Cachaça envelhecida com irradiação reduz ressaca, diz USP de Piracicaba

“Funciona, mas não faz milagre”, afirma pesquisador que coordenou estudo.
Pesquisa é realizada no Centro de Energia Nuclear na Agricultura, na Esalq.

Valter Arthur e Juliana Pires, pesquisadores do
Cena em Piracicaba (Foto: Araripe Castilho/G1)

Uma cachaça que não precisa curtir anos em barril de madeira para ganhar em qualidade e que ainda pode dar menos ressaca. O produto é resultado de uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba (SP), que usa irradiação para acelerar o envelhecimento.

O método alternativo substitui o processo tradicional que pode levar anos e “envelhece” em um aparelho irradiador em menos de uma hora a aguardente já engarrafada, ou seja, pronta para ser comercializada.

Isso aumenta a viabilidade econômica de produção em larga escala, segundo o professor Valter Arthur, que coordena o estudo no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), vinculado à USP, no campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq).

Outras instituições, entre elas o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, já experimentaram o uso de irradiação em estudos com bebidas destiladas. Mas uma das novidades na pesquisa do Cena é a incorporação de extratos como própolis ou urucum, que dão aquela cor amarelinha ao produto final.

Cachaça curtida com irradiação promete dar
menos ressaca (Foto: Araripe Castilho/G1)

O pesquisador afirmou, no entanto, que apesar de a irradiação melhorar as propriedades da pinga, “não dá para fazer milagre”. De acordo com ele, “não adianta pegar uma garrafa que custa R$ 1,25 no mercado e achar que vai mudar muita coisa colocando-a no irradiador”.

Se o produto for de qualidade, porém, a vantagem é a eliminação da etapa mais demorada para a obtenção de uma bebida refinada, disse Arthur. “Tempo é dinheiro. Esse é o raciocínio.”

A bebida submetida ao processo apresenta diminuição dos aldeídos, componentes responsáveis pela dor de cabeça causada após o consumo de doses mais generosas, segundo Juliana Angelo Pires, aluna do Cena que também integra o estudo.

Desafios
Para Arthur e Juliana, a técnica ainda pode ser aprimorada, mas o custo para transportar a cachaça da fábrica até os poucos irradiadores existentes no Brasil ainda vai emperrar a disseminação do processo, apesar do ganho que se espera com a eliminação da estocagem por longos períodos.

Além disso, o pesquisador disse acreditar que ainda existe um certo preconceito em relação ao uso da irradiação. “Precisamos desmistificar essa questão”, afirmou.

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