Para o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, o Condeph, a morte do jovem Brian Cristian Bueno da Silva, de 22 anos, é um caso de homicídio doloso, quando há intenção de matar. O jovem foi morto com um tiro no pescoço durante uma abordagem policial no dia 9 de junho em Ourinhos. “O mais preocupante é esse policial militar estar solto, não podia estar solto”, ressalta Luiz Carlos dos Santos, da comissão de vítimas de violência do Condepe
O policial que fez o disparo chegou a ser preso em flagrante por homicídio culposo, mas foi liberado e afastado das atividades externas do Batalhão. A Polícia Civil pediu a prisão temporária dele na quarta-feira (22) e aguarda a decisão da justiça.
O Condep teve acesso e analisou as imagens da abordagem policial, que foram registradas pelo circuito de segurança de um estabelecimento comercial que fica próximo ao local onde os fatos ocorreram. As imagens mostram toda abordagem e também a tentativa de socorro dos policiais após o tiro, que a Polícia Militar afirma ter sido acidental.

Na opinião do Conselho, a atitude do policial na abordagem foi desnecessária. O relatório do Condepe afirma que ao ter se aproximado do carro com a arma em punho, quando o veículo já estava parado, sendo que os jovens não tinham cometido nenhum crime e não houve nenhuma reação, o soldado da PM cometeu um homicídio doloso, assumindo o risco de matar a vítima, além de ter colocado em risco a vida de uma segunda pessoa, que já estava dentro da ambulância do Samu, parada pelos policiais. “Analisando o vídeo, foi parado um resgate e a pessoa que estava entubada foi colocada em outra ambulância, então poderia ter ocorrido uma segunda morte e desnecessária, porque os amigos do Brian alegam que ele morreu ali mesmo”, completa o conselheiro.
O Condeph também ouviu a família da vítima e testemunhas em São Paulo e requisitou ao comando da PM cópia de todas as gravações do Centro de Operações da Polícia Militar, com diálogos e trocas de informações entre os PMs no dia do crime. O conselho também pretende acionar a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a Anistia Internacional e até a relatoria sobre execuções sumárias da ONU, para acompanhar o caso e cobrar providências das autoridades da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.[su_youtube url=”https://www.youtube.com/watch?v=XrKrjiPniYQ” width=”620″]
Inquérito policial
Também para delegado João Befa, da DIG de Ourinhos, o policial assumiu o risco de matar quando sacou e apontou a arma para Brian. Com base nas imagens e em todas as informações da investigação ele pediu a prisão temporária do soldado.

Brian morreu baleado durante uma abordagem da Polícia Militar, na madrugada do dia 9 de junho, próximo ao recinto da Fapi – Feira Agropecuária e Industrial de Ourinhos -, que fica na Avenida Jacinto Ferreira de Sá, em Ourinhos.
Além de toda a investigação, o pedido de prisão levou em conta também o relatório da perícia técnica que analisou as imagens da abordagem dos policiais. As imagens foram cedidas pelo Conselho Estadual de Defesa Humana (Condepe) que também apura o caso (veja as imagens acima). A Polícia Civil só teve acesso às imagens na terça-feira passada.
No vídeo do circuito de segurança de um estabelecimento comercial próximo estava em posse da Polícia Militar e só foram enviadas ao delegado após ele enviar um requerimento à Justiça. A gravação começa às 2h30.
O local está movimentado por causa de uma feira de exposições que era realizada na época. Quatro minutos depois, uma ambulância do Samu passa com o giroflex ligado e segue em direção ao recinto onde é realizado o evento, possivelmente para fazer um atendimento. Às 2h36, o policial que fez o disparo contra Brian aparece subindo a avenida em que os fatos ocorreram.
Um minuto depois, outro policial para o carro onde estava Bryan e quatro amigos. O primeiro policial que subiu a rua reaparece, se aproxima do carro já tirando a arma da cintura e parece fazer gestos de ameaça aos jovens e logo dispara. É tudo muito rápido. Logo em seguida os quatro ocupantes do carro saem do veículo, pelo lado do motorista. Os policiais também se afastam do carro e logo muita gente começa a se aproximar para ver o que acontecido.
Às 2h40, o vídeo mostra que os policiais param a ambulância do Samu que minutos antes tinha passado pelo local. É possível ver que eles pedem o atendimento, um dos PMs chega até abrir a porta da ambulância. As imagens mostram ainda que o jovem teve uma parada cardiorrespiratória, porque os médicos iniciam a massagem cardíaca e durante 12 minutos os médicos tentam reanimar o jovem até que ele é levado para a ambulância. Bryan chegou a ser levado para o hospital, mas já chegou ao local morto.
As imagens foram anexadas ao inquérito que investiga o caso. A Polícia Civil também apura a informação de que policiais tentaram apagar as imagens gravadas pelas câmeras, e ainda teriam ameaçado os socorristas da ambulância. O soldado chegou a ser preso em flagrante, mas depois foi solto para responder aos inquéritos em liberdade. A Polícia Militar alega que o tiro foi acidental, mas abriu um processo na Corregedoria para apurar a conduta do policial no âmbito administrativo.

“Nós analisamos as imagens no dia mesmo do ocorrido e constatamos que tudo o que os policiais disseram que ocorreu naquele dia e também as testemunhas, vendo as imagens foi possível ver que tinha verdade no que disseram. A Polícia Civil foi acionada assim que os fatos ocorreram e o aviso ao delegado plantonista consta inclusive do BO da PM inicial”, afirma a comandante da PM, Cenize Araújo Calasane.
No entanto, o relatório sobre o caso elaborado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Ourinhos aponta que o soldado assumiu o risco de matar o jovem. “O delito, em tese, praticado pelo policial militar (…) é doloso. Se não direto ao mesmo na sua forma eventual, segundo o entendimento destes signatários”, informa trecho do inquérito da DIG.
“Fica claro que o policial militar (…) quando efetuou a abordagem segurando a camisa da vítima Bryan Cristian Bueno da Silva com uma das mãos e apontando a arma de fogo, tipo pistola, com a outra, para o peito do jovem, no mínimo assumiu o risco de produzir o resultado morte ao dispará-la”, continua o documento da Polícia Civil.
Ainda de acordo com o delegado da DIG, a arma usada pelo policial não foi entregue para a perícia. “A arma deveria ter sido submetida a um exame complementar para poder averiguar se ela apresentava alguma falha que poderias acionar o disparo sem o acionamento do gatilho e a polícia não tem a arma para fazer esse exame. Não descartamos a possibilidade de pedir judicialmente a entrega dessa arma”.
E diante de todos esses fatos, que indicam uma ação da PM de atrapalhar as investigações, o delegado afirma que foi avaliada a necessidade da prisão temporária. “O que levou ao pedido de prisão não é apenas as imagens , o que nos levou ao convencimento da necessidade da prisão temporária é o conjunto de tudo que está nos autos e fazem parte das investigações”, completa.
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