Zé Carioca nascido no Copacabana Palace completa 70 anos

Zé Carioca foi gerado em 1941, no Rio, num salão do Copacabana Palace temporariamente convertido em estúdio de desenho para Disney .

Você não lhe daria mais do que uns 25 anos. Ele é simpático, falante, caloroso e atento a rabos de saia. Já o chamaram até de ­ ­–como se diz mesmo?– uma lenda viva. E, como toda lenda, sem idade. Mas, para quem é bom de aritmética, Zé Carioca, o irresistível papagaio brasileiro criado por Walt Disney, está fazendo 70 anos.

Sim, ele é da turma de 1942, que produziu também Caetano Veloso, Paul McCartney, Paulinho da Viola, Muhammad Ali, Calvin Klein, Clara Nunes, Nara Leão, Lou Reed, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Martin Scorsese, Tim Maia, o escritor Lobo Antunes e outros cuja vida e obra são de dar inveja. Para Zé Carioca, não será por falta de coadjuvantes ilustres que ele deixará de brilhar no ano de seu nascimento.

Livre, folgado e feliz, o setentão das histórias em quadrinhos nasceu no Rio, em 1942, e foi transferido para a Disney

Para os que nunca se aprofundaram em sua biografia, aí vão os dados básicos. Zé Carioca foi gerado em 1941, no Rio, num salão do Copacabana Palace temporariamente convertido em estúdio de desenho para Disney e seu pessoal, que colhiam dados para um filme que se passaria aqui e se chamaria “Alô, Amigos”. Disney queria criar um personagem brasileiro para fazê-lo contracenar com seu já famoso pato Donald. E logo encontrou o que procurava: um papagaio.´

Estava habituado à ideia arrogante e agressiva que alguns povos, entre os quais o dele, faziam de si mesmos, identificando-se com aves como águias, condores e falcões. Já o brasileiro, estranhamente, parecia sentir-se mais próximo do papagaio: duro, pobre, folgado, preguiçoso e desempregado –mas safo, quase safado, livre, feliz e capaz de aprender tudo rapidinho, inclusive a enrolar os gringos. As dezenas de piadas de papagaio que contaram a Walt no Copa convenceram-no de que o louro devia ser um herói nacional.

Com a contribuição (nunca creditada) de desenhistas brasileiros, como Luiz Sá e J. Carlos, as feições do sambista Herivelto Martins e o fraque, chapéu de palhinha, charuto, gravata-borboleta e guarda-chuva inspirados no Dr. Jacarandá, um folclórico personagem das ruas do Rio, Zé Carioca veio à luz um ano depois, no estúdio Disney, em Burbank, Califórnia. Americano no papel, mas de indiscutível DNA brasileiro –e carioca.

Tão carioca que seu gingado e gesticulação copiavam os do violonista José do Patrocínio de Oliveira, Zezinho, que trabalhava com Carmen Miranda nos EUA e era… paulista de Jundiaí. Zezinho até emprestou sua voz e seu sotaque a Zé Carioca “”não só em português, mas em todas as línguas para as quais “Alô, Amigos” (1942) e o fabuloso filme seguinte, “Você Já Foi à Bahia?” (1944), foram dublados. E assim, dessa simbiose, Zé Carioca nasceu universal, como talvez nem Walt tivesse sonhado “”ideal para estrelar gibis, como logo aconteceu nos EUA e, depois, no Brasil, até hoje.

Universal e atemporal. Grandes personagens são assim.

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