Pato de estimação vira ‘ajudante’ de oficina mecânica em Jaú

Ave “cumpre expediente” na restauração de veículos antigos. “Ele é mais que uma companhia, é meu amigo”, diz mecânico.

Durante o trabalho de Nico, pato Zé fica “de olho” nas ferramentas (Foto: Alan Schneider / G1)

“Todo dia ele faz tudo sempre igual / sai da lagoa às sete horas da manhã”. A adaptação da música “Cotidiano”, de Chico Buarque, cantada por um mecânico, serve para explicar a rotina de Zé. O pato virou “ajudante e amigo” em uma oficina de restauração de carros antigos, localizada em uma chácara às margens da vicinal que liga Jaú (SP) ao distrito de Potunduva.

O “exímio funcionário” mora na propriedade há pouco mais de seis meses. O mecânico e restaurador Dormevil Soares, de 67 anos, mais conhecido como Nico, começou a trabalhar no local no mesmo período. E a amizade foi à primeira vista. Segundo Nico, a presença de “Zé” não é vista somente como uma distração, mas também como a incomum amizade criada entre um homem e um pato.

Nico e Zé no ‘intervalo’ na oficina em Jaú
(Foto: Alan Schneider / G1)

Todos os dias, “Zé” espera o mecânico desligar a motocicleta para sair de um lago particular, em companhia de outra pata e de sua ninhada, para começar a cumprir seu expediente. “O Zé sabe a hora que eu chego. Às 7h30 eu puxo a primeira ferramenta e lá vem ele para me fazer companhia. Divido o pão do meu café da manhã e o feijão do meu almoço com ele. O pato fica comigo o dia inteiro e na hora de ir embora ele vira e desce para o seu lago. A gente brinca que só falta a “carteira assinada” para o Zé”, diz o restaurador, que trabalha com veículos há mais de 50 anos.

Durante o dia, “Zé” se divide entre as bicadinhas na comida de Nico e na guarda das ferramentas de Nico, mas sem tocar em nada. A ave também aproveita a sombra da oficina e não se importa nem um pouco com o barulho do martelo ou da música sertaneja que sai do rádio. “Vem cá amigo, não seja tímido. Olha só quanta gente veio te ver. Não se esconda debaixo do motor, você pode se machucar e vai fugir do “serviço”. Não pode!”, dizia Nico ao pato durante a entrevista para o G1.

Enquanto Zé descansa debaixo de uma sombra, Nico trabalha (Foto: Alan Schneider / G1)

Amizade e ciúme
Nico conta que “Zé” chegou ao sítio depois que o proprietário decidiu incrementar a lagoa com peixes e aves. Na primeira vez em que o pato saiu do seu habitat e foi até a oficina, o mecânico achou estranho, já que o animal não “era chegado” em mais ninguém. “Além de mim, um caseiro fica aqui o dia inteiro para cuidar do sítio. Ele e os filhos dele demonstraram logo de cara que sentiam medo da ave. Ele é grande, pelo jeito parece já ter alguma idade, mas eu nunca tive medo. Acho que é por isso que ele me respeitou logo de cara”, conta o restaurador.

Pato tem ciúmes e bica ajudante “oficial” de Nico
(Foto: Alan Schneider / G1)

A companhia de Zé veio para espantar a solidão de um trabalho criterioso e lento na restauração de um veículo Chevrolet anos 1940. Morador do Jardim Paineiras, Nico é natural de São Paulo, mas está na região de Jaú há pouco mais de 15 anos. Segundo ele, a tranquilidade do sítio às margens da vicinal é inspiradora e motiva ainda mais o trabalho.

“Brinco com meu patrão que devia pagar para trabalhar aqui. Além do Zé, que me faz companhia, temos aqui no sítio também cavalos, galos, galinhas e outros animais. É engraçado porque sinto que a tranquilidade me dá mais energia”, conta Nico.

Para Nico, “Zé”, que foi apelidado de forma espontânea pelo patrão, é mais que uma companhia. É um amigo. “Ele não está acostumado com tanta gente. Ficou assustado com a câmera e, por isso, fica avançando nas pessoas. Além do mais, ultimamente ele tem ficado todo ciumento”. O ciúme que o mecânico se refere é de Laurentino Ventura, de 76 anos.

Pato Zé recebe carinho do mecânico Nico (Foto: Alan Schneider / G1)

O funileiro foi contratado recentemente para ajudar Nico na restauração do carro antigo. “Ele encasquetou com o Laurentino. É só chegar perto que ele já bica a perna do coitado. O homem não pode chegar perto de mim. Meu amigo tem ciúme de mim”, diz Nico, que segura o pato de mais que quatro quilos no colo com direito a carinhos e até beijinhos.

Segundo o mecânico, ter animais por perto não é uma situação tão incomum. Ele e a família tomam conta de outros bichos e alimentam animais de rua há anos. “Nós temos alguns cães e cuidamos de gatos que moram nas ruas. Quando levamos nossos bichos para passear as pessoas perguntam por que os outros nos acompanham. Mas nenhum deles fica em casa. A única coisa que fazemos é dar comida a eles quando podemos”, diz Nico.

Por volta das 18h, Nico pega o capacete e se prepara para ir para casa depois de mais um dia de trabalho. Já “Zé”, o “ajudante e amigo” do mecânico, levanta voo sentido ao lago do sítio. E amanhã começa tudo de novo.

No final do expediente, o voo em direção ao lago (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)

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