Xuxa diz que deputado que a criticou na Câmara queria ‘minuto de fama’

Com apoio da apresentadora, “Lei da Palmada” foi aprovada na Câmara.
Psicóloga dá dicas de educação para evitar as palmadas.

A apresentadora Xuxa disse ao Fantástico, exibido neste domingo (25), que o deputado Pastor Eurico (PSB-PE) teve seu “minuto de fama” ao criticá-la na Câmara dos Deputados durante sessão que discutia a chamada “Lei da Palmada”. O projeto de lei, que tem apoio da artista, proíbe pais e responsáveis legais por crianças e adolescentes de baterem nos menores de 18 anos.

Na última quarta-feira (21), Xuxa participou de uma sessão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara para discutir o projeto, que está parado há três anos. Na reunião, sua presença foi criticada pelo deputado pernambucano.

“Mas a conhecida Rainha dos Baixinhos que no ano de 82 provocou a maior violência contra as crianças em um filme pornográfico”, acusou o deputado Pastor Eurico (PSB-PE).

“O que ele queria ele conseguiu. O minuto dele de fama”, contou Xuxa  sobre a declaração do deputado.

Como era convidada, a apresentadora não podia se manifestar durante a sessão. “Acho que o que me senti mal ali na situação não foi nem o que eu ouvi, mas o que eu não pude falar. Você não pode falar. Você pode ser julgada, condenada, crucificada ali e fica quieta”, disse Xuxa.

“É um desrespeito às crianças, ao nosso Brasil”, afirmou o deputado, que acabou afastado da comissão devido ao episódio.

Após o episódio entre Xuxa e Pastor Eurico, a sessão da CCJ teve que ser encerrada. Mais tarde, ainda na quarta-feira, a discussão sobre o projeto foi retomada e o texto acabou aprovado por unanimidade.

Para ter validade, o texto ainda terá que ser aprovado pelo Senado, mas a lei já foi rebatizada pelos deputados de “Menino Bernardo”, uma homenagem ao garoto que foi morto no Rio Grande do Sul há um mês. Os principais suspeitos são o pai e a madrasta.

Xuxa fez sinal de coração no momento em que o
deputado Pastor Eurico criticou a presença dela na
CCJ da Câmara (Foto: Ailton de Freitas / O Globo)

O texto aprovado pela Câmara determina que “menores de 18 anos têm o direito de serem educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante”. Castigo físico é definido pelo projeto como “a ação de natureza disciplinar com uso da força física que resulte em sofrimento físico ou lesão à criança ou ao adolescente”.

O projeto, porém, não diz que tipo de agressão pode ser considerada castigo físico nem prevê punição para os pais que descumprirem a lei. Caberá ao juiz decidir sobre a conduta dos pais.

“Vamos ter que analisar caso a caso. É impossível se definir o que é um castigo físico. Nós vamos ter que ver dentro da situação o que seja esse castigo e que trauma possa trazer ou não para a criança”, explicou o advogado Sérgio Calmon.

O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), que ajudou a elaborar o projeto, disse que o objetivo é pedagógico.

“A lei deixa claro que todo tipo de violência física contra as crianças que gere sofrimento físico deve ser evitado”, disse o parlamentar.

Xuxa disse ao Fantástico que defende a total ausência de violência. “Eu acho que não tem que ter violência contra a criança. Ninguém está falando de como tem ser feito, a gente está falando do que não pode ser feito. Não pode usar violência”, afirmou.

Pais divididos
A nova proposta de lei expõe um dilema como o vivido pela família de Fernando Matos
Leal e Márcia Silva Santos. Eles discordam num ponto da educação do filho Felipe, de dois anos.

“Pode bater, pode dar um tapinha no bumbum da criança, normal”, disse Fernando. Mas, para Márcia, não é bem assim. “A primeira vez que meu marido deu uma palmada nele eu chorei junto. E eu sou contra. ”

Pra a mãe, palmada não educa. “Tive uma madrasta, apanhei muito dela. Mas não me acrescentou em nada”. Já Fernando pensa que o método pode ensinar algo. “Você fala, fala e ele não para. Você vai dar uma palmada nele. É pra dar limite. O basta é aquilo ali”, disse.

Foi um processo longo para que a diarista Marilda Campos aprendesse a tirar a violência da sua rotina com os seis filhos.

“Eu apanhava muito. Minha madrinha me judiava muito. Foi uma infância muito ruim, muito triste. Eu tenho marca no corpo até hoje disso e isso me trouxe muita tristeza. Eu achava que do jeito que ela me ensinava era o jeito de eu ensinar meus filhos. Toda a vez que eu batia nos meus filhos eu me sentia mal, muito mal mesmo”, admitiu Marilda.

Marilda procurou ajuda de uma psicóloga e começou a colocar em prática o que é chamado de “educação positiva”. A psicóloga Amanda Vilella explicou os três passos principais.

O primeiro passo é: sempre conte até 10. “Todo adulto que educa uma criança tem que ter uma bagagem de tolerância e paciência um pouco maior. É aquele velho contar até 10. A gente tem que respirar, às vezes ter calma, ter firmeza na hora de falar”, contou a psicóloga.

A segunda dica da psicóloga é: elogie bons comportamentos. “A gente costuma punir, coibir o negativo. Mas se a gente valoriza, reforça positivamente acertos da criança esse efeito é muito mais rápido”, aconselhou.

O terceiro passo é dar responsabilidades. “Nós adultos vamos lá e decidimos entre adultos e já comunicamos à criança. Olha, agora você vai dormir com seu irmão mais velho, agora você vai mudar de quarto. Envolva ela nessas simples decisões”.

No começo, tudo isso pode ser difícil. “Mas a gente consegue, como eu consegui e vou adiante e tenho o amor dos meus filhos agora”, contou Marilda.

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