Após cinco meses da morte, corpo do macaco Chico continua congelado

Juiz avaliou que a decisão sobre o empalhamento do animal não é dele.
Alternativa é doar o animal ao CDCC da USP, afirma advogado da dona.

Macaca-prego ‘Chico’ ficou separada da família
durante 16 dias (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Cinco meses após a morte, o corpo do macaco-prego Chico continua congelado em uma clínica veterinária de São Carlos (SP). O animal, que viveu por 38 anos com a dona de casa Elizete Carmona, passaria por um processo de taxidermia, o empalhamento, e ficaria em exposição no Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC) da USP.  Apesar disso, o procedimento dependida de autorização judicial, mas o juiz avaliou que a decisão não era dele. A defesa de Elizete não informou que tipo de ação será tomada.

Chico morreu no dia 7 de fevereiro deste ano. A dona de casa de 72 anos ainda guarda a foto do animal com carinho. No fundo do quintal da casa, a jaula e a casinha do macaco estão do mesmo jeito. “Tenho saudade dele. Choro todo dia, não posso nem vir pra cá”, lamentou.

O animal foi criado por Elizete sem autorização do Ibama. Depois de denúncias, a Polícia Ambiental retirou o macaco, que foi levado para a Associação Protetora dos Animais de Assis. A separação repercutiu nas redes sociais e na imprensa internacional. Um abaixo-assinado pedindo o retorno do animal teve adesão de mais de 18 mil pessoas.

Depois da disputa na Justiça, a família conseguiu o animal de volta, mas ele morreu cinco meses depois. A família entrou com uma ação para que o animal passasse por um processo de taxidermia, mas o juiz encerrou o caso, sem definir o pedido. “O juiz se deu por incompetente para julgar isso e informou que não seria ele que decidiria o pedido”, disse o advogado da família, Flávio Lazzarotto.

Indefinido
O corpo de Chico está preservado até que seja definido o que vai ser feito. Uma das possibilidades para ele ser empalhado é a doação para o CDCC da USP. “Ficaria no próprio CDCC para estudos e para divulgação do trabalho com esses animais silvestres. A maior dificuldade é encontrar a parte legal que autorize essa taxidermia, já que o juiz demonstrou que não fazia parte do processo decidir isso”, explicou Lazarotto. O advogado, no entanto, não informou qual será o procedimento a partir de agora.

Para a dona de casa, o corpo do macaco, que antes alegrava a todos pulado de um lado ao outro, agora pode ser útil de outra forma. “A história dele é muito bonita para morrer, enterra e morre. eles vão marcar tudo direitinho para ele não ser esquecido”, disse.

Em nota, o CDCC da USP informou que tem autorização legal para receber, armazenar e tratar material biológico da fauna silvestre para atividades de educação ambiental, mas não cabe ao centro fazer a solicitação do macaco Chico na Justiça.

De acordo com o CDCC, a taxidermia pode ser realizada em até um ano, uma vez que o corpo do macaco está congelado. O processo consiste em retirar as vísceras do animal, preparar a pele, realizar o enchimento e depois a secagem. O trabalho pode levar de 15 a 30 dias.

Macaco Chico morreu aos 38 anos nos braços da
dona em São Carlos (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

Relembre o caso
O animal foi entregue à Elizete em 1976 por um caminhoneiro amigo da família. Conhecido como Chico, o bicho foi retirado pela Polícia Militar Ambiental após denúncias, no dia 3 de agosto do ano passado porque, de acordo com a legislação, manter um animal silvestre sem a devida autorização é crime contra a fauna.

A separação do bicho da dona ganhou repercussão internacional e internautas mobilizaram dois abaixo-assinados na web que pediam a volta da macaca. O caso foi divulgado no site do jornal norte-americano “The Washington Post”, na BBC, Fox News, entre outros. A história também foi capa da revista Terra da Gente, do grupo EPTV, no mês de outubro.

Com a ajuda de um advogado, a família entrou na Justiça para tentar trazer o animal de volta. O Ministério Público de São Carlos se comprometeu a acompanhar a adaptação do animal no novo lar no prazo de 60 dias. Uma decisão da juíza Gabriela Muller Carioba Attanasio determinou o retorno da macaco em até cinco dias após notificação à A Secretaria Estadual do Meio Ambiente. A notícia surpreendeu a aposentada, que até mudou o visual para receber o bicho. Chico voltou para a dona 16 dias depois.

Uma das determinações da Justiça para que o macaco retornasse a São Carlos era que tivesse um espaço adaptado para ele. Com isso, o “Recanto do Chico” foi inaugurado no dia 7 de setembro com direito à festa para vizinhos e amigos.

O local, com 14 metros quadrados, foi construído baseado em normas do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e adaptado para ser montado nos fundos da casa de Elizete. O espaço conta com grades, puleiros, escadas e cipós para que o animal pudesse se movimentar e tivesse um ambiente mais dinâmico.

Em novembro do ano passado, uma equipe do programa Animal Planet passou quatro dias na cidade para colher o material. O conteúdo será exibido neste ano no canal Discovery.

Durante os registros, foi possível constatar que o macaco é macho e não fêmea como divulgado em agosto pela Associação Protetora dos Animais (APASS) de Assis (SP) para onde ele foi levado após ser retirado da família. Procurada, a ONG informou que o animal que saiu da sede era uma fêmea.

Morte
No dia 7 de fervereiro, o macaco-prego morreu nos braços da dona. Segundo o exame necroscópico, ele morreu de insuficiência renal, provocada pela idade. Na ocasião, Elizete disse ao site G1 que Chico ficou doente e foi levado ao veterinário. “Ele pediu para voltar 17h30. No caminho, ele olhou para mim e deu um suspiro. Ele morreu no meu peito”, disse emocionada na época.

Macaco-prego Chico foi criado por família de São Carlos durante 38 anos (Foto: Fabio Rodrigues/G1)

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