcionada por outras almas, outros seres; nossa alma se alimenta daquilo que aprendemos, daquilo que ensinamos, ir e vir contínuo do fluxo temporal, sangue a correr rápido, alimentado pelos incentivos; pela nossa história.

Continue lendo

Mais lidas