Filha de contador morto em briga em Assis encontra paciente que recebeu órgão do pai

Depois da trágica perda do pai, Roberto da Cruz, morto por um soco de um segurança após tentar separar uma briga em um clube da terceira idade em Assis (SP) no ano de 2019, a maquiadora, Roberta da Cruz, de 21 anos, teve a oportunidade de conhecer o paciente que recebeu a doação de um órgão do seu pai.

O encontro aconteceu neste mês agosto, após muita obstinação do aposentado e morador de Marília (SP), Manoel Gomes, de 50 anos, que procurou a família do seu doador por cerca de 2 anos.

“O seu Manuel disse que estava nos procurando há cerca de 2 anos e ele foi até o hospital, deixou uma carta, porque os funcionários não são autorizados a passar os dados dos pacientes. Aí eles lembraram e entraram em contato com meu tio, porque foi um caso muito comovente na época. Então meu tio foi buscar a carta e achou muito bacana, aí conseguimos marcar o encontro”, conta Roberta.

Roberta relembra que nunca pensou que conheceria alguém que recebeu um órgão do seu pai e recorda que ser doador foi um desejo dele expressado ainda em vida. Por isso, ela e o tio, João da Cruz, autorizaram a doação.

“Minha mãe lembrou de uma conversa que teve com ele quando ainda estavam casados em que ele disse que tinha o desejo de ser doador de órgãos quando morresse. Depois disso, eu e meu tio conversamos e decidimos que iriamos dar a autorização. Fomos nós que assinamos.”

O que a maquiadora nunca imaginou é que um dia chegaria a conhecer alguém que teve a vida salva pelo gesto do pai e recorda emocionada o encontro que teve com o aposentado e sua família.

“Eu não esperava conhecer ele e, se não fosse a persistência do Seu Manoel, não teríamos essa conversa. Foi muito emocionante e ficamos muito gratos, porque de alguma forma foi como se meu pai estivesse presente lá.”

Já para Manoel, o encontro foi o desfecho de um longo tempo de espera até que conseguisse conhecer a família do seu doador para que pudesse agradecer pela doação como desejou desde o dia em que fez o transplante.

“Fiz a cirurgia em 14 de fevereiro de 2019 em São José dos Campos. Logo depois da cirurgia, eu tive vontade de conhecer eles pra agradecer. Eu fui ao hospital fazer uma endoscopia e pedi para que entregassem a carta à família do meu doador e chegou para o João [irmão do doador]. Foi muito emocionante quando ele me ligou, eu fiquei super emocionado. Ai deu vontade de ir lá em Assis, mas o João acabou vindo pra cá.”

A emoção do encontro entre as famílias não foi à toa, já que diante de uma triste perda, o transplante de fígado recebido por Manoel deu à ele a possibilidade de sobreviver depois de enfrentar graves complicações de saúde devido a um diagnóstico de Hepatite C.

“Eu peguei hepatite C e descobri a doença através de um sangramento que tive na gengiva quando fui ao hospital e logo fiquei internado. Foram 5 anos e 8 meses em que eu estava muito mal por conta da hepatite, tive muita hemorragia e meu fígado acabou sendo severamente comprometido. Se não fosse a doação, eu teria morrido.”

Roberta conta que ela e o pai, Roberto da Cruz, eram muito próximos antes da morte do pai em Assis (SP) — Foto: Roberta da Cruz/ Arquivo pessoal
Roberta conta que ela e o pai, Roberto da Cruz, eram muito próximos antes da morte do pai em Assis (SP) — Foto: Roberta da Cruz/ Arquivo pessoal

Como uma família

A afinidade entre Roberta, João e a família de Manoel foi imediata. O encontro marcou a formação de uma nova família unida pela solidariedade e o desejo de ajudar ao próximo. Afinal, a doação de órgãos também é uma forma de transformar a dor em vida.

“Foi muito gratificante pra mim, porque de um jeito ou de outro eu sei que meu pai se faz presente aqui na terra e ele vai estar sempre aqui comigo. Seu Manoel é super parecido com meu pai, é super brincalhão, gosta de pescar, eu vi nele diversos traços do meu pai e ele já estava chamando meu tio de meu irmão. Agora a gente vai se encontrar sempre, somos como uma família só”, lembra Roberta.

Além de aumentar a família, a gratidão por este encontro fez com que Manoel entendesse com muito mais clareza a importância da doação de órgãos para salvar vidas. Ele que era doador, mas precisou deixar de ser por conta da hepatite C e agora por ser um transplantado, ressalta a necessidade de conscientizar as pessoas sobre este tema.

“A doação é uma coisa difícil de acontecer e eu nunca pensei que isso seria tão importante, mesmo sendo um doador, até precisar de uma doação e ver como tudo funciona. É muito importante, porque se não fosse o órgão doado, eu realmente poderia ter morrido dias depois do Roberto. Eles tiveram um coração enorme e me doaram. Eu não teria sobrevivido, porque eu estava muito mal. Fiquei apenas 5 meses na fila, porque o meu caso se agravou muito”, relata o aposentado.

O primeiro encontro entre as famílias foi apenas o começo de uma nova história. A falta de Roberto vai continuar sendo sentida, mas ganha novos significados com o tempo e através de encontros como o que uniu a sua família a família do Manoel, que teve a oportunidade de completar mais um ano de vida e chegar aos 50 anos na última quarta-feira (18).

“A hora em que eu vi o João e a Roberta, dava a impressão que eu já conhecia eles. A gente sente tristeza por eles terem perdido o Roberto, o irmão, o pai né, porque é muito difícil, mas ficamos felizes em conhecê-los. Nós agora vamos combinar de nos encontrar sempre”, diz Manoel.

Durante encontro, famílias tiraram a máscara apenas para fazer as fotos na casa de Manoel em Marília (SP) (à direita de blusa azul, João, tio de Roberta) — Foto: Roberta da Cruz/ Arquivo pessoal
Durante encontro, famílias tiraram a máscara apenas para fazer as fotos na casa de Manoel em Marília (SP) (à direita de blusa azul, João, tio de Roberta) — Foto: Roberta da Cruz/ Arquivo pessoal

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