Cinco meses após homicídio, família de vítima e Polícia Civil fazem apelo para localização de acusado

Irmã de rapaz morto a tiros, em Rancharia, enfatizou que quer Justiça. Já a defesa alegou que tentará a revogação da prisão preventiva do envolvido no crime.

Irmã de Renan divulgou fotos de Kayo nas redes sociais e apela pela denúncia (Foto: Reprodução/Facebook)

A Polícia Civil de Rancharia divulgou ao portal de notícias da Rede Globo, G1, o mandado de prisão preventiva contra Kayo Roberto Theodoro Grillo, de 18 anos. Ele é acusado de matar a tiros Renan Gustavo Amandio dos Santos, na época com 20 anos, na noite do dia 31 de dezembro de 2016, após uma briga em uma conveniência localizada em um posto de combustíveis da cidade. Kayo está foragido e a corporação, bem como a família, apela pelo apoio da sociedade para denunciar o rapaz caso ele seja visto. Sua situação já está disponível no Banco Nacional de Mandados de Prisão, no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

O delegado de Rancharia, Arlindo Ribeiro de Sales, explicou ao G1 que havia um pedido de prisão temporária contra o acusado, mas a corporação não localizou o indivíduo durante as diligências. “Aparentemente, ele não está na região”, comentou.

Durante o andamento das investigações, o advogado de Kayo foi à unidade policial e entregou à Polícia Civil um revólver de calibre 38, que foi utilizado no crime, conforme contou ao G1 o delegado. Ribeiro acredita ter sido uma tentativa de revogação da prisão, mas sem sucesso, já que o indiciado ainda não foi preso. A arma de fogo foi periciada e encaminhada à Justiça.

Com isso, a Polícia Civil encerrou as investigações e concluiu que Kayo foi, de fato, o autor dos disparos que mataram Renan. Além disso, a corporação representou pela prisão preventiva do rapaz, que foi aceita pela 1ª Vara do Fórum de Rancharia.

“É uma nova fase. É uma relação processual judicial e o mandado é registrado no Conselho Nacional de Justiça e no Instituto de Identificação Instituto de Identificação ‘Ricardo Gumbleton Daunt’ , que registra e insere a pessoa no banco de dados de procurados da Polícia Civil”, explicou o delegado ao G1.

A Polícia Civil continua em diligências, inclusive, em outros estados.

Renan foi morto a tiros, em Rancharia (Foto: Arquivo pessoal/Patrícia Aparecida dos Santos)

Ribeiro salientou que continua acompanhando o caso e pede para que, se alguém chegar a ver Kayo, avise a polícia, seja a Civil (197) ou a Militar (190), como também pelo Disque-denúncia (180). “Aguardamos que ele seja abordado em alguma blitz ou estrada. Ele não pode ficar num quarto para sempre. Ele está preso fora, pois não tem liberdade para nada. Nem responde pelo que fez e nem vive pacificamente”, disse o delegado ao G1.

Preventiva

O decreto da prisão preventiva foi expedido diante do recebimento de denúncia. No documento a que o G1 também teve acesso, a Justiça diz que “há nos autos provas suficientes do fato e de indícios razoáveis de sua autoria, em especial, pelas provas testemunhais constantes nos autos”.

O mandado foi expedido para que o réu seja citado e responda pela acusação. O recebimento da notificação deverá ser comunicado ao Instituto de Identificação “Ricardo Gumbleton Daunt” (IIRGD), do Departamento de Inteligência da Polícia Civil.

“Conforme consta nos autos, o réu está sendo acusado da prática do crime de homicídio, uma vez que desferiu disparos de arma de fogo, que foram a causa da morte de Renan Gustavo Amandio dos Santos, ocorrido no dia 31 de dezembro de 2016. Foi expedido mandado de prisão temporária nos autos e não há notícias do cumprimento até o presente momento”, informou o documento. “Há provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria”, diz ainda.

Os fatos apontam que a prática do delito é punido com pena privativa de liberdade superior a quatro anos, conforme o artigo 313, inciso I, do Código Processual Penal (CPP), “estando presentes os requisitos da prisão preventiva, encerrados na materialidade e indícios suficientes de autoria”.

“Os fatos relatados nos autos praticados em tese pelo denunciado constituem um crime de homicídio qualificado, o que demonstra uma periculosidade fora dos padrões normais de um ser humano que possa conviver em sociedade. Se não é demais acrescentar tratar-se de crime grave, o que induz grande repercussão local, circunstância a exigir imediata resposta da autoridade policial para a preservação da ordem pública e garantia da aplicação da lei penal”, conforme consta no documento.

Ainda é colocado que a falta da prisão “causa sensação de impunidade e desalento à sociedade, em prejuízo da credibilidade da Justiça”.

Acusação

O advogado da família de Renan Gustavo Amandio dos Santos, Samir Haddad Júnior, salientou que a autoria do crime não tem controvérsias, já que ocorreu em um local público e “na frente de várias pessoas”. A movimentação de Kayo, inclusive, foi flagrada por câmeras de vigilância no posto de combustíveis onde a vítima e o autor estavam, conforme a acusação. O estabelecimento é um “point” de jovens em Rancharia.

Ambos tiveram um desentendimento em outro local nas proximidades e Kayo foi em sua casa buscar a arma de fogo, conforme relatou Haddad Júnior ao G1. “Quando ele voltou, já no posto de combustíveis, matou o Renan friamente”, disse.

O crime foi na noite de 31 de dezembro de 2016 e, desde então, Kayo não foi localizado. “A família está desesperada porque ele está foragido. Não se faz Justiça sem a prisão do réu”, salientou o advogado da acusação. Haddad Júnior aponta que o autor ainda é jovem e acredita que sua família também esteja sofrendo com a situação, mas ressalta que a dor da família da vítima se sobressai devido à perda da vida do rapaz.

“Queremos que ele seja preso e condenado. Queremos a Justiça dos homens”, afirmou o advogado ao G1. “Estamos lutando de todas as formas para ajudar a polícia na localização ”, acrescentou.

Haddad Júnior enfatizou que, “para acusar alguém”, é necessário ter a “certeza absoluta da autoria”. “Neste caso, tenho certeza de que a pessoa cometeu o crime. A pior coisa é acusar alguém inocente”, enfatizou. O motivo exato da discussão ainda não foi descoberto, segundo o advogado disse ao G1.

Laudo da perícia anexou imagens do momento em que ocorreu o crime (Foto: Reprodução/Cedida/Polícia Civil)

Sem prisão

No dia 31 de maio, a morte de Renan Gustavo Amandio dos Santos completou cinco meses e a família do rapaz ainda aguarda, ansiosamente, pela prisão de Kayo Roberto Theodoro Grillo. “Já é triste ter perdido meu irmão desta forma e ele continua impune”, disse ao G1 a agente comunitária de saúde Patrícia Aparecida dos Santos, que é irmã da vítima.

Até onde Patrícia sabe, Renan e Kayo não se conheciam e as pessoas que estavam no posto de combustíveis onde ocorreu o crime, bem como os amigos do rapaz, confirmam a situação. “Eu mesma nunca tinha visto esse Kayo e não conhecia a família”, comentou ao G1. “Ficamos revoltados. Os amigos dele falam que eles não se conheciam e que não tinham nenhuma desavença antiga. Até que meu irmão tentou acabar com a briga, na boa-fé”, relatou.

A briga a que Patrícia se refere foi a que ocorreu antes da morte de Renan. Ela contou ao G1 que, na noite de 31 de dezembro, o irmão e seu enteado saíram com as respectivas namoradas e estavam no posto de combustíveis, até que houve a confusão entre Kayo e outros rapazes. Entretanto, Renan ajudou a apartar a briga. Ao final, Kayo foi embora e disse que voltaria.

Patrícia disse que Renan nunca foi “briguento”. “Ele não era violento. Até meu enteado diz: ‘O Renan nunca foi de briga, e aconteceu isso com ele?’”, comentou. “Acredito que o Kayo não tenha falado ‘Ah, vou matar o Renan’. Ele estava fora de si e o Renan foi na boa índole em sua direção. Qualquer pessoa que tivesse feito isso, que estivesse ali, teria o fim que meu irmão teve”, declarou ao G1.

Imagens

Patrícia assistiu às imagens de segurança do posto de combustíveis e viu como tudo aconteceu. Os vídeos não puderam ser divulgados ao G1.

“Teve uma briga com o Kayo e outras pessoas. Diz que o Renan não estava no meio, mas ajudou a separar a briga. O Kayo falou que ia voltar. Na hora, estavam meu irmão, a namorada do meu irmão e a namorada do meu enteado, elas viram tudo. Quando o Kayo voltou, que parou a caminhonete, meu irmão falou: ‘Ah, vai começar tudo de novo’ e foi de encontro ao Kayo e disse ‘Cara, já deu’. Foram as últimas palavras dele para o Kayo. Ele desceu da caminhonete e atirou”, relatou Patrícia ao G1.

Ainda segundo descreveu Patrícia ao G1, um tiro pegou na barriga de Renan. “Ele dá uns passos para trás, com as mãos no ferimento, e cai perto de um freezer. O Kayo anda em direção a ele, o puxa pela perna e dá mais dois tiros, que acertaram a face e outro na mão. Ele ainda mira e dispara em direção a outras pessoas, mas não acertou”, contou.

“Ele deu três tiros. Se tivesse dado uma chance de vida para o meu irmão, a gente até perdoava, mas deu um tiro à queima roupa no rosto do meu irmão. Mesmo que houvesse uma briga entre eles, nada justifica tirar a vida”, enfatizou Patrícia.

Divulgação e Justiça

Após o crime e a fuga do acusado, Patrícia começou a divulgar a foto de Kayo e pedir Justiça para o irmão nas redes sociais. “A gente se sente desamparada. demorou até para chegar ao Fórum, estava só com a Polícia Civil”, afirmou. Em uma das postagens (veja imagem acima), feita na noite do dia 10 de maio, a agente comunitária diz:

“Esse monstro, assassino frio que tirou a vida do meu irmão continua impune, foragido, agora me pergunto numa cidade pequena como a nossa onde todos se conhecem é no mínimo estranho né, assassinatos que ocorreram na mesma época do crime contra meu irmão, onde as vítimas eram pessoas com certo poder aquisitivo ou tinham parentes com cargos influentes, já foram resolvidos logo após os crimes…é de se pensar…. E se fosse o contrário, se meu irmão? Sem família com dinheiro, sem pai com amigos influentes aqui (até porque meu pai faziam 26 dias que havia falecido, quando meu irmão foi assassinado), tenho certeza que aí a estória seria bem diferente, então por favor compartilhem essa foto, esse assassino tem que pagar pelo que fez #soquerojustiçanadamais. O nome dele é KAIO ROBERTO THEODORO GRILLO”.

Quando há postagens, conforme contou Patrícia ao G1, algumas pessoas a contatam e dizem ter visto Kayo, porém, não o denunciam e, quando ela procura a polícia, o rapaz já não é mais localizado. Ela diz que, “talvez, se ele fosse ao contrário, se ele fosse de família humilde, ele estaria preso”.

“A gente não quer Justiça com a própria mão. Quero que ele seja preso. Se ver, denuncie para a polícia. Ele é fugitivo e matou uma pessoa. Quero Justiça para o meu irmão. Só quero que ele pague, para que no futuro os jovens pensem antes de puxar o gatilho. Uma vida não pode ser ceifada desse jeito como se não tivesse valor nenhum”, declarou a irmã de Renan ao G1.

Defesa

O advogado de Kayo, Orlando Machado Júnior, confirma a entrega da arma usada no crime e diz que busca meios para que o acusado responda pelo homicídio em liberdade. “Geralmente, quando acontece um crime, o normal é que passe o período de flagrante e a pessoa vá se apresentar. No caso do Kayo, o delegado não esperou o flagrante, requereu a prisão temporária e prejudicou o habeas corpus. Então, agora, vamos atacar a preventiva”, disse ao G1.

Segundo declarou Machado Júnior ao G1, Kayo também foi agredido, inclusive, pela vítima. “Houve uma agressão. Os próprios amigos da vítima, ouvidos no dia, falam que houve uma agressão, e que o Kayo apanhou, foi agredido, antes do desenrolar dos fatos. A vítima estava em maioria com os amigos. É um direito que a Justiça entenda em que ponto ocorreu ”, declarou o advogado.

Haverá, ainda, uma tentativa de revogar a prisão do acusado, conforme declarou o advogado. “Ele colaborou. A prisão está decretada em face da gravidade do crime em si. Mas, embora grave, não há motivo de prisão cautelar, ele é réu primário, tem endereço fixo, é trabalhador”, argumentou, ainda, o advogado. “Estou confiante de que ele possa responder em liberdade e buscar um julgamento justo”, finalizou ao G1.

“Isto tudo vai ser melhor esclarecido. Mas esta briga, com certeza, autoriza uma tese de homicídio privilegiado, porque houve a injusta provocação da vítima. Também não houve surpresa alguma. Naquelas circunstâncias, uma vez que o agressor avisou que voltaria, nervoso e dominado pela violenta emoção, a vítima deveria não permanecer ali, deveria, inclusive, procurar a polícia”, argumentou ao G1 Machado Júnior.

“Enfim, tudo vai ser devidamente analisado em juízo e, posteriormente, pelo júri. Mas não foi um caso de mera execução. De forma alguma. A defesa vai usar o direito de tentar revogar, nos tribunais, essa prisão que entendemos injusta e desnecessária”, salientou.

Testemunhas

Machado Júnior enviou ao G1 uma cópia do depoimento de duas testemunhas presenciais do crime, ouvidas logo após os fatos pela Polícia Civil. Ambas relatam a briga ocorrida no local entre outros rapazes e, também, entre Kayo e Renan.

No documento, um jovem, de 18 anos, alega que estava com colegas atrás do posto de combustíveis, quando escutou um tumulto. “Ao ver, constatou que os meninos estavam brigando. Estavam brigando o Renan e um tal de Caio . Viu eles ‘empelotados’ e foram lá e separaram. Depois disso, Caio sumiu. Não viu ninguém batendo no Caio”, diz o texto. A testemunha ainda colocou que não ouviu o rapaz fazer ameaças.

Ainda diz no documento enviado pelo advogado Orlando Machado Júnior ao G1 que a testemunha voltou ao local onde estava e Kayo retornou perguntando de Renan. “Na verdade não disse o nome, apenas perguntou onde estava o ‘cara’. Isto ocorreu na parte de trás do posto, perto do lava rápido. Deu uma discussão e Caio se afastou, momento em que o declarante viu que ele estava armado”, descreveu.

“Ninguém deu atenção. Caio foi para frente do posto de gasolina e então começou a escutar disparos. Escutou cinco estampidos. Caio voltou e viu o declarante. Ele olhou, apontou a arma e falou assim: ‘É você mesmo. É você mesmo’”, relata. “Ele então deu um tiro em sua direção. Estavam a cerca de cinco metros”. A testemunha saiu correndo e não percebeu se o tiro passou perto. O declarante continuou correndo e outro disparo foi feito.

Algum tempo depois, a testemunha viu Kayo entrando em uma caminhonete e acredita que havia outra pessoa junto neste momento, mas não sabe quem era. A testemunha afirmou que não conhecia Kayo, mas sabia o nome devido às pessoas que falaram e lhe mostraram em uma rede social.

O segundo depoimento é de uma moça que, na época, tinha 17 anos. Ela diz ser “colega” de Renan e estava no local. “Primeiro houve uma briga envolvendo e outros. entrou no meio da briga e Renan intercedeu para impedir a briga. O Kayo, do nada, começou a xingar Renan. Ele achou que Renan estava brigando com . Caio e Renan iniciaram uma briga, mas que foi interrompida rápida. Uns ‘caras’ entraram e derrubaram Caio sobre a corrente do posto. O Renan não bateu no Caio, foram os outros caras. Renan deu no máximo um chute e um murro”, diz o depoimento.

“O Caio levantou, entrou na caminhonete, parou defronte a todos e falou: ‘Agora vocês vão conhecer quem sou eu, vamos ver se voceis é homem ’. Ele foi embora com a caminhonete e voltou cerca de 20 minutos depois”. Em seguida, conforme consta do documento enviado por Machado Júnior ao G1, Kayo voltou ao estabelecimento, de caminhonete, e se aproximou a pé.

Renan, então, se dirigiu a ele e questionou por que queria brigar, de acordo com a cópia do depoimento cedida pelo advogado. “Ele disse: ‘É você mesmo’. Ele tirou uma arma da cintura, não sabe dizer se era revólver ou pistola, e deu um tiro. Renan caiu ao chão e ele foi até Renan e deu outro. Eles estavam próximos um do outro”. A depoente gritou e Kayo também lhe apontou a arma, mas não fez nada. Ela correu e, posteriormente, escutou outro tiro. Após, Kayo fugiu.

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