Sobre desertos

Foto: morguefile.com

As ruas estão desertas. No meio do dia, ouço o sem-teto conhecido do bairro gritando pelas ruas: “Gente, onde estão vocês? Cadê todo mundo?” Profeticamente, ele encosta o rosto na parede, como se socasse os seus pensamentos, tentando extrair alguma coisa mais e começa cantarolando:” Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”.

Têm coisas que nos causam calafrios. Escondido dentro dos meus pensamentos, envolvido pelas paredes da minha casa, no andar mais alto, escuto os sinais que saem dos seus pensamentos, encontrando os meus.

Mas a questão é falar sobre desertos, e sobre praias; “As praias desertas continuam procurando por você”, que elas, finalmente, nos encontrem. Ou não?

Mas os desertos vão mais além do plano terrestre, os desertos habitam pensamentos. Desertos em gente de bem, de bem com a vida, com o dinheiro no bolso cheio, que teme ficar deserto.

O sem-teto caminha pelo deserto das ruas, e a sua voz prediz o previsível.

Dizem que o deserto tem sua beleza, uma solidão, uma infinitude, uma ausência de vida, de cor única, e o peregrino avança tendo como companhia a sua sombra, a única que muda com o seu andar, algumas vezes longa e distante, e algumas vezes perto, muito perto. Porque, algumas vezes, o perigo parece distante, e em outras vezes ele está perto, muito perto.

No seu andar claudicante ele tenta sobreviver nas ruas ausentes de gente. Quem socorre o caminhante? Ele é um filósofo (me confessou, uma vez, que estudou Filosofia) e percebe a vida nas ruas muito mais além do deserto, mais além de um bêbado e equilibrista.

Mas os desertos continuam, e eles estão “nas cabeças e andam nas bocas”. As sombras seguem autômatas as ordens presidenciais de um contaminado pelos desertos de pensamentos, e saem pelas ruas desafiando o bom-senso. Sim, como elas poderão sobreviver sem a sua renda? É uma questão, e é nessa hora que o Estadista, com E maiúsculo, entra em ação. Ordena que todos sobrevivam, porque todos são importantes. Afinal, é um caso que é perigoso para os idosos, aqueles com mais de 60 anos, não é mesmo? mais ou menos como um discurso de excludentes, daqueles que são pesos na sociedade. E são, justamente, os cientistas, os professores, os mais experientes, os que mais viram coisas, os que podem, com sua experiência, ajudar a combater e, principalmente, passar sua experiência para os mais jovens, os aprendizes, os que “não vão morrer”. Sem os guias dos desertos? Será mesmo? Não vão?

Que sinais, o sem-teto do bairro fala? De onde eles vêm? O deserto vive da ausência, a ignorância também, uma espécie de deserto que vai nos matar a todos de sede. E eles vêm do silêncio que “anda nas cabeças e anda nas bocas”.

O Autor

Nilson Lattari

Nilson Lattari é carioca e atualmente morando em Juiz de Fora (MG). Escritor e blogueiro no site www.nilsonlattari.com.br e facebook/blogdonilsonlattari. Vencedor duas vezes no Prêmio UFF de Literatura 2011 e 2014, e Prêmio Darcy Ribeiro – Ribeirão Preto 2014 em crônicas e terceiro colocado em contos no Prêmio UFF em 2009. Finalista em livro de contos no Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romances no Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em contos, crônicas e poesias. Foi operador financeiro, mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem

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