Prestes a fazer 80 anos, Serguei ganha campanha em busca de ajuda

‘Na cabeça tenho 20 anos. Mas fisicamente tenho limitações’, diz o cantor, que se recupera de internação graças a um cuidador e a ajuda de amigos.

Serguei durante o Rock in Rio IV, em 2011 (Foto: Marcos Serra Lima/EGO)

Lenda viva do rock brasileiro, Serguei quer comemorar seus 80 anos, quem diria, cantando um hit da moderna música chilena. “Gracias a la vida”, de Violeta Parra, que já foi interpretada por Mercedes Sosa, Joan Baez e Elis Regina. Esta é uma das canções preferidas do cantor, que tenta sobreviver à idade avançada e aos poucos recursos mantendo a mente jovem e o espírito livre.

“Agora me sinto mais forte. Não me deixei vencer pelas doenças”, diz ele, que levou um susto em abril ao ser internado com desidratação, anemia e artrose. “Na cabeça estou com 20 anos. Mas fisicamente tenho limitações. Tenho medo de fazer muitas loucuras no palco agora”.

Campanha virtual para ajudar Serguei
(Foto: Facebook/Reprodução)

Não que ele tenha deixado o palco de lado. Depois da internação, Serguei fez algumas apresentações, a primeira delas, sentado em uma cadeira, em Brasília. “Quase chorei, as pessoas gritavam meu nome, beijavam minha mão. Também fiz um show maravilhoso em Porto Velho, foram cinco horas de viagem. Uma índia com dois filhos indiozinhos quis tirar uma foto comigo”.

“Parentes não querem saber dele”
As viagens, bem como o dia a dia de Serguei, vêm sendo acompanhados de perto pelo cuidador Marcos Roberto, que faz as vezes tanto de enfermeiro como de caseiro. É ele quem lembra o cantor de tomar os vários remédios diários – são cinco -, e que cuida do Templo do Rock, casa em Saquarema onde Serguei vive há 32 anos.

Segundo Marcos, a situação do cantor não é tão confortável financeiramente, tanto que foi criada, na internet, uma comunidade de apoio chamada “SOS Serguei – A melhor idade do rock”.

“Serguei tem parentes importantes que nem querem saber dele. Uma vez, entrei em contato com um deles, que se propôs a ajudar com remédios, e depois sumiu. Ele só tem uma prima que se preocupa e telefona sempre”, diz.

Serguei no início da carreira
(Foto: YouTube/Reprodução)

Marcos conta que Serguei sobrevive graças a uma aposentadoria dada pela prefeitura de Saquarema e aos shows que faz pelo Brasil, sozinho ou com a banda Pandemonium. Alguns artistas também se mobilizaram. “O Tom Cavalcante (humorista e apresentador) foi um dos que mais ajudou. Conseguiu medicamentos, uma cadeira para banho e um andador. Mas ainda falta muita coisa, a casa aqui é grande e precisa de cuidados constantes”, diz Marcos, que neste momento se surpreende ao ganhar de Serguei um café na bandeja. “Ele tem uma energia impressionante. Sempre fui fã e hoje somos como pai e filho”, diz o cuidador.

“O Marcos me lembra até de escovar os dentes”, brinca Serguei. Além dos remédios para artrose, ansiedade e das vitaminas, o roqueiro diz que anda sem memória. “A vida é muito longa. Preciso de um remédio para lembrar das coisas”.

Cantor não foi convidado para quinta edição
Mas, ao ser perguntado de suas duas participações no Rock in Rio, em 1991 e em 2001, Serguei parece se lembrar nitidamente do que aconteceu durante os shows. No Rock in Rio II, foi ele quem abriu o festival.

“Vi os portões do Maracanã sendo abertos e o público correndo em direção ao palco. Cantei “Help” dos Beatles”, conta ele, para logo depois citar sua diva-mor e eterna amante – platônica ou real – ninguém nunca saberá. “Pedi para todo mundo sentar para fazer um tributo a Janis Joplin. Dei um salto do palco e, com ajuda de seguranças, subi na cerca, onde cantei “Summertime”. Tinha colocado uma rosa dentro da cueca. De repente coloquei a mão dentro da calça e todo mundo achou que eu ia ficar sem roupa, mas tirei a rosa, lambi as pétalas e dei para um garotão lindo da plateia”.

Serguei no RiR em 1991 (Foto: YouTube/Reprodução)

Dez anos depois, no Rock in Rio III, Serguei fez uma participação durante o show de Sylvinho Blau Blau. “Entrei no palco vestido de urso cor de rosa. Ele foi arrancando minha fantasia, fiquei só com a cabeça do urso. No final ele gritou: “Serguei! Uma lenda viva do rock and roll!”. O público foi abaixo. Cantei “Satisfaction” só de sunga. Todo mundo queria pegar minhas roupas”.

Na última edição do festival, em 2011, Serguei não se apresentou em nenhum palco, mas fez questão de dar uma palinha no camarote. “Vim aqui para me divertir”, disse, na época, depois de cantar “With a little help from my friends”, dos Beatles, e “Born to be wild”, do Steppenwolf.

Às vésperas da quinta edição do festival, ele diz que até agora não recebeu nenhum convite oficial para participar do RiR. “Quando desfilei esse ano pela Mocidade, encontrei o Medina (Roberto Medina, criador do festival). Ele disse que eu estava magnífico, mas ficou por isso mesmo”.

Templo do Rock: detalhe da casa de Serguei, em
Saquarema (Foto: Foto Rio News)

Festa de 80 anos em Saquarema
O que está certo na vida de Serguei é uma festa que a prefeitura de Saquarema vai fazer para comemorar seus 80 anos, no próximo dia 8 de novembro. E uma homenagem em Niterói promovida pelos motociclistas da cidade, em 28 de setembro.

Enquanto as homenagens não vêm, Serguei continua recebendo fãs em seu Templo do Rock. São mais de 30 mil pessoas registradas no livro de visitas, que através de pôsteres, fotos, recortes de jornais e revistas, tiveram acesso ao seu passado de loucuras.

“São quase 50 anos desde que escandalizei o Brasil com minha maquiagem, meu cabelo, meus movimentos de perna e cintura, nos anos 60. Eu fazia gingas, jogava camisa no júri nos programas de TV. Depois vieram os Secos e Molhados e minha mãe disse: “Olha, filho, estão fazendo tudo o que você fazia”. Mas eu adoro o Ney Matogrosso, é um cantor fenomenal”.

Falando no ex-vocalista dos Secos e Molhados, Marcos lembra de uma história contada pelo próprio Serguei: “O Ney Matogrosso dizia para ele economizar a voz. Mas ele nunca atendeu. Fala sem parar, 24 horas por dia (risos)”.

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