Professor da Unesp de Assis publica inéditos de Olavo Bilac

© Olavo Bilac (1865 - 1918)

Olavo Bilac (1865 – 1918)

Às vésperas do centenário de morte de Olavo Bilac, o mais popular poeta parnasiano, que ocorrerá em 2018, vêm à luz as suas Sátiras com parte significativa de sua produção no gênero. Organizado por Alvaro Santos Simões Jr., professor da Unesp de Assis, o livro inaugura a Coleção Brasil, projeto da Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização, que é vinculada ao Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Universidade de Lisboa.

Dirigida por Vania Pinheiro Chaves, docente e pesquisadora que dedicou toda a sua carreira à divulgação e promoção da cultura brasileira em terras europeias, a Coleção Brasil objetiva, como se lê em seu site na internet, “disponibilizar um amplo e representativo conjunto de textos, inéditos ou esquecidos, do patrimônio literário, histórico ou cultural do Brasil, privilegiando a publicação online”. Com efeito, as Sátiras, quarto volume da série, podem ser obtidas integral e gratuitamente no seguinte endereço eletrônico: http://cidh-global.org/colecao-brasil-2/

Se estivesse vivo, talvez o próprio autor dos poemas satíricos em questão ficasse contrariado com a sua divulgação, pois, pouco antes de morrer, deixou instruções precisas e peremptórias aos seus herdeiros para que não publicassem seus textos de imprensa.

Bilac provavelmente preferia ser lembrado muito mais pelos seus poemas parnasianamente perfeitos do que pela “frívola e irônica literatura” que espalhou pelos jornais, sempre com pseudônimos como forma de diferenciá-la de sua produção “séria”. Foi em 1915, no Clube Militar do Rio de Janeiro, que se referiu dessa forma depreciativa a parte de sua produção jornalística, que julgava estar “muitas vezes eivada do fermento anárquico”.

Naquele contexto de Guerra Mundial e de sua campanha pelo alistamento militar obrigatório, convinha a ele justamente esquecer as ousadias do passado. Nas sátiras, assim como nas crônicas que já foram publicadas pelo professor citado acima (Crônicas da Belle Époque carioca, Editora da UNICAMP, 2012) e principalmente por Antonio Dimas (USP), organizador dos três volumes de Bilac, o jornalista, pode-se conhecer um pouco do ativismo político do poeta da Via Láctea, que fez oposição incansável a Floriano Peixoto e, posteriormente, combateu a carestia e outros sérios problemas enfrentados pela população do Rio de Janeiro.

Nas Sátiras, agora publicadas, encontram-se dois poemas satíricos que criticam, por seu desrespeito à Constituição republicana, o presidente que passou à história como o Marechal de Ferro. Bilac pode, portanto, figurar na literatura brasileira, ao lado de Lima Barreto, como um dos principais críticos do chamado “Consolidador da República”. Em função do seu posicionamento corajoso contra quem considerava um “ditador”, o poeta parnasiano foi preso três vezes e precisou exilar-se em Minas Gerais, onde nos anos de 1893 e 1894 contou com o apoio de lideranças políticas locais.

Como a sátira “parasita” outros gêneros ou formas textuais, o quarto volume da Coleção Brasil organiza-se de acordo com as formas poéticas adotadas por Bilac. Por isso, encontram-se os textos divididos em poemas herói-cômicos (paródias de Camões), esquetes, sonetos, odes, crônicas, canções, fábula e epigramas.
A qualidade literária dos textos é relativamente desigual, mas se encontram entre eles obras-primas do gênero satírico como o texto “Um poema”, que se constitui de uma fusão muito bem engendrada entre a sátira e a paródia. De um lado, inimigo que era da jogatina, Bilac critica, sob o pseudônimo de Fantasio, o barão de Drummond, criador do popular jogo do bicho; de outro, ridiculariza o estilo poético dos então chamados “nefelibatas”, que, inspirados em Verlaine ou Mallarmé, procuravam apresentar uma alternativa ao hegemônico parnasianismo. Do seu ponto de vista, tanto o velho titular do Império quanto os jovens discípulos de Guerra Junqueiro estariam empenhados em explorar a boa-fé do público.

Para cada texto reunido no volume, indicam-se o título do periódico e a data da publicação original. Em poucos casos, claramente indicados, os textos foram transcritos diretamente de livros. A maioria dos textos, porém, é publicada em volume pela primeira vez.

Alvaro Simões Jr. dedica-se à obra de Olavo Bilac desde seu curso de Mestrado, realizado de 1992 a 1995, período em que estudou a seção humorística “O Filhote”, que se publicou na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, nos anos de 1896 e 1897. Durante o seu doutoramento, concluído em 2001, levantou e analisou a obra satírica de Olavo Bilac publicada em periódicos de 1894 a 1904.

O resultado desse trabalho pode hoje ser apreciado no livro A sátira do Parnaso (Editora da UNESP; FAPESP, 2007). Durante sua carreira de professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Ciências e Letras de Assis (UNESP), Simões Jr. deu prosseguimento ao estudo do poeta parnasiano.
Seus trabalhos mais importantes reuniram-se no livro Bilac vivo, que se encontra no prelo e deverá ser em breve publicado pela editora da UNESP. Por essa mesma casa editorial, o pesquisador já estampou seus Estudos de literatura e imprensa(2015), dos quais consta um estudo sobre os livros escolares escritos por Bilac, defensor intransigente do ensino básico público e universal. Trata-se do ensaio intitulado “Literatura paradidática e nacionalismo na Primeira República”. OsEstudos de literatura e imprensa estão disponíveis para download gratuito no site da Editora da UNESP.


 

Um poema
[Gazeta de Notícias, 5 de abril de 1895]

Não tenho querido até hoje abrir esta coluna às produções dos jovens poetas que me têm enviado as suas rimas. Faço hoje uma exceção em favor do Sr. Jaime de Ataíde, moço escritor que os leitores da Gazeta já conhecem pelo seu romanceSanatorium, aqui publicado há três meses.[1] O Sr. Jaime de Ataíde envia-me um pequeno e belo poema, vazado nos moldes da escola decadista.[2] São versos sugestivos, que lembram a nova maneira de Guerra Junqueiro no volume dosSimples.

Em carta particular, reservadíssima, diz-me o poeta que esses versos “são a antevisão daquilo que, dentro em poucos dias, se vai passar nas alamedas do Jardim Zoológico”. Não sei se os leitores apreciarão devidamente o perfume de originalidade e de graça dessas estrofes. Se as não compreenderem, paciência! Lembrem-se[3] de que os nefelibatas escrevem para um grupo limitadíssimo de iniciados.

Aqui vai a preciosa produção:

(Um jardim mystico.[4] Na lívida noite idealizadora, um barão pálido sobraça a caixa dos vinte e cinco desejos.[5] Esbatem-se no céu merencório rosários de Meias-Tintas e de Sub-Sugestões. Luares de gelo escorrem por franças lúridas de casuarinas trágicas. Em jaulas trevosas, em que mora o Espanto, bichos truculentos uivam. A Terra-Mãe floresce em açucenas e gangrenas, em lyrios e martyrios. E o barão pálido, pálido como os Bradamantes dos vitrais[6] góticos, cisma, na lívida noite espiritualizada, entre os soluços brancos do luar:)

Ao luzir d’Alva, venho ao jardim…

Encho de bichos estes cortiços…

Ó que feitiços de compromissos!

Ai! que rico jardim! ai! que rico jardim!

Ao lusco-fusco, venho ao pomar…

Encho de contos as algibeiras…

Ó cordilheiras de pechincheiras!

Ai! que rico pomar! ai! que rico pomar!

Nossa Senhora da Aparecida,

Com anjos alvos presos ao manto,

Viu as tristezas da minha vida,

Viu os meus olhos cheios de pranto…

Ai! que rica Senhora! ai! que rica Senhora!

Vendo-me em prantos, ao vir a aurora,

Em voz me disse

Trêmula e baixa:

— Toma estas poules![7] toma esta caixa,

Semeador!

Há pelo mundo tanta tolice,

Semeador!

Toma esta caixa, vai semeando

Bichos e poules, poules e bichos,

Semeador!

Fui semeando… fui engordando…

Vi satisfeitos os meus caprichos…

Ai! que rica Senhora! ai! que rica Senhora!

Mas um prefeito, mais-que-prefeito,

Matou as flores do meu jardim

E sete espadas cravou-me ao peito…

Ai! meu pobre jardim! ai! meu pobre jardim!

E os conselheiros do município

Cortam-me as rendas inda em princípio,

Matando as poules do meu pomar…[8]

Nossa Senhora da Aparecida!

Choro e soluço como o luar…

Que vai ser feito da minha vida?

Ai! meu pobre pomar! ai! meu pobre pomar!

Nas algibeiras, que desconsolos!

Pelos canteiros, que carrapichos!

Se ainda há bichos, não há mais tolos…

Não há mais tolos e ainda há bichos!

Ao luzir d’alva, vindo ao jardim,

Só vejo bichos nestes cortiços…

Ó meus feitiços! ó compromissos!

Ao lusco-fusco, vindo ao pomar,

Ó desventuras! ó quebradeiras!

Não acho contos nas algibeiras…

Pobre jardim!

Seco pomar…

(E o barão, pálido, pálido como os soluços do luar, abre desoladamente os braços na mudez da lívida e trágica noite. Dentro da caixa dos vinte e cinco desejos, vinte e cinco bichos uivam truculentamente. E no céu[9] merencório, sobre o lençol claro da Via Láctea, as onze mil virgens têm suspiros hystéricos…)

Agora, mais duas linhas de prosa pífia para que o meu nome não fique assinando esta obra-prima.

Fantasio

 

[1] O romance Sanatorium,  publicado na Gazeta de Notícias de 11 de novembro a 12 de dezembro de 1894 sob o pseudônimo Jaime de Ataíde, foi escrito a quatro mãos por Olavo Bilac e Carlos Magalhães de Azeredo (1872-1963). Em 1977, o Clube do Livro de São Paulo publicou o folhetim sob forma de livro.

[2] Referia-se o poeta à estética simbolista.

[3] No jornal: lembrem-se.

[4] Mantiveram-se os yy nesse poema porque provavelmente ironizavam o apego dos simbolistas por essa letra. V. LUSO, João.  Typos e symbolos. O Sr. Y.  In: DIMAS, Antônio.  Tempos eufóricos.  São Paulo: Ática, 1983.  p. 286-8.

[5] Como se sabe, João Batista Viana Drummond, o barão de Drummond, criador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, instituiu em 1893 o jogo dos bichos para custear o empreendimento. Até hoje os animais do jogo são vinte e cinco; a cada um correspondem quatro dezenas. Após comprar o seu ingresso, no qual vinha estampado o desenho de um bicho, o visitante aguardava até o final do dia, quando o próprio barão descia de um poste uma caixa onde pela manhã havia sido colocada uma gravura representando um animal. Eram premiados em dinheiro os visitantes cujo bilhete trouxesse a estampa do animal sorteado.

[6] No jornal: vitraes.

[7] Poules: bilhetes de loteria.

[8] Os intendentes do Conselho Municipal concederam ao prefeito plenos poderes para rescindir o contrato da Prefeitura com o Jardim Zoológico, tão criticado pela imprensa.

[9] No jornal: céo.

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