Com 834 habitantes, Borá perde título de menor cidade do país

Município ocupava o posto há 23 anos, de acordo com censos do IBGE.
Entre janeiro e agosto, Borá teve cinco nascimentos e nenhum óbito.

David Jr. tem 2 meses e é um dos mais novos boraenses (Foto: Alan Schneider/G1)

A perda do título de menor cidade do Brasil pegou os moradores de Borá, SP, de surpresa. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) divulgado nesta quinta-feira, 29, o município, com 834 habitantes, deixou a posição ocupada por 23 anos para Serra da Saudade, MG, que tem 825 moradores.

O prefeito da cidade, Luiz Carlos Rodrigues, aponta entre os motivos para o ganho de 27 novos moradores o fluxo de entrada e saída de trabalhadores em uma usina de açúcar e álcool e a tranquilidade da cidade, que atrai principalmente pessoas aposentadas.

“Em Borá, 99% dos empregos gerados são da usina, mas talvez a tranquilidade da cidade seja o principal fator para atrair novos moradores”, diz ele.

A usina, inaugurada em 2003, abriu 471 vagas no último ano,  mas a maioria dos trabalhadores ainda mora na cidade vizinha de Paraguaçu Paulista.

Alguns trabalhadores, no entanto, preferem virar cidadãos boraenses de vez, como é o caso de José Aparecido João, de 45 anos. Operador de máquinas, ele saiu de Paraguaçu Paulista para ficar mais perto do local de trabalho e é o mais recente morador: entrou na nova casa pela primeira vez na noite de quinta-feira. “Conseguimos uma casa em um conjunto habitacional. Além disso, é mais próximo do meu trabalho e tem uma tranquilidade difícil de encontrar em outras cidades. Borá é chique demais e quero viver sossegado pelo resto da minha vida”, diz.

José, o mais novo morador de Borá, trouxe a mudança na quinta-feira (Foto: Alan Schneider/G1)

Já Elenilson Ramos, de 38 anos, veio de mais longe. Ele saiu de Alagoas em 2006 para morar e trabalhar em Borá. Tratorista na usina, ele afirma que irá se aposentar na cidade. “Vim para cá por causa da oportunidade de emprego na usina. Trouxe minha mulher e minhas duas filhas. Amo essa Borá. Tem tranquilidade e sem violência. Quero me aposentar por aqui.”

Sossego e progresso
A tranquilidade citada pelos moradores é um dos atrativos para o crescimento populacional. Nas ruas de Borá não há trânsito e o som dos pássaros ecoa mais alto.

Elenilson Ramos deixou alagoas em 2006
(Foto: Alan Schneider/G1)

Balconista de uma farmácia, Rodrigo Bonilha, de 27 anos, mora em Paraguaçu Paulista, mas já se sente um integrante da cidade. “Viajo todos os dias, mas em Borá, o relacionamento com as pessoas é muito bom. Conheço todo mundo. Aos poucos, a gente começa a ver o desenvolvimento.”

Os bebês boraenses também têm sua parcela de “culpa” na perda do título de menor cidade do Brasil. Entre janeiro e agosto deste ano, Borá teve cinco nascimentos e nenhum óbito. Em 2012 foram 18 partos e apenas uma morte.

Um dos recém-chegados é David Júnior, de apenas dois meses completados nesta quinta-feira. O pai do bebê, Welington Pinheiro da Silva, de 22 anos, mora em Borá há 10 anos. “O nosso filho é mais um que somou para a cidade. É bom ver que o município está crescendo. Tem pessoas diferentes e pode aumentar o movimento. É preciso ter mais opções e festas. David Júnior é um boraense com futuro na cidade.”

Empregos e sossego fazem Borá perder o título de menor do país

Impacto na economia
Mas o crescimento da cidade também é visto com certa desconfiança. “A receita da cidade não deve aumentar. Por outro lado, a renda per capita vai cair e muito. O crescimento é positivo, o progresso, mas temos que nos preocupar em manter os serviços nas áreas da saúde, educação. Será que nós vamos conseguir continuar oferecendo o que sempre oferecemos? Temos que aguardar para esperar o impacto que isso irá trazer”, afirma o prefeito Luiz Carlos.

Segundo ele, o título de menor cidade do país ajudava a conquistar recursos para a cidade. “Sempre brinco que Borá é a caçulinha do estado. O pai sempre tem que olhar para o filho menor. Agora, como a menor cidade do estado e a segunda do país”, diz.

O aposentado Valcir Lopes de Macedo, de 55 anos, também espera que o sossego e a rotina pacata da cidade não sejam interrompidos tão cedo. “Aqui é tranquilo. A gente brinca que é a menor cidade, mas todo mundo leva na esportiva. Moro na cidade há quase 15 anos e, se o crescimento vier, que venha também com mais saúde, educação. E claro, que continue sem bandidagem.”

História
Borá foi elevada à categoria de município em 1964, desmembrada de Paraguaçu Paulista. No primeiro levantamento populacional realizado pelo IBGE na cidade, em 1970, Borá tinha 1.270 habitantes e era a décima cidade menos populosa do país. Já em 1980, a cidade ficou em segundo lugar, com 866 habitantes.

A partir do censo do IBGE de 1991, Borá passou a ocupar o posto de cidade menos populosa do país, com 751 habitantes. No último censo, em 2010, o município continuava a ser o menos populoso, com 805 habitantes.

No entanto, um levantamento da estimativa populacional feito em 2012 apontou que cidade, que obteve dois habitantes a mais, havia passado a dividir o posto com a cidade mineira. As duas tinham 807 habitantes em 2012. De lá para cá, Borá somou mais 27 moradores, chegando a 834.

A tendência é que a cidade ganhe mais moradores em breve. Em agosto deste ano a Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU) entregou 101 casas do conjunto habitacional “Parque das Flores” para atender parte das 231 famílias inscritas, entre elas a de José Aparecido, que se mudou na quinta-feira.

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