Cartunista Quino comemora 50 anos de Mafalda em Buenos Aires

Autor diz que ela nunca deixa de lado um tema sequer, até o ódio por sopa.
Menina intelectualizada nasceu no número 99 da revista ‘Primeira Plana’.

O cartunista Joaquín Salvador Lavado, conhecido
como Quino, senta ao lado da personagem Mafalda
em um banco em San Telmo, em Buenos Aires
(Foto: AFP PHOTO/DANIEL GARCIA)

Mafalda, a menina mais irreverente e popular do mundo, completou 50 anos nesta segunda-feira (29) e ganhou a presença de Susanita e Manolito, outros dois personagens dos quadrinhos criado por Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido como Quino, para lhe fazer companhia no bairro portenho de San Telmo.

“Passaram 50 anos desde que foi publicada a primeira tirinha de Mafalda. Eu não acredito que já passaram 50 anos. Dizer que esperamos que viva mais 50? Da forma como o mundo está neste momento, não acho que cheguemos muito longe”, brincou Quino durante a festa de aniversário particular de sua famosa personagem.

Para o “pai” desta menina de olhar ácido, o mais gratificante é receber o carinho das pessoas na comemoração do nascimento de um personagem que passou “de vendedora de frigoríficos a estandarte da revolução”.

Sentada em seu banco em San Telmo, a partir de hoje, Mafalda estará acompanhada por seus melhores amigos, a sonhadora e egocêntrica Susanita, e o ambicioso e materialista Manolito, na esquina das ruas Chile e Defensa, a poucos metros da casa que Quino ocupou durante sete anos e onde criou a história inspirada em seus próprios sobrinhos.

Dezenas de moradores participaram da festa desta menina de seis anos que nasceu em 29 de setembro de 1964 no número 99 da revista “Primeira Plana”. A publicação apresentou a história de Quino como “uma história em quadrinhos quase da vida real, pela qual desfila uma intelectualizada menina, Mafalda, e seu peculiar mundo de familiares e de amigos”.

Durante décadas, esta respondona e crítica criança não deixou de lado um tema sequer, de política à economia, passando pela guerra, a educação, a cultura, os direitos, a amizade e, certamente, a justiça e seu ódio por sopa. “Acho que há 50 anos ela vem tentando fazer com que as pessoas entendam que temos que proteger o planeta, não brigar, não continuar fazendo as besteiras que fazemos sempre”, explicou Quino.

Meio século depois, seu criador sustenta que Mafalda “com certeza diria a mesma coisa hoje” e com “mais argumentos ainda, porque se leem os jornais, não é preciso perguntar o porquê”.

Agora, Quino se prepara para ir à Espanha receber o Prêmio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, que pela primeira vez é dado a um caricaturista. O autor quer ter a oportunidade de comer omelete de batata com o rei Felipe VI, embora reivindique suas raízes republicanas, herança de sua família espanhola. “Os colegas argentinos e espanhóis me deram isto. Fico muito honrado e agradeço a todos eles o apreço que tiveram com a minha obra”, declarou.

Filho de exilados republicanos espanhóis que se instalaram na cidade de Mendoza, Quino tem muitos motivos para comemorar este ano. Aos 82 anos, ele completa 60 de sua estreia como desenhista de humor e recebeu a Legião de Honra francesa em reconhecimento à universalidade de suas mensagens.

Além disso, acaba de ser declarado Doutor Honoris Causa da Universidade de Buenos Aires (UBA), e várias exposições simultâneas homenageiam seu trabalho nestes dias na capital argentina. Com meio século de vida, a menina que ama os Beatles tem ainda muito a dizer e motivos de sobra para gritar para o mundo parar, como em uma de suas historinhas.

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